Risperidona em pacientes com demência: benefício ou perigo para o cérebro?
Risperidona para demência pode elevar risco de AVC, alerta estudo do Reino Unido; veja dados, pacientes mais vulneráveis e recomendações
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O uso de antipsicóticos em idosos com demência tem sido tema de debate constante em serviços de saúde de vários países. Entre esses medicamentos, a risperidona é frequentemente prescrita para controlar agitação intensa, agressividade e sintomas psicóticos que dificultam o cuidado diário. Um estudo recente do Reino Unido, divulgado pelo portal Science Daily, reforça preocupações antigas ao apontar que esse fármaco pode estar associado a um aumento no risco de acidente vascular cerebral (AVC) em determinados perfis de pacientes.
A pesquisa ganha relevância porque a demência está em crescimento em todo o mundo e a agitação grave costuma representar um desafio para familiares, cuidadores e equipes médicas. Em muitos casos, a risperidona é vista como recurso para evitar contenções físicas e reduzir comportamentos que oferecem perigo ao próprio paciente ou a terceiros. O novo estudo, porém, sugere que essa estratégia precisa ser usada com ainda mais cautela, especialmente entre idosos com histórico de doenças cardiovasculares ou fatores de risco acumulados.
O que o estudo do Reino Unido revelou sobre a risperidona e o AVC?
De acordo com os pesquisadores britânicos, a análise de prontuários e bases de dados de saúde indicou uma associação estatística entre o uso de risperidona e aumento de episódios de AVC em pessoas com demência. O estudo avaliou milhares de pacientes atendidos no sistema de saúde do Reino Unido, comparando aqueles que receberam o medicamento com grupos semelhantes que não fizeram uso de antipsicóticos. Os dados apontaram que o risco de AVC foi maior nas semanas e meses subsequentes ao início do tratamento, o que sugere uma possível relação temporal relevante para a prática clínica.
Os autores enfatizam que se trata de um estudo observacional, o que significa que não é possível afirmar causa e efeito de forma definitiva. Ainda assim, a consistência dos resultados com pesquisas anteriores, realizadas em outros países, reforça a hipótese de que a risperidona, e possivelmente outros antipsicóticos atípicos, possam contribuir para desfechos vasculares desfavoráveis em idosos frágeis. Entre as possíveis explicações estão alterações de pressão arterial, efeitos sobre a coagulação e impacto indireto em condições como fibrilação atrial e desidratação.
Quais pacientes com demência parecem mais vulneráveis ao risco?
Os dados levantados no Reino Unido indicam que o maior risco de AVC associado à risperidona concentra-se em pacientes com idade avançada, geralmente acima de 75 anos, com demência moderada a grave. Indivíduos com histórico prévio de AVC, doença cardíaca, hipertensão descontrolada, diabetes ou uso concomitante de outros medicamentos que afetam a coagulação figuram entre os mais vulneráveis. Nesses casos, o aumento do risco relativo pode representar um impacto importante em termos de saúde pública.
O estudo também aponta que pessoas em instituições de longa permanência, como casas de repouso e lares para idosos, tendem a receber mais prescrições de antipsicóticos para manejo de comportamentos desafiadores. Nesses ambientes, a combinação de fragilidade física, múltiplas doenças crônicas e polifarmácia cria um cenário em que qualquer novo medicamento precisa ser avaliado de forma ainda mais criteriosa. A presença de demência do tipo vascular ou mista, em particular, parece potencializar a vulnerabilidade a eventos cerebrovasculares.
Risperidona em demência: riscos, benefícios e alternativas em debate
Médicos e especialistas mencionados em análises do estudo ressaltam que a risperidona continua tendo um papel em situações específicas, sobretudo quando a agitação é intensa, há risco de autoagressão ou agressão a terceiros e medidas não farmacológicas não surtiram efeito. Em alguns casos, a estabilização do quadro com o uso por período limitado pode facilitar o cuidado, reduzir internações psiquiátricas e diminuir o estresse para familiares e equipes de saúde. O desafio está em equilibrar esses possíveis benefícios com os riscos apontados pelas evidências científicas.
Diante dos novos dados, recomenda-se que a prescrição seja sempre individualizada e baseada em avaliação cuidadosa. Alguns princípios frequentemente defendidos por especialistas incluem:
- Uso na menor dose eficaz e pelo tempo mais curto possível.
- Reavaliação periódica da necessidade do medicamento, com tentativas de redução gradual.
- Prioridade para intervenções não farmacológicas, como adaptação do ambiente, rotinas estruturadas e treinamento de cuidadores.
- Discussão transparente com familiares sobre os potenciais riscos de AVC e outros efeitos adversos.
Como pacientes, famílias e profissionais podem lidar com essas evidências?
Para familiares e cuidadores de pessoas com demência, o estudo reforça a importância de perguntar sobre os motivos da prescrição, a duração planejada do tratamento e quais sinais devem ser observados, como alterações súbitas na fala, fraqueza em um lado do corpo ou confusão aguda, que podem indicar um possível AVC. Serviços de saúde, por sua vez, são estimulados a investir em protocolos de cuidado que reduzam a dependência de antipsicóticos e ampliem o suporte psicossocial.
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Profissionais de saúde mental e geriatria destacam que o manejo da agitação grave em demência é complexo e não se resume ao uso ou não de risperidona. A decisão envolve avaliar condições clínicas associadas, o estágio da doença, o suporte disponível e as preferências previamente manifestadas pelo paciente, quando isso é conhecido. O estudo do Reino Unido, divulgado na Science Daily, acrescenta novas camadas de informação a esse processo, convidando a uma abordagem mais prudente, monitorada e centrada na segurança dos idosos, sem ignorar o impacto que os sintomas comportamentais têm na rotina das famílias.