O legado perdido no Irã: a destruição de Nimrud, Dur Xarruquim e Hatra
Os sítios arqueológicos de Nimrud, Dur Xarruquim (Dur-Sharrukin) e Hatra ocupam um lugar central na história do Oriente Médio e do patrimônio mundial.
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Os sítios arqueológicos de Nimrud, Dur Xarruquim (Dur-Sharrukin) e Hatra ocupam um lugar central na história do Oriente Médio e do patrimônio mundial. Localizados no atual território do Iraque, esses antigos centros de poder e religiosidade registram fases importantes das civilizações assíria e parta. Nas últimas décadas, porém, sucessivos saques, abandono, danos de guerra e atos de destruição deliberada alteraram de forma profunda o cenário da arqueologia na região.
A partir dos anos 1990, com sucessivos conflitos armados, mudanças políticas internas e avanço de grupos extremistas, a preservação dessas áreas se tornou ainda mais difícil. Assim, pessoas passaram a explorar ilegalmente fragmentos arquitetônicos, esculturas monumentais e inscrições em pedra. Grupos armados também atacaram esses elementos de forma simbólica. Desse modo, a situação de Nimrud, Dur Xarruquim e Hatra se transformou em um caso emblemático para entender como guerras contemporâneas impactam o patrimônio cultural.
O que aconteceu com Nimrud ao longo dos conflitos no Iraque?
Nimrud, antiga capital assíria fundada no século XIII a.C., ganhou fama por seus palácios ornamentados, relevos em pedra e estátuas colossais de lamassu. Essas figuras aladas exibem corpo de touro ou leão e cabeça humana. Ao longo do século XX, missões arqueológicas documentaram grande parte do sítio e transferiram peças para museus. Esse processo ajudou a salvar parte do acervo, mas também esvaziou o contexto original de muitos achados. Mesmo assim, o local ainda preservava estruturas e decorações significativas até o início do século XXI.
Durante a década de 2000, autoridades e instituições descuidaram de Nimrud. Saques se intensificaram, e ninguém garantiu manutenção mínima das ruínas. A situação se agravou a partir de 2014, quando grupos extremistas passaram a controlar a região. Em 2015, imagens divulgadas internacionalmente mostraram escavadeiras, marretas e explosivos destruindo relevos, portais e esculturas do sítio. Assim, grandes setores do palácio noroeste e de templos vizinhos ruíram por completo, reduzindo construções milenares a escombros e poeira.
Após a retomada da área pelas autoridades iraquianas, equipes especializadas iniciaram ações emergenciais para mapear as perdas. Elas recolheram fragmentos e começaram a planejar uma possível reconstituição parcial. Especialistas em patrimônio cultural e arqueologia ainda debatem se devem priorizar a reconstrução física de alguns elementos ou a estabilização dos remanescentes. Em paralelo, discussões internacionais passaram a usar Nimrud como símbolo da necessidade de proteger sítios arqueológicos em zonas de conflito.
Dur Xarruquim: como o palácio de Sargão II foi afetado?
Dur Xarruquim, também conhecida como Dur-Sharrukin, surgiu como capital planejada do rei assírio Sargão II no século VIII a.C. Diferentemente de outras cidades que cresceram de forma mais orgânica, esse centro urbano seguiu um projeto político e arquitetônico de grande escala. Assim, construtores ergueram muralhas monumentais e um vasto palácio real. Pesquisadores europeus do século XIX removeram peças icônicas, como relevos e lamassu, e as transportaram para museus na Europa e nos Estados Unidos. Esse processo preservou parte do legado, mas fragmentou a história do sítio e retirou muitos objetos do seu ambiente original.
Com o passar do tempo, as ruínas de Dur Xarruquim ficaram expostas à erosão natural, à agricultura e a saques esporádicos. Assim, ventos, chuvas e atividades humanas fragilizaram as estruturas. Durante a guerra do Golfo, em 1991, e na invasão do Iraque, em 2003, operações militares se aproximaram do local. Esse contexto aumentou o risco de danos indiretos, com movimentação de tropas, construção de posições defensivas e uso de áreas vizinhas como acampamentos.
