Onna-bugeisha: a história das samurais femininas no Japão
Onna-bugeisha: guerreiras samurais que dominavam a naginata e defendiam o lar no Japão feudal, desafiando limites impostos às mulheres
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Ao longo da história do Japão, existiu um grupo de mulheres treinadas para a guerra que ainda desperta curiosidade. Elas surgiram em um contexto de conflitos constantes, rivalidades entre clãs e defesa de territórios. Em vez de permanecer apenas em funções domésticas, essas mulheres assumiram papéis ativos em combates, proteção de fortalezas e liderança em situações de crise.
Em muitos casos, essas guerreiras pertenciam a famílias da elite militar. Elas recebiam formação para agir quando os homens da casa partiam para o campo de batalha ou morriam em combate. Assim, a figura da mulher armada ganhou espaço dentro da sociedade samurai, mesmo com limites bem definidos pelas normas da época.
Onnabugeisha e onnamusha são samurais femininas?
A palavra-chave central nesse tema é onna-bugeisha, frequentemente associada à ideia de samurais do sexo feminino. O termo descreve mulheres da classe guerreira que dominavam armas e artes marciais, ligadas ao universo samurai. No entanto, historiadores costumam usar com mais precisão o termo onna-musha, que significa literalmente mulher guerreira.
Ambas as expressões remetem a mulheres da classe samurai, mas com nuances. Onna-musha destaca a função direta no combate. Já onna-bugeisha enfatiza o domínio das artes marciais em sentido amplo. De qualquer forma, essas guerreiras integravam o mesmo universo social dos samurais, seguiam códigos de honra ligados ao clã e atuavam em defesa de territórios, famílias e senhores.
Por essa razão, muitos estudiosos consideram correto descrevê-las como um tipo de samurai feminina, desde que se mantenha o cuidado histórico. Elas compartilhavam origem social, treinamento e deveres militares, embora enfrentassem restrições maiores, principalmente em tempos de paz prolongada e em períodos de forte influência neoconfuciana.
Origem, funções e armas das onnabugeisha
As onna-bugeisha ganharam destaque sobretudo em épocas de guerra intensa, como o Período Sengoku. Nesse cenário, conflitos entre clãs exigiam defesa constante de castelos, vilas fortificadas e rotas estratégicas. As mulheres da classe samurai passaram a treinar de forma sistemática para responder a cercos e invasões repentinas.
O papel central dessas guerreiras envolvia a proteção da casa e do clã. Quando inimigos atacavam, elas ocupavam muralhas, portões e corredores internos. Em situações extremas, lideravam grupos de outras mulheres e até de servos armados. Além da defesa, algumas onna-musha acompanhavam exércitos em campanhas, sobretudo quando a presença feminina apresentava vantagem estratégica ou simbólica.
No treinamento, o uso da naginata ocupava posição de destaque. Essa arma, uma espécie de alabarda com lâmina curva na ponta de um longo cabo, permitia manter distância segura dos adversários. Essa característica ajudava a compensar diferenças de força física em relação a guerreiros masculinos. Além disso, muitas onna-bugeisha recebiam instrução no manejo do kaiken, pequena adaga escondida nas vestes, e no tantjutsu, arte de combate com lâminas curtas.
- Naginata: ideal para defesa de portões e passarelas elevadas.
- Kaiken: útil em espaços estreitos e para autodefesa.
- Técnicas de arco e espada: presentes em alguns clãs, embora menos centrais.
Com o tempo, a imagem da naginata associou-se fortemente à figura da mulher samurai. Até o século XIX, famílias de origem guerreira continuaram a treinar filhas nessa arma, mesmo quando a função militar direta já sofria restrições.
Quem foram as onnabugeisha mais conhecidas?
Alguns nomes femininos se tornaram referências quando se fala em onna-bugeisha. Esses exemplos ajudam a entender como essas guerreiras atuaram em diferentes épocas e contextos. As narrativas combinam registros históricos, crônicas de guerra e, em alguns casos, elementos lendários.
- Tomoe Gozen: figura associada às Guerras Genpei, no século XII. Crônicas a descrevem como arqueira habilidosa e combatente montada. Em muitos relatos, Tomoe lidera investidas, enfrenta guerreiros renomados e permanece ao lado de seu senhor até os momentos decisivos do conflito.
- Hangaku Gozen: relacionada a rebeliões no início do período Kamakura. As fontes apontam que ela comandou defensores em uma fortaleza sitiada e resistiu contra forças numericamente superiores.
- Imperatriz Jing: personagem da tradição mais antiga, ligada ao século III. Textos clássicos atribuem a ela campanhas militares na península coreana. Pesquisadores tratam essa figura como mistura de mito e história, mas sua imagem consolidou um arquétipo de líder feminina guerreira.
- Nakano Takeko: ativa no século XIX, durante a Guerra Boshin. Ela liderou uma unidade de combatentes mulheres, conhecida como Jshitai, armada principalmente com naginatas. Sua morte em campo de batalha reforçou a imagem de lealdade extrema ao domínio de Aizu.
Esses exemplos mostram a diversidade de atuação das guerreiras samurais ao longo dos séculos. Elas aparecem como defensoras de castelos, líderes de pequenas unidades e símbolos de resistência em períodos de transição política.
O que aconteceu com as onnabugeisha após a Restauração Meiji?
A partir da Restauração Meiji, em 1868, o Japão iniciou um processo de modernização acelerada. O governo central aboliu antigos privilégios da classe samurai e formou um exército nacional em moldes ocidentais. Com isso, o espaço para guerreiros hereditários, homens ou mulheres, diminuiu de forma significativa.
Ao mesmo tempo, ideias neoconfucianas e modelos de gênero reforçaram um ideal de mulher voltado principalmente à família e ao lar. O treinamento marcial feminino passou a ter caráter mais simbólico ou esportivo. A naginata, por exemplo, seguiu presente em escolas e clubes, mas como prática disciplinar e não como preparação para a guerra.
Como classe social específica, a onna-bugeisha deixou de existir. No entanto, sua memória permaneceu em crônicas, peças de teatro, ilustrações e, posteriormente, em livros e produções audiovisuais. Estudos recentes têm revisitado esses registros para separar lenda de fato histórico, analisar o papel real das mulheres samurais/onna-bugeisha e entender como elas influenciaram a construção da identidade feminina no Japão.
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Hoje, o termo onna-bugeisha aparece em pesquisas acadêmicas, obras de divulgação histórica e debates culturais. Ele ajuda a iluminar uma dimensão menos conhecida do Japão feudal, na qual mulheres da aristocracia guerreira assumiram funções de combate, comando e defesa em períodos decisivos.