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Da sensação à ciência: como uma proteína permite ao corpo perceber o frio

A forma como o corpo humano percebe o frio passou a ser um fenômeno molecular melhor compreendido graças a descobertas em neurociência. Em especial, destaca-se o trabalho do pesquisador David Julius, premiado com o Nobel em fisiologia ou medicina de 2021.

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A forma como o corpo humano percebe o frio deixou de ser apenas uma sensação subjetiva e passou a ser um fenômeno molecular melhor compreendido graças a descobertas em neurociência. Entre essas contribuições, destaca-se o trabalho do pesquisador David Julius, premiado com o Nobel em fisiologia ou medicina de 2021, que ajudou a desvendar como certas proteínas presentes nos nervos da pele e de outros tecidos funcionam como sensores de temperatura e tato. Uma dessas proteínas, o canal iônico TRPM8, é hoje considerada a peça central para entender a detecção do frio no organismo.

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Ao investigar como as células nervosas respondem a estímulos como frio e substâncias refrescantes, a pesquisa mostrou que a sensação térmica não resulta apenas de exposição ao ambiente, mas de um processo preciso de abertura e fechamento de canais na membrana celular. Assim, a proteína TRPM8 atua exatamente como um desses portões microscópicos, capazes de transformar mudanças de temperatura em sinais elétricos que seguem pelos nervos até o cérebro. Portanto, esse mecanismo fornece a base para compreender, com mais detalhes, por que o frio pode provocar dor e como é possível modular isso por medicamentos específicos.

O reconhecimento do trabalho de David Julius com o Prêmio Nobel está relacionado à compreensão mais ampla de como o corpo detecta não apenas calor e frio, mas também dor decorrente desses estímulos – Christopher Michel/Wikimedia Commons

O que é o canal iônico TRPM8 e qual sua relação com a sensação de frio?

A palavra-chave principal aqui é TRPM8, um canal iônico que pertence a uma família de proteínas sensíveis a estímulos físicos e químicos. Esse canal localiza-se na membrana de neurônios sensoriais. Em especial, nas fibras nervosas que inervam a pele, a mucosa bucal, partes do trato respiratório e outros tecidos periféricos. Quando a temperatura ambiente cai abaixo de um certo limite, a proteína TRPM8 sofre mudanças sutis em sua estrutura tridimensional, o que faz com que se abra um corredor para a passagem de íons.

Nesse processo, o TRPM8 permite a entrada de íons carregados positivamente, principalmente cálcio (Ca²) e sódio (Na), para dentro da célula. Assim, a movimentação desses íons altera o potencial elétrico da membrana, desencadeando um potencial de ação, que é o sinal elétrico que viaja pelo nervo até o sistema nervoso central. Desse modo, o corpo traduz o estímulo físico do frio em informação elétrica, que o cérebro interpreta como sensação de baixa temperatura ou mesmo de dor causada pelo frio, dependendo da intensidade do estímulo.

Como a proteína TRPM8 muda de forma ao detectar baixas temperaturas?

Do ponto de vista molecular, o TRPM8 funciona como uma espécie de termômetro biológico. A proteína é formada por múltiplas subunidades que se organizam em um canal atravessando a membrana da célula. Em temperaturas mais altas, esse canal tende a permanecer predominantemente fechado, impedindo a passagem significativa de íons. Quando a temperatura cai, regiões sensíveis da proteína sofrem alterações de conformação, ou seja, mudam de forma e de posição relativa no espaço.

Essas alterações conformacionais fazem com que o poro central do canal se abra. O processo pode ser resumido em alguns passos fundamentais:

  • Detecção do frio: partes específicas do TRPM8, como domínios sensíveis a temperatura e lipídios da membrana, respondem à queda térmica;
  • Reorganização estrutural: segmentos transmembrana se deslocam, ampliando o diâmetro do canal;
  • Abertura do poro: o caminho para íons é liberado, permitindo o fluxo de Ca² e Na;
  • Geração de sinal elétrico: o influxo de íons despolariza a membrana e inicia a propagação do impulso nervoso.

