Entenda o que é um Xá na história do Irã
Xá, o rei do antigo Império Persa e símbolo da monarquia iraniana, poderia voltar ao poder se o regime dos aiatolás cair? Entenda as nuances
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Ao longo da história do Irã, a figura do Xá ocupou um lugar central na estrutura de poder, representando o monarca, chefe de Estado e símbolo de soberania. Esse título, associado ao Império Persa por séculos, remete a uma tradição política que influenciou não apenas a organização interna do país, mas também a forma como o Irã se relacionou com outras potências. Hoje, em um contexto dominado pelo regime dos aiatolás, surge com frequência a dúvida sobre quem foi o Xá, o que ele representava e se esse tipo de liderança ainda teria espaço na legislação iraniana atual.
O debate ganha relevância sempre que se fala em possíveis mudanças de regime no Irã. Desde 1979, quando ocorreu a Revolução Islâmica, o país adotou um sistema político baseado na República Islâmica, com forte influência do clero xiita. Nesse cenário, a figura do Xá foi abolida formalmente e substituída por instituições como o Líder Supremo e o presidente. Ainda assim, em discussões acadêmicas e políticas, volta e meia aparece a questão: haveria alguma base jurídica para o retorno de um Xá caso o atual regime caia?
O que significa ser um Xá na história persa?
O termo Xá é uma palavra de origem persa que pode ser traduzida como rei ou soberano. No Império Aquemênida, no Império Sassânida e em outros períodos da história persa, esse título era associado à autoridade máxima do Estado. Em muitos momentos, o Xá acumulava funções militares, administrativas e religiosas, atuando como chefe do exército, responsável pela cobrança de tributos e, em alguns casos, guardião de tradições religiosas locais.
Com o passar dos séculos, a monarquia persa atravessou diferentes dinastias, como os Qajares e os Pahlavi. No século XX, especialmente sob Reza Xá Pahlavi e depois seu filho, Mohammad Reza Xá Pahlavi, o título de Xá passou a ser relacionado a um projeto de modernização e centralização do poder. Nesse período, o país adotou constituições que limitavam parcialmente a autoridade do monarca, mas ele ainda era o centro da estrutura estatal. A palavra-chave Xá passou, assim, a ser não apenas um título tradicional, mas também um símbolo de um modelo político específico.
Diego Delso
Qual era o papel do Xá no Irã antes da Revolução Islâmica?
Até 1979, o Irã era oficialmente uma monarquia constitucional, em que o Xá exercia grande influência sobre o governo. Embora existissem Parlamento e primeiro-ministro, o rei tinha poderes amplos em áreas como política externa, forças armadas e segurança interna. A Constituição de 1906, com reformas posteriores, tentou equilibrar a autoridade real com instituições representativas, mas, na prática, o Xá manteve um peso decisivo nas principais decisões.
Na década de 1960 e 1970, por exemplo, o Xá conduziu reformas econômicas e sociais conhecidas como Revolução Branca, que alteraram a estrutura agrária, estimularam a educação e ampliaram a presença do Estado em diferentes setores. Ao mesmo tempo, órgãos de segurança atuavam de forma rigorosa para controlar opositores. Esse contexto contribuiu para o acúmulo de tensões internas que, somadas a fatores religiosos, econômicos e geopolíticos, resultaram na queda da monarquia e na instalação do atual regime da República Islâmica.
Xá e legislação iraniana atual: ele poderia voltar ao poder?
Do ponto de vista jurídico, a Constituição da República Islâmica do Irã, adotada em 1979 e revisada em 1989, não prevê qualquer espaço para a figura de um Xá. O sistema é definido como uma república baseada na liderança do clero xiita e na doutrina da velayat-e faqih (tutela do jurista islâmico). O cargo máximo é o de Líder Supremo, seguido pelo presidente, pelo Parlamento (Majlis) e por órgãos como o Conselho dos Guardiães e a Assembleia de Especialistas. A monarquia foi explicitamente abolida.
Diante disso, pela legislação vigente, não existe previsão legal para que um Xá assuma o poder, mesmo em caso de queda do regime dos aiatolás. Qualquer retorno da monarquia exigiria um processo político e jurídico profundo, que poderia incluir:
- Revogação ou substituição da atual Constituição;
- Criação de um novo texto constitucional que restabelecesse a monarquia;
- Definição clara do modelo de Estado, como monarquia constitucional ou absoluta;
- Reconhecimento formal de um herdeiro ou pretendente ao trono.
Sem essas etapas, a reinstalação de um Xá não teria base legal interna, ainda que existam grupos monarquistas na diáspora que defendam essa alternativa.
Markku Lepola
O que aconteceria se o regime dos aiatolás caísse?
A queda de um regime político, em qualquer país, costuma gerar um período de transição no qual as regras anteriores podem ser suspensas ou revistas. No caso iraniano, se o sistema atual fosse derrubado de forma abrupta, a legislação em vigor provavelmente seria questionada e poderia até ser substituída por normas provisórias, aprovadas por um governo de transição ou por alguma assembleia constituinte.
Nesse cenário hipotético, a possibilidade de um Xá voltar ao poder dependeria menos da legislação atual e mais do arranjo político que surgisse após a mudança. Em termos práticos, para que a monarquia retornasse, seria necessário que forças políticas relevantes apoiassem esse modelo e que a população aceitasse, por meio de algum tipo de consulta, como um referendo ou eleições para uma assembleia. Entre as alternativas discutidas em círculos acadêmicos e políticos, costumam aparecer:
- Manutenção de uma república, porém laica ou com menos influência clerical;
- Criação de uma monarquia parlamentar, com um Xá em posição simbólica e um governo eleito;
- Outras formas híbridas, combinando elementos republicanos e monárquicos.
Em todos os casos, a figura do Xá só reapareceria se um novo marco jurídico autorizasse explicitamente esse título e definisse suas competências.
Como o conceito de Xá é visto no Irã contemporâneo?
No Irã de hoje, a palavra Xá carrega significados históricos, políticos e culturais. Para parte da população, ela remete a um passado de centralização de poder e forte controle estatal; para outros grupos, especialmente no exílio, o termo está ligado à ideia de estabilidade, identidade nacional e continuidade de uma tradição milenar. Em debates públicos e na mídia internacional, a expressão é usada com frequência para contextualizar o período anterior à Revolução Islâmica.
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Independentemente das interpretações, a realidade jurídica é clara: o Irã de 2026 funciona como uma república religiosa, guiada pela Constituição da República Islâmica, que não reconhece o título de Xá como cargo de governo. Assim, qualquer eventual retorno desse modelo dependeria de uma transformação política ampla, acompanhada de mudanças constitucionais estruturais. Até que isso ocorra, o Xá permanece como figura histórica, e não como alternativa legal imediata de poder no sistema iraniano atual.