Os pros e contras da Gígoia (aguapé) como biofiltro natural
A gigoia, também conhecida como aguapé (Eichhornia crassipes), é uma planta aquática flutuante amplamente estudada na fitorremediação de ambientes aquáticos.
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A gigoia, também conhecida como aguapé (Eichhornia crassipes), é uma planta aquática flutuante amplamente estudada na fitorremediação de ambientes aquáticos. Ao longo das últimas décadas, muitos pesquisadores empregam essa espécie em lagoas de tratamento, canais e reservatórios como um tipo de biofiltro natural para melhorar a qualidade da água. O interesse por essa planta ocorre principalmente por causa da sua velocidade de crescimento e da capacidade de acumular nutrientes e poluentes na biomassa.
Ao mesmo tempo em que a gigoia oferece benefícios ambientais relevantes, o uso descontrolado da espécie provoca impactos significativos sobre a dinâmica dos ecossistemas aquáticos. Por isso, a discussão sobre o emprego do aguapé na fitorremediação envolve tanto as vantagens na remoção de contaminantes quanto os riscos associados à sua proliferação. Desse modo, a escolha por utilizar essa planta em um determinado corpo dágua exige uma avaliação técnica cuidadosa e a definição de estratégias claras de manejo.
Como a gigoia atua na fitorremediação de ambientes aquáticos?
Na fitorremediação, a gigoia funciona como um filtro biológico, pois retira substâncias dissolvidas na água e as armazena em suas raízes, caules e folhas. O sistema radicular denso, que se desenvolve logo abaixo da superfície, aumenta a área de contato com a água e favorece a absorção de compostos como nitrogênio, fósforo, metais pesados e alguns poluentes orgânicos. Como cresce muito rápido, a planta incorpora grandes quantidades desses elementos em pouco tempo.
Além da absorção direta, a gigoia também cria microambientes entre as raízes, onde microrganismos se instalam e participam ativamente da degradação de poluentes. Bactérias e fungos ligados às raízes transformam compostos tóxicos em formas menos prejudiciais e, assim, potencializam o efeito de limpeza. Em muitos sistemas de tratamento, os operadores removem periodicamente a biomassa de aguapé, pois esse material vegetal concentra os poluentes.
A capacidade de adaptação da gigoia a diferentes condições de água doce, inclusive em locais com carga orgânica elevada, torna a planta uma ferramenta de baixo custo para projetos em áreas urbanas e rurais. Em pequenos corpos dágua, como lagoas de estabilização ou tanques de piscicultura, o manejo controlado dessa espécie contribui para reduzir a turbidez e o excesso de nutrientes. Além disso, em sistemas bem planejados, técnicos usam a biomassa colhida em processos de compostagem ou produção de biogás, o que agrega valor ao manejo.
Quais são as principais vantagens do uso da gigoia na remoção de poluentes?
A palavra-chave central nesse debate é fitorremediação com aguapé. Entre os pontos positivos, destaca-se a eficiência da planta na absorção de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo, presentes em efluentes domésticos e agrícolas. Ao reter esses elementos, a gigoia ajuda a conter processos de eutrofização, que se relacionam à proliferação de algas e à redução do oxigênio dissolvido na água.
Do ponto de vista ambiental, algumas vantagens costumam receber maior destaque:
- Baixo custo de implantação: gestores não precisam de infraestrutura complexa e, por isso, podem usar a planta em lagoas e canais já existentes.
- Alta taxa de crescimento: a espécie remove rapidamente grandes quantidades de nutrientes e contaminantes, desde que exista manejo adequado da biomassa.
- Captação de metais pesados: diversos estudos mostram a capacidade da gigoia em acumular metais como cádmio, chumbo, cromo e zinco em suas raízes.
- Redução de sólidos em suspensão: o emaranhado de raízes retém partículas finas e, assim, colabora para a clarificação da água.
- Sombras sobre a lâmina dágua: a cobertura reduz a incidência de luz e, em alguns contextos controlados, limita o crescimento de algas.