Além da baixa temperatura, moléculas como o mentol e o eucaliptol também conseguem estabilizar o canal em um estado mais aberto, imitando a sensação de frio mesmo em ambientes sem mudança real de temperatura.

Quais estímulos ativam o TRPM8 e como isso chega ao cérebro?

O TRPM8 é ativado principalmente por temperaturas consideradas frias moderadas. Em geral, abaixo de cerca de 2628°C, intensificando-se em ambientes mais gelados. Alguns estímulos conhecidos que o acionam incluem:

  • Frio ambiental: contato da pele com ar frio, superfícies geladas ou água fria;
  • Substâncias refrescantes: mentol (presente em pastas de dente, balas e pomadas), eucaliptol e outros compostos com efeito gelado;
  • Preparações tópicas: cremes e sprays usados para sensação de resfriamento em músculos e articulações;
  • Alimentos e bebidas: produtos mentolados, chás com hortelã e outros itens que provocam sensação de frescor na boca e na garganta.

Uma vez ativado, o TRPM8 inicia um ciclo bem definido:

  1. O canal abre e íons positivos entram no neurônio sensorial;
  2. O neurônio gera um potencial de ação, que se propaga pela fibra nervosa;
  3. O sinal chega à medula espinhal, onde faz sinapses com outros neurônios;
  4. A informação é retransmitida a regiões do cérebro responsáveis pela percepção sensorial e pelo controle de reflexos;
  5. O cérebro identifica o estímulo como frio, podendo desencadear respostas como tremores, vasoconstrição e alteração de comportamento para preservação de calor.

Essa cadeia de eventos explica como um simples contato com um objeto gelado pode ser rapidamente reconhecido pelo organismo, permitindo ações de proteção contra perda excessiva de temperatura corporal.

Além da baixa temperatura, moléculas como o mentol e o eucaliptol também conseguem estabilizar o canal em um estado mais aberto, imitando a sensação de frio mesmo em ambientes sem mudança real de temperatura – depositphotos.com / Kryzhov

Por que o trabalho de David Julius e do TRPM8 é importante para a saúde e para a dor causada pelo frio?

O reconhecimento do trabalho de David Julius com o Prêmio Nobel está relacionado à compreensão mais ampla de como o corpo detecta não apenas calor e frio, mas também dor decorrente desses estímulos. Ao identificar e caracterizar canais iônicos como TRPV1 (relacionado ao calor e à capsaicina) e TRPM8 (relacionado ao frio e ao mentol), a pesquisa abriu caminho para estratégias terapêuticas mais específicas e racionais.

No contexto da dor provocada pelo frio, como ocorre em alguns tipos de neuropatia periférica, lesões de nervos ou condições em que pequenas mudanças de temperatura desencadeiam desconforto intenso, o TRPM8 surge como alvo promissor. Fármacos que bloqueiam seletivamente esse canal podem reduzir a transmissão exagerada de estímulos frios ao sistema nervoso central, atenuando a sensação dolorosa. Por outro lado, substâncias que modulam o canal sem bloqueá-lo totalmente podem ser úteis em quadros em que uma percepção mais nítida do frio é necessária, por exemplo, em problemas de regulação térmica.

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As implicações para a neurociência também são amplas. O estudo do TRPM8 ajuda a compreender como o cérebro integra informações sensoriais, diferencia frio agradável de frio doloroso e ajusta respostas autonômicas, como a contração de vasos sanguíneos na pele. Além disso, o mapeamento detalhado da estrutura dessa proteína e de seus estados conformacionais alimenta o desenvolvimento de fármacos de precisão, desenhados para se ligar a regiões específicas do canal. Com isso, a descoberta se torna não apenas um avanço na compreensão da sensação de frio, mas também uma base concreta para novas abordagens em analgesia e em cuidados com pacientes sensíveis a baixas temperaturas.

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