Bacalhau na Sexta-feira da Paixão: tradição religiosa portuguesa que se mantém viva no Brasil e no mundo
Comer bacalhau na Sexta-feira da Paixão é um hábito que se consolidou no Brasil ao longo de séculos. Saiba mais!
compartilhe
SIGA
Comer bacalhau na Sexta-feira da Paixão é um hábito que se consolidou no Brasil ao longo de séculos. Ele mistura orientações religiosas, influência portuguesa e adaptações ao contexto local. A tradição está tão presente que, em muitos lares, o peixe é quase um símbolo da data. Em especial, entre famílias católicas. Mesmo quem não segue rigorosamente os preceitos religiosos costuma associar o feriado a mesas fartas com pratos à base desse pescado conservado em sal.
O ponto de partida para entender essa prática está na doutrina cristã, em especial na tradição católica. Afinal, a Sexta-feira da Paixão relembra a morte de Jesus Cristo, e, por isso, é considerada um dia de penitência e recolhimento. Durante muitos anos, a Igreja recomendou que os fiéis evitassem o consumo de carne vermelha, que se associa a festas e à ideia de banquete, adotando o peixe como alternativa. Assim, o bacalhau se encaixou como um alimento que permitia respeitar a abstinência de carne, sem abrir mão de uma refeição para reunir a família.
Por que o bacalhau virou símbolo da Sexta-feira da Paixão?
A escolha específica do bacalhau tem forte ligação com a história de Portugal e com a forma como o pescado era conservado. Desde a época das grandes navegações, portugueses utilizavam o bacalhau salgado e seco como alimento durável em longas viagens. Afinal, o produto conseguia atravessar o oceano sem estragar, o que o tornava estratégico tanto para o consumo cotidiano quanto para datas especiais. Assim, quando os portugueses chegaram ao Brasil, trouxeram consigo esse hábito, que foi se integrando aos costumes locais. Em especial, nas regiões com forte presença católica.
Com o passar do tempo, o bacalhau deixou de ser apenas um item que se ligava à sobrevivência em viagens marítimas e passou a ocupar um lugar de destaque em festas religiosas e familiares. Nas colônias e, posteriormente, no Brasil independente, o peixe começou a aparecer em ocasiões como Natal e Páscoa. A Sexta-feira da Paixão, por ser um dia em que a carne vermelha era evitada, tornou-se o momento em que o bacalhau ganhava protagonismo. Assim, surgiram versões brasileiras de receitas tradicionais, muitas vezes adaptadas com ingredientes locais, como azeite nacional, batata-doce, mandioca e pimentões variados.
Como a tradição portuguesa se adaptou à cultura brasileira?
No Brasil, a tradição do bacalhau na Sexta-feira Santa foi sendo mesclada com sabores regionais e diferentes formas de preparo. Em vez de seguir apenas as receitas típicas da culinária lusitana, como o bacalhau à Gomes de Sá ou à Brás, cozinheiros brasileiros criaram variações que dialogam com insumos disponíveis no país. Assim, essa adaptação cultural ajudou a popularizar o peixe para além das famílias de origem portuguesa. Ou seja, tornou o prato um elemento presente em restaurantes, padarias e mercados durante o período da Páscoa.
- Uso de legumes locais, como abóbora e quiabo, em algumas receitas regionais;
- Inclusão de azeite de dendê ou leite de coco em versões inspiradas na culinária baiana;
- Transformação do bacalhau em tortas, bolinhos e escondidinhos, facilitando o consumo em diferentes formatos.
Essa flexibilidade fez com que o bacalhau deixasse de ser apenas como um alimento importado e caro, sendo reinterpretado em receitas mais simples e acessíveis. Ainda assim, em muitas cidades, o peixe associa-se a um momento especial do calendário religioso, com reunião familiar e um cardápio preparado com antecedência.
Outros países também evitam carne na Sexta-feira da Paixão?
A tradição de não comer carne vermelha na Sexta-feira da Paixão não é exclusiva do Brasil. Em diversos países de maioria cristã, práticas semelhantes se mantêm. Na Itália, por exemplo, é comum o consumo de peixes variados, frutos do mar e pratos à base de bacalhau, ainda que nem sempre com o mesmo destaque que ganhou no Brasil. Na Espanha, receitas com peixe, grão-de-bico e espinafre fazem parte do cardápio da Semana Santa. Por sua vez, em nações anglófonas, como Irlanda e Canadá, muitas famílias optam por peixe empanado ou assado, mantendo a lógica da abstinência de carne vermelha.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
- Portugal: forte presença do bacalhau em diferentes receitas na Semana Santa;
- Itália: preferência por peixes frescos e frutos do mar em jantares de Sexta-feira Santa;
- Espanha: combinação de peixe com leguminosas em pratos tradicionais da Quaresma;
- Países latino-americanos: consumo de peixes regionais, como tilápia, merluza e outros pescados locais.
No Brasil de 2026, mesmo com mudanças de hábitos alimentares e maior diversidade de opções, a tradição do bacalhau na Sexta-feira da Paixão continua presente. Alguns optam por outros tipos de peixe ou versões sem proteína animal, mas o costume permanece fortemente associado à data. A combinação de motivo religioso, herança portuguesa e capacidade de adaptação à culinária local ajuda a explicar por que o bacalhau segue ocupando espaço de destaque nas mesas brasileiras nesse período do ano.