Essa combinação de características transforma o aguapé em uma alternativa interessante para projetos de saneamento descentralizado, pequenas estações de tratamento de efluentes e recuperação pontual de corpos dágua degradados. No entanto, esses projetos precisam incluir um plano de remoção e de destinação adequada da biomassa contaminada. Em muitos casos, equipes técnicas avaliam a possibilidade de usar a biomassa em energia, compostos orgânicos ou materiais para pesquisa, sempre com controle dos poluentes acumulados.
Impactos negativos: quando a gigoia se transforma em problema ambiental?
Os mesmos fatores que tornam a gigoia eficiente como biofiltro natural também geram desequilíbrios ecológicos quando ninguém controla o seu crescimento. O crescimento acelerado e a reprodução intensa por estolhos fazem com que a planta forme extensos tapetes sobre a superfície da água. Em rios, lagos e reservatórios sem manejo, essas massas vegetais bloqueiam a passagem de luz, restringem a troca gasosa e comprometem a fauna aquática.
Entre os principais impactos negativos do aguapé, destacam-se:
- Crescimento excessivo: a cobertura integral da superfície reduz a fotossíntese de outras plantas aquáticas e interfere na oxigenação da coluna dágua.
- Invasão de ecossistemas: em áreas onde a espécie não é nativa ou onde o equilíbrio ecológico permanece frágil, a gigoia se comporta como espécie invasora e substitui espécies locais.
- Alterações na fauna: peixes e invertebrados perdem habitat adequado e, em vários casos, a diversidade de espécies diminui de forma significativa.
- Impacto sobre usos múltiplos da água: bancos densos de aguapé prejudicam a navegação, a pesca, a captação para abastecimento e as atividades de recreação.
- Risco de anóxia: quando grandes quantidades de gigoia morrem ao mesmo tempo, a decomposição consome muito oxigênio e pode causar mortalidade de peixes.
Além disso, a biomassa de aguapé utilizada na fitorremediação acumula poluentes e metais pesados. Se as equipes não removerem e não tratarem esse material de forma adequada, o ambiente corre risco de recontaminação. Isso ocorre tanto pela decomposição na própria água quanto pelo descarte inadequado em áreas terrestres. Em alguns contextos, gestores também demonstram preocupação com a proliferação de vetores de doenças em áreas com grande concentração de plantas flutuantes, como mosquitos e caramujos.
Quando o uso da gigoia é indicado e em quais situações deve ser evitado?
De forma geral, o uso da gigoia na fitorremediação mostra melhores resultados em sistemas controlados, como lagoas de tratamento, tanques de pesquisa, viveiros de aquicultura ou trechos isolados de corpos dágua. Nesses locais, as equipes conseguem monitorar a biomassa e realizar colheitas periódicas. Assim, a planta atua como componente planejado de um sistema de saneamento ou de recuperação, com metas definidas de remoção de nutrientes e metais.
Algumas condições costumam favorecer a adoção do aguapé:
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- Águas com alta carga de nutrientes, como esgoto doméstico parcialmente tratado, águas de criatórios ou drenagem agrícola intensiva.
- Ambientes de pequeno a médio porte, onde o controle físico da área ocupada pela planta permanece viável e economicamente acessível.
- Projetos com recursos limitados que buscam tecnologias de baixo custo e manutenção simples, mas com resultados mensuráveis.
- Iniciativas que incluem plano de manejo, cronograma de remoção e destinação segura da biomassa contaminada, com monitoramento contínuo.
Por outro lado, o uso da gigoia tende a ser desaconselhado em grandes reservatórios, rios de ampla extensão e áreas naturais sensíveis, especialmente onde já existe histórico de invasão por essa espécie. Nesses contextos, a introdução ou o estímulo ao crescimento do aguapé reforça problemas existentes, amplia a cobertura da superfície, afeta a biodiversidade e gera custos elevados de controle. Portanto, a decisão pelo emprego do aguapé como biofiltro natural depende da análise das características do corpo dágua, dos objetivos do projeto e da capacidade de manutenção a longo prazo. Além disso, órgãos ambientais e comunidades locais precisam participar da definição das estratégias, o que aumenta a segurança e a eficácia das ações de manejo.