Relatos de arqueólogos e organizações de proteção ao patrimônio indicam que Dur Xarruquim não sofreu atos de destruição tão espetaculares quanto Nimrud. No entanto, a degradação ocorreu de forma contínua. Saqueadores removeram blocos de pedra ilegalmente, e paredes antigas entraram em colapso por falta de consolidação. Além disso, construções modernas irregulares afetaram partes da área. Ao mesmo tempo, a dispersão das peças originais em museus pelo mundo transformou o sítio em um lugar onde o visitante lê a paisagem histórica apenas de forma parcial.
Nos últimos anos, equipes de pesquisa intensificaram iniciativas de documentação digital em 3D, fotografias de alta resolução e levantamentos topográficos. Essas ações registram o estado atual de Dur Xarruquim e apoiam futuros programas de conservação. Pesquisadores também usam esses dados como fonte para entender melhor o urbanismo assírio e as práticas de governo de Sargão II. Além disso, instituições internacionais incentivam o compartilhamento aberto desses registros para ampliar o acesso ao conhecimento.
Hatra ainda pode ser preservada depois dos ataques?
Hatra, situada no norte do Iraque, representa outro capítulo relevante nessa história. A cidade floresceu entre os séculos I a.C. e II d.C., em um contexto ligado ao império parto e a redes comerciais que conectavam o Mediterrâneo ao interior da Ásia. Conhecida por seus templos, arcos monumentais e esculturas em pedra calcária, Hatra entrou na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1985. Essa inclusão ocorreu justamente por causa do bom estado de preservação do sítio e pela singularidade do seu conjunto arquitetônico.
A partir da década de 2000, porém, Hatra passou a enfrentar sérios problemas de segurança e escassez de recursos para conservação. Além disso, atividades ilegais cresceram na região, incluindo saques e ocupações indevidas. Em 2015, grupos extremistas atacaram a cidade antiga de forma coordenada. Vídeos e relatórios de organizações internacionais registraram danos a estátuas, colunas e estruturas internas de templos. Parte das esculturas se despedaçou, e explosões provocaram colapsos parciais em alguns edifícios.
Depois que o Estado iraquiano restabeleceu o controle da área, equipes técnicas iniciaram avaliações detalhadas. Elas analisaram o que poderia ser restaurado e o que restou apenas como testemunho ruinoso. A inscrição de Hatra na lista de Patrimônio Mundial em Perigo fortaleceu a mobilização internacional. Entre as medidas propostas, especialistas sugerem delimitar de forma rigorosa a zona de proteção e treinar profissionais locais em técnicas de conservação. Além disso, equipes passaram a usar tecnologias de escaneamento para registrar cada elemento sobrevivente, o que facilita futuros projetos de restauração.
Quais são os principais desafios para o futuro desse patrimônio cultural?
A situação de Nimrud, Dur Xarruquim e Hatra ilustra um conjunto de desafios permanentes para o patrimônio arqueológico iraquiano. Além da destruição direta em períodos de guerra, o país enfrenta problemas crônicos, como escassez de financiamento e falta de infraestrutura para pesquisa de longo prazo. A pressão urbana e a atuação de redes internacionais de tráfico de antiguidades agravam ainda mais o cenário. Esses fatores atuam simultaneamente, o que torna a proteção desses locais uma tarefa complexa e contínua.
Especialistas em patrimônio apontam alguns eixos de ação considerados estratégicos para reduzir os riscos e fortalecer a preservação desses sítios:
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- Proteção legal e institucional: atualização de leis de patrimônio, fortalecimento das autoridades iraquianas responsáveis e cooperação com organismos internacionais;
- Formação de profissionais: incentivo à capacitação de arqueólogos, restauradores, engenheiros e guardas de sítios, com foco em gestão de risco em contextos de conflito;
- Documentação e tecnologia: uso de imagens de satélite, drones, escaneamento a laser e modelagem 3D para registrar o estado dos sítios e planejar intervenções;
- Engajamento comunitário: participação de comunidades locais na vigilância, valorização turística responsável e promoção da memória desses locais.
Com essas iniciativas, gestores e pesquisadores buscam garantir que, mesmo após perdas materiais significativas, o legado de Nimrud, Dur Xarruquim e Hatra permaneça acessível às gerações futuras. Assim, a preservação da memória, por meio de registros, estudos e exposições, se torna tão importante quanto a conservação física das estruturas ainda em pé. Desse modo, a sociedade amplia o entendimento sobre essas civilizações antigas e reforça o valor do patrimônio cultural em tempos de paz e de conflito.