História

Entenda o que é um Xá na história do Irã

Xá, o rei do antigo Império Persa e símbolo da monarquia iraniana, poderia voltar ao poder se o regime dos aiatolás cair? Entenda as nuances

Publicidade
Carregando...

Ao longo da história do Irã, a figura do ocupou um lugar central na estrutura de poder, representando o monarca, chefe de Estado e símbolo de soberania. Esse título, associado ao Império Persa por séculos, remete a uma tradição política que influenciou não apenas a organização interna do país, mas também a forma como o Irã se relacionou com outras potências. Hoje, em um contexto dominado pelo regime dos aiatolás, surge com frequência a dúvida sobre quem foi o Xá, o que ele representava e se esse tipo de liderança ainda teria espaço na legislação iraniana atual.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

O debate ganha relevância sempre que se fala em possíveis mudanças de regime no Irã. Desde 1979, quando ocorreu a Revolução Islâmica, o país adotou um sistema político baseado na República Islâmica, com forte influência do clero xiita. Nesse cenário, a figura do Xá foi abolida formalmente e substituída por instituições como o Líder Supremo e o presidente. Ainda assim, em discussões acadêmicas e políticas, volta e meia aparece a questão: haveria alguma base jurídica para o retorno de um Xá caso o atual regime caia?

O que significa ser um Xá na história persa?

O termo é uma palavra de origem persa que pode ser traduzida como rei ou soberano. No Império Aquemênida, no Império Sassânida e em outros períodos da história persa, esse título era associado à autoridade máxima do Estado. Em muitos momentos, o Xá acumulava funções militares, administrativas e religiosas, atuando como chefe do exército, responsável pela cobrança de tributos e, em alguns casos, guardião de tradições religiosas locais.

Com o passar dos séculos, a monarquia persa atravessou diferentes dinastias, como os Qajares e os Pahlavi. No século XX, especialmente sob Reza Xá Pahlavi e depois seu filho, Mohammad Reza Xá Pahlavi, o título de Xá passou a ser relacionado a um projeto de modernização e centralização do poder. Nesse período, o país adotou constituições que limitavam parcialmente a autoridade do monarca, mas ele ainda era o centro da estrutura estatal. A palavra-chave Xá passou, assim, a ser não apenas um título tradicional, mas também um símbolo de um modelo político específico.

Palácio de Golestan, Teerã, Irã – Wikimedia Commons/
Diego Delso

Qual era o papel do Xá no Irã antes da Revolução Islâmica?

Até 1979, o Irã era oficialmente uma monarquia constitucional, em que o Xá exercia grande influência sobre o governo. Embora existissem Parlamento e primeiro-ministro, o rei tinha poderes amplos em áreas como política externa, forças armadas e segurança interna. A Constituição de 1906, com reformas posteriores, tentou equilibrar a autoridade real com instituições representativas, mas, na prática, o Xá manteve um peso decisivo nas principais decisões.

Na década de 1960 e 1970, por exemplo, o Xá conduziu reformas econômicas e sociais conhecidas como Revolução Branca, que alteraram a estrutura agrária, estimularam a educação e ampliaram a presença do Estado em diferentes setores. Ao mesmo tempo, órgãos de segurança atuavam de forma rigorosa para controlar opositores. Esse contexto contribuiu para o acúmulo de tensões internas que, somadas a fatores religiosos, econômicos e geopolíticos, resultaram na queda da monarquia e na instalação do atual regime da República Islâmica.

Xá e legislação iraniana atual: ele poderia voltar ao poder?

Do ponto de vista jurídico, a Constituição da República Islâmica do Irã, adotada em 1979 e revisada em 1989, não prevê qualquer espaço para a figura de um Xá. O sistema é definido como uma república baseada na liderança do clero xiita e na doutrina da velayat-e faqih (tutela do jurista islâmico). O cargo máximo é o de Líder Supremo, seguido pelo presidente, pelo Parlamento (Majlis) e por órgãos como o Conselho dos Guardiães e a Assembleia de Especialistas. A monarquia foi explicitamente abolida.

Diante disso, pela legislação vigente, não existe previsão legal para que um Xá assuma o poder, mesmo em caso de queda do regime dos aiatolás. Qualquer retorno da monarquia exigiria um processo político e jurídico profundo, que poderia incluir:

  • Revogação ou substituição da atual Constituição;
  • Criação de um novo texto constitucional que restabelecesse a monarquia;
  • Definição clara do modelo de Estado, como monarquia constitucional ou absoluta;
  • Reconhecimento formal de um herdeiro ou pretendente ao trono.

Sem essas etapas, a reinstalação de um Xá não teria base legal interna, ainda que existam grupos monarquistas na diáspora que defendam essa alternativa.

Mohammad Reza Xá Pahlavi, último monarca do Irã, símbolo do poder antes da Revolução Islâmica de 1979 – Wikimedia Commons/
Markku Lepola

O que aconteceria se o regime dos aiatolás caísse?

A queda de um regime político, em qualquer país, costuma gerar um período de transição no qual as regras anteriores podem ser suspensas ou revistas. No caso iraniano, se o sistema atual fosse derrubado de forma abrupta, a legislação em vigor provavelmente seria questionada e poderia até ser substituída por normas provisórias, aprovadas por um governo de transição ou por alguma assembleia constituinte.

Nesse cenário hipotético, a possibilidade de um Xá voltar ao poder dependeria menos da legislação atual e mais do arranjo político que surgisse após a mudança. Em termos práticos, para que a monarquia retornasse, seria necessário que forças políticas relevantes apoiassem esse modelo e que a população aceitasse, por meio de algum tipo de consulta, como um referendo ou eleições para uma assembleia. Entre as alternativas discutidas em círculos acadêmicos e políticos, costumam aparecer:

  1. Manutenção de uma república, porém laica ou com menos influência clerical;
  2. Criação de uma monarquia parlamentar, com um Xá em posição simbólica e um governo eleito;
  3. Outras formas híbridas, combinando elementos republicanos e monárquicos.

Em todos os casos, a figura do Xá só reapareceria se um novo marco jurídico autorizasse explicitamente esse título e definisse suas competências.

Como o conceito de Xá é visto no Irã contemporâneo?

No Irã de hoje, a palavra carrega significados históricos, políticos e culturais. Para parte da população, ela remete a um passado de centralização de poder e forte controle estatal; para outros grupos, especialmente no exílio, o termo está ligado à ideia de estabilidade, identidade nacional e continuidade de uma tradição milenar. Em debates públicos e na mídia internacional, a expressão é usada com frequência para contextualizar o período anterior à Revolução Islâmica.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Independentemente das interpretações, a realidade jurídica é clara: o Irã de 2026 funciona como uma república religiosa, guiada pela Constituição da República Islâmica, que não reconhece o título de Xá como cargo de governo. Assim, qualquer eventual retorno desse modelo dependeria de uma transformação política ampla, acompanhada de mudanças constitucionais estruturais. Até que isso ocorra, o Xá permanece como figura histórica, e não como alternativa legal imediata de poder no sistema iraniano atual.

Tópicos relacionados:

historia ira xa

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay