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Ingrediente do Viagra pode ser o primeiro tratamento eficaz para doença infantil mortal

Ingrediente do Viagra pode tratar síndrome de Leigh infantil, melhorando função mitocondrial e qualidade de vida, segundo estudo da Charité

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A síndrome de Leigh, também chamada de encefalomiopatia necrosante subaguda, é uma doença neurológica rara que aparece principalmente na infância. Ela está ligada a falhas nas mitocôndrias, estruturas celulares responsáveis pela produção de energia. Quando essas usinas não funcionam adequadamente, o cérebro, os músculos e outros órgãos passam a receber menos energia do que precisam para manter suas funções básicas.

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Em muitos casos, os primeiros sinais surgem ainda nos primeiros anos de vida, com atraso no desenvolvimento motor, dificuldade para sustentar a cabeça, problemas para engolir e respirar, além de perda de habilidades que já haviam sido adquiridas. Por ser uma condição genética complexa, as manifestações variam bastante entre as crianças, o que torna o diagnóstico e o acompanhamento clínico desafiadores para as equipes de saúde.

O que torna a síndrome de Leigh tão grave?

A gravidade da síndrome de Leigh está relacionada à combinação de três fatores: progressão rápida, acometimento de áreas vitais do sistema nervoso central e ausência de tratamento curativo estabelecido. Lesões típicas surgem em regiões profundas do cérebro, como tronco encefálico e gânglios da base, que controlam funções essenciais, entre elas respiração, tônus muscular e movimentos voluntários.

Além das alterações neurológicas, muitos pacientes desenvolvem problemas respiratórios, cardíacos e metabólicos. Infecções comuns ou pequenos estresses físicos podem desencadear pioras súbitas. Em diferentes levantamentos internacionais, a síndrome é descrita como uma doença com alta mortalidade na infância, principalmente nos primeiros anos de vida. Por isso, qualquer proposta de tratamento que consiga estabilizar o quadro ou retardar a progressão é considerada de grande relevância.

Mais fluxo sanguíneo, mais energia para o cérebro: a Sildenafila pode ajudar a desacelerar a progressão da doença – depositphotos.com / Makaule

Como a sildenafila, ingrediente ativo do Viagra, entra nessa história?

Sildenafila, o componente farmacológico do Viagra, é amplamente conhecido pelo uso em disfunção erétil e hipertensão arterial pulmonar. Pesquisadores perceberam que o medicamento tem um efeito importante sobre os vasos sanguíneos: ele melhora a dilatação vascular e aumenta o fluxo de sangue em determinados tecidos. A partir dessa propriedade, surgiu a hipótese de que o fármaco poderia beneficiar crianças com síndrome de Leigh, cuja principal dificuldade é a baixa disponibilidade de energia para o cérebro.

Em estudos recentes, incluindo o trabalho coordenado pela Charité Universitätsmedizin Berlin, a sildenafila foi avaliada em crianças com formas graves da doença. A ideia central era simples, do ponto de vista fisiológico: se fosse possível aumentar o fluxo sanguíneo cerebral e otimizar o fornecimento de oxigênio e nutrientes, talvez as células nervosas conseguissem produzir energia de maneira um pouco mais eficiente, mesmo com as mitocôndrias comprometidas. Dessa forma, o medicamento seria uma espécie de apoio indireto ao metabolismo celular.

De que forma a sildenafila ajudou os pacientes com síndrome de Leigh?

Nos relatos dos estudos, a sildenafila foi administrada em doses ajustadas ao peso da criança, como já é feito em tratamentos pediátricos para hipertensão pulmonar. O monitoramento clínico incluiu exames de imagem do cérebro, avaliações neurológicas e testes de função motora. Em alguns casos, também foram utilizados exames para medir o fluxo sanguíneo cerebral antes e depois do início do medicamento.

Os pesquisadores observaram que a sildenafila contribuiu para melhorar a perfusão em áreas afetadas do cérebro. Em termos práticos, isso significa que determinadas regiões cerebrais passaram a receber mais sangue por unidade de tempo. Com isso, células nervosas que estavam sob forte estresse energético puderam manter ou recuperar parte de suas funções. O impacto não foi apenas laboratorial: houve relatos de estabilização do quadro clínico em crianças que antes apresentavam piora rápida e contínua.

Quais melhorias foram observadas nas crianças tratadas?

As melhorias descritas envolvem principalmente aspectos motores e respiratórios, além de sinais indiretos de melhor qualidade de vida. Entre os pontos destacados nos estudos, podem ser citados:

  • Estabilização ou ganho de habilidades motoras: em algumas crianças, houve manutenção da capacidade de sentar, segurar objetos ou realizar movimentos voluntários simples, o que anteriormente vinha sendo perdido com o avanço da doença.
  • Melhora no controle respiratório: observou-se redução de episódios de piora respiratória aguda, com menor necessidade de suporte ventilatório em determinados casos.
  • Redução na velocidade de progressão: exames de imagem mostraram que as lesões cerebrais típicas da síndrome de Leigh tendiam a progredir mais lentamente durante o uso da sildenafila.
  • Maior estabilidade clínica geral: as crianças apresentaram menos períodos de descompensação grave associados a infecções ou pequenos estresses metabólicos.

É importante ressaltar que a sildenafila não corrige o defeito genético de base e não representa uma cura. O que os dados sugerem é uma modulação do curso da doença, com ganho de tempo e preservação de funções que, em muitos cenários, seriam rapidamente perdidas. Para uma enfermidade altamente letal na infância, esse tipo de resultado é considerado um avanço significativo do ponto de vista médico.

Pequenos avanços fazem grande diferença: estudos indicam melhora na estabilidade clínica de crianças com Síndrome de Leigh – depositphotos.com / IgorTishenko

Por que o estudo da Charité Universitätsmedizin Berlin é tão importante?

O estudo conduzido pela Charité Universitätsmedizin Berlin ganhou destaque porque reuniu evidências sistematizadas de que a sildenafila pode ser o primeiro tratamento com impacto consistente na evolução da síndrome de Leigh. A instituição tem tradição em pesquisas sobre doenças mitocondriais, o que contribuiu para um desenho de estudo cuidadoso, com critérios claros de inclusão, acompanhamento e análise de resultados.

Entre os motivos que explicam a relevância desse trabalho, podem ser mencionados:

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  1. Reposicionamento de um medicamento já conhecido: a sildenafila é um fármaco com perfil de segurança amplamente estudado em adultos e crianças, o que pode acelerar a transição da pesquisa para a prática clínica, caso novos estudos confirmem os benefícios.
  2. Prova de conceito para terapias vasculares em doenças mitocondriais: o sucesso observado abre caminho para investigar outros agentes que melhorem o fluxo sanguíneo ou a oferta de energia ao cérebro em condições semelhantes.
  3. Atenção global à síndrome de Leigh: a publicação dos resultados em centros de referência tem aumentado o interesse de grupos de pesquisa de vários países, ampliando a possibilidade de ensaios clínicos multicêntricos.
  4. Perspectiva para famílias e médicos: embora ainda sejam necessários estudos maiores, o trabalho apresenta uma opção terapêutica potencial em um cenário que, historicamente, contava apenas com medidas de suporte.

Com isso, a sildenafila passa a ser vista não apenas pelo seu uso tradicional, mas como um possível marco no tratamento da síndrome de Leigh e, possivelmente, de outras doenças mitocondriais graves. A continuidade das pesquisas, incluindo seguimento em longo prazo e expansão do número de pacientes estudados, tende a definir com mais precisão o lugar desse medicamento nos protocolos de cuidado infantil voltados a essa condição rara e severa.

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