Saúde

Genética do vício: quando fumar está no DNA

Descoberta de variantes raras do gene CHRNB3 revela como o receptor nicotínico influencia o tabagismo e inspira novos tratamentos

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A descoberta de variantes raras do gene CHRNB3, associadas à predisposição ao tabagismo, vem despertando interesse na área da neurociência e da saúde pública. Em vez de explicar o cigarro apenas como uma escolha de comportamento, essa linha de pesquisa mostra como fatores biológicos e genéticos também podem influenciar quem tende a fumar mais, quem desenvolve dependência com facilidade e quem encontra mais obstáculos para abandonar o cigarro. Essa visão não anula a responsabilidade individual, mas acrescenta uma camada importante de entendimento.

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Essas variantes genéticas relacionadas ao CHRNB3 estão ligadas ao modo como o cérebro responde à nicotina. Ao alterar a estrutura ou o funcionamento de certos receptores neuronais, elas podem modificar a intensidade da sensação de recompensa ao fumar. Assim, dois indivíduos expostos ao mesmo ambiente e às mesmas oportunidades de acesso ao cigarro podem ter respostas bem diferentes, em parte por causa de pequenas mudanças na sequência de DNA que não são visíveis a olho nu.

Como funciona o receptor nicotínico de acetilcolina no cérebro?

O gene CHRNB3 codifica uma das subunidades do receptor nicotínico de acetilcolina, um tipo de proteína presente na superfície de neurônios. Esses receptores atuam como portas que se abrem quando recebem a molécula correta. No funcionamento normal do sistema nervoso, a chave é a acetilcolina, um neurotransmissor envolvido em atenção, memória, controle motor e outras funções. Quando a acetilcolina se liga ao receptor, íons atravessam a membrana do neurônio, gerando sinais elétricos que propagam a comunicação entre células nervosas.

A nicotina, presente no cigarro e em outros produtos derivados do tabaco, aproveita essa mesma porta. Ela se liga aos receptores nicotínicos e, ao fazer isso, ativa circuitos cerebrais ligados à recompensa e ao reforço de comportamentos, especialmente em regiões associadas à liberação de dopamina, como o sistema mesolímbico. Esse processo ajuda a explicar por que o cigarro tende a ser consumido repetidamente: cada tragada reforça a conexão entre fumar e sensação de alívio ou prazer, consolidando o hábito.

O receptor nicotínico de acetilcolina atua como uma porta neuronal que, ao ser ativada pela nicotina, estimula circuitos de recompensa no cérebro – depositphotos.com / alptraum

De que forma o gene CHRNB3 e suas variantes raras influenciam o tabagismo?

As variantes raras do gene CHRNB3 podem alterar a estrutura da subunidade beta-3 do receptor nicotínico. Pequenas mudanças de aminoácidos são capazes de modificar a sensibilidade do receptor à nicotina, a velocidade de abertura do canal iônico ou a maneira como o receptor se organiza com outras subunidades. Em alguns casos, isso pode tornar o sistema nervoso mais ou menos reativo à presença da nicotina, influenciando a quantidade de cigarros consumidos ao longo do dia.

Estudos genéticos realizados com grandes bancos de dados populacionais indicam que determinadas variantes em CHRNB3 estão associadas a maior número de cigarros por dia e risco mais elevado de dependência de nicotina. Em outras pessoas, variantes diferentes podem se associar a menor consumo ou menor probabilidade de desenvolver um quadro de dependência intensa. Essas descobertas permitem mapear perfis de risco e entender por que parte da população persiste no tabagismo mesmo após campanhas, alertas de saúde e acesso a tratamentos.

De maneira geral, a influência dessas variantes pode ser resumida em alguns pontos:

  • Maior recompensa subjetiva ao fumar, quando o receptor se torna mais sensível à nicotina.
  • Dificuldade crescente para reduzir o consumo, pois cada redução gera sensação de falta mais intensa.
  • Estabelecimento mais rápido da dependência, especialmente quando o contato com o cigarro começa na adolescência.

Como essa descoberta pode abrir novas possibilidades para o tratamento do tabagismo?

A identificação de variantes raras do CHRNB3 abre caminho para estratégias mais personalizadas de tratamento do tabagismo. Em vez de aplicar o mesmo tipo de terapia para todos, torna-se possível imaginar intervenções ajustadas ao perfil genético de cada indivíduo. Essa abordagem, conhecida como medicina de precisão, busca associar características biológicas específicas a escolhas de medicamentos, doses e combinações de terapias mais adequadas.

Na prática, essa relação entre CHRNB3 e receptores nicotínicos pode gerar novas possibilidades como:

  1. Desenvolvimento de fármacos direcionados a subunidades específicas do receptor, com ação mais seletiva e potencialmente menos efeitos colaterais.
  2. Ajuste de dose de medicamentos já usados, como vareniclina ou reposição de nicotina, de acordo com a sensibilidade do receptor em cada paciente.
  3. Integração de testes genéticos para identificar quem tende a responder melhor a abordagens farmacológicas e quem pode precisar de maior suporte psicológico ou comportamental.

Essa personalização não se limita aos remédios. Programas de cessação do tabagismo podem priorizar o acompanhamento mais próximo de indivíduos com variantes associadas a maior consumo de cigarros, incluindo suporte contínuo, monitoramento de recaídas e intervenções combinadas, por exemplo, farmacoterapia com terapia cognitivo-comportamental.

A identificação de variantes raras do gene CHRNB3 abre caminho para estratégias mais personalizadas no tratamento do tabagismo – depositphotos.com / VadimVasenin

Quais são os desafios e limitações atuais dessa linha de pesquisa?

Apesar do potencial, a aplicação clínica direta das variantes de CHRNB3 ainda enfrenta limitações importantes. Em primeiro lugar, o tabagismo é um comportamento influenciado por múltiplos fatores, que incluem ambiente familiar, contexto social, acesso a produtos de tabaco, nível de estresse e políticas públicas. O gene CHRNB3 é apenas uma peça dentro de um conjunto amplo de genes e condições externas. Focar apenas na genética pode levar a interpretações incompletas sobre a origem da dependência.

Outro desafio está na própria natureza das variantes raras. Como são pouco frequentes, é difícil reunir grandes amostras de pessoas com as mesmas alterações para testar medicamentos ou estratégias específicas. Muitos estudos iniciais são observacionais, servem para identificar associações, mas ainda não indicam, por si só, qual intervenção funciona melhor para cada tipo de variante. Além disso, a maioria dos dados disponíveis vem de grupos populacionais específicos, o que pode limitar a generalização para outras etnias e regiões.

Também existem questões éticas e práticas relacionadas ao uso de testes genéticos no contexto do tabagismo. É necessário garantir confidencialidade, evitar discriminação e cuidar para que a informação genética não seja usada para culpabilizar indivíduos ou justificar falta de investimento em políticas de prevenção. A interpretação dos resultados exige acompanhamento profissional para evitar leituras equivocadas, como a ideia de que uma predisposição genética tornaria o abandono do cigarro inevitavelmente inatingível.

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Mesmo com esses desafios, a pesquisa sobre o CHRNB3 e o receptor nicotínico de acetilcolina adiciona uma camada relevante ao entendimento do tabagismo em 2026. A tendência é que, com o avanço de bancos de dados genômicos e de estudos multicêntricos, surjam ferramentas mais refinadas para combinar genética, comportamento e ambiente, ampliando as opções de tratamento e de prevenção voltadas à dependência da nicotina.

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