Agropecuária

Por que muitos pintos recém-nascidos são abatidos em granjas?

Pintos machos descartados: entenda por que granjas ainda abatem recém-nascidos, impactos éticos e alternativas como sexagem in ovo

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Em galpões climatizados e altamente mecanizados, milhões de pintos nascem todos os dias para abastecer a cadeia de produção de ovos e carne de frango. Minutos após sair da casca, porém, parte desses animais é separada e abatida antes mesmo de conhecer o ambiente da granja. A prática, pouco visível ao público, está no centro de um debate que envolve economia, bem-estar animal e mudanças tecnológicas na avicultura.

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O chamado abate de pintos recém-nascidos ocorre principalmente em granjas de postura comercial, responsáveis pelos ovos consumidos em larga escala. Nesses sistemas, machos e fêmeas têm destinações muito diferentes. As decisões tomadas ainda no incubatório refletem critérios produtivos consolidados há décadas e ajudam a explicar por que tantos pintos não chegam à fase adulta.

Por que pintos machos e fêmeas têm destinos tão diferentes?

Na produção de ovos, o interesse econômico recai quase exclusivamente sobre as fêmeas. As linhagens modernas de poedeiras foram selecionadas para transformar ração em ovos com alta eficiência, mantendo baixo peso corporal. Já os machos dessas mesmas linhagens não produzem ovos e, ao mesmo tempo, não possuem o ganho de peso desejado para a indústria de carne. Segundo dados citados por pesquisadores da Embrapa Suínos e Aves, um frango de corte comum pode atingir mais de 2,5 kg em poucas semanas, enquanto o macho de linhagem de postura cresce devagar e apresenta carcaça pouco valorizada.

Como consequência, nas granjas de postura, apenas as fêmeas seguem para a recria e posterior alojamento em galpões de produção de ovos. Os machos, sem função econômica clara dentro desse modelo, acabam sendo abatidos logo após a sexagem, etapa em que os funcionários ou máquinas identificam o sexo do pinto baseado em características físicas ou genéticas. Esse procedimento, repetido diariamente em incubatórios de grande porte, está diretamente ligado ao desenho atual da cadeia produtiva de ovos.

Métodos como maceração e gaseificação são usados conforme normas sanitárias, mas prática segue alvo de críticas de entidades de bem-estar animal – depositphotos.com / kravaivan.11@gmail.com

Por que tantos pintos recém-nascidos são abatidos nas granjas?

A expressão abate de pintos recém-nascidos é usada para descrever o descarte em massa, em geral de machos de linhagens de postura. A principal justificativa das empresas está na lógica de custos: criá-los até a idade de abate exigiria espaço, ração, medicamentos, mão de obra e infraestrutura. Como não há mercado consolidado para a carne desses animais, o valor obtido na venda não compensaria o investimento. Estimativas divulgadas por associações internacionais de produtores apontam que, em países com avicultura intensiva, são descartados dezenas de milhões de pintos machos por ano.

Relatórios técnicos de órgãos de fiscalização explicam que o custo de produção de um frango de corte foi calculado para linhagens específicas, otimizadas para ganho de peso. Já o macho de linhagem de postura converte ração em carne de forma menos eficiente, chegando ao abate com menor peso, mais tarde e com pior rendimento de carcaça. Em termos econômicos, torna-se um animal considerado inviável para o sistema vigente. Dessa forma, o descarte logo ao nascimento é visto por muitos produtores como a alternativa que reduz perdas financeiras.

Quais métodos são usados para o abate de pintos?

Os métodos aplicados ao abate de pintos recém-nascidos variam conforme a legislação de cada país, normas de bem-estar animal e nível de automação das plantas. Guias técnicos citados por veterinários ligados a conselhos regionais de medicina veterinária descrevem os principais procedimentos aceitos em protocolos internacionais:

  • Maceração mecânica: uso de equipamentos com lâminas rotativas ou rolos que provocam morte instantânea, recomendados por alguns manuais quando bem ajustados;
  • Gaseificação: exposição dos pintos a concentrações controladas de gases, como dióxido de carbono, que levam à perda de consciência e morte;
  • Métodos físicos manuais: em estruturas menores, ainda existem práticas manuais, como deslocamento cervical, cuja aplicação exige treinamento para minimizar sofrimento.

Organizações especializadas em bem-estar animal apontam que, embora esses métodos possam ser considerados humanitários dentro de certas normas, o volume envolvido e a própria ideia de descarte em massa continuam sendo motivo de questionamento ético. Fiscalizações oficiais buscam garantir que o processo atenda a critérios de aturdimento rápido e ausência de dor prolongada.

Quais são os impactos éticos e sociais dessa prática?

O abate de pintos recém-nascidos ganhou visibilidade nos últimos anos com a divulgação de imagens de incubatórios e a atuação de entidades de proteção animal. Pesquisadores em ética aplicada, como docentes de universidades federais na área de zootecnia e filosofia, chamam atenção para a chamada contradição produtiva: o sistema gera animais saudáveis para, em seguida, descartá-los por falta de função econômica. Esse cenário alimenta debates sobre a responsabilidade moral de setores que dependem de seres vivos como insumo produtivo.

Do ponto de vista social, consumidores passam a questionar a origem dos ovos e produtos avícolas, pressionando redes de supermercados e grandes marcas a revisar suas cadeias. Campanhas internacionais já levaram alguns países europeus a anunciar cronogramas de eliminação do descarte de pintos machos, estimulando a adoção de tecnologias alternativas. Em paralelo, produtores relatam a necessidade de equilibrar exigências éticas com a manutenção da competitividade, especialmente em mercados exportadores.

Tecnologias como sexagem in ovo e linhagens de dupla finalidade surgem como alternativas para reduzir o descarte nas incubadoras – depositphotos.com / Grigorenko

Sexagem in ovo e outras alternativas ao descarte

Com o aumento da atenção pública, a indústria tem investido em soluções para reduzir ou substituir o abate de pintos recém-nascidos. Uma das principais frentes é a sexagem in ovo, técnica que permite identificar o sexo do embrião ainda dentro do ovo, antes da eclosão. Empresas de biotecnologia na Europa, América do Norte e Ásia já apresentam sistemas capazes de analisar amostras do conteúdo do ovo por meio de lasers, espectroscopia e marcadores genéticos.

Nesse modelo, ovos com embriões machos são descartados ou destinados a outros usos, como ingredientes para rações ou insumos industriais, evitando que o animal chegue a nascer. Embora o debate ético não se encerre, parte dos especialistas em bem-estar animal defende que a medida reduz sofrimento, já que impede o desenvolvimento completo do pinto. Dados de associações de produtores indicam que, em alguns mercados europeus, uma parcela crescente dos ovos vendidos em 2025 já provém de sistemas com sexagem in ovo, com selos específicos na embalagem.

Linhagens de dupla finalidade: é possível aproveitar machos e fêmeas?

Outra alternativa em discussão é o uso de linhagens de dupla finalidade, em que as fêmeas são criadas para postura de ovos e os machos para carne, mesmo que com menor rendimento que frangos de corte tradicionais. Pesquisadores de centros de genética avícola relatam que, historicamente, as galinhas eram mais versáteis, fornecendo ovos e carne de forma conjunta. A hiperespecialização moderna separou a linhagem de corte da linhagem de postura, aumentando a eficiência mas gerando o problema do descarte de machos.

Projetos-piloto em propriedades familiares e em marcas voltadas a nichos de mercado mostram que a dupla finalidade pode ser viável em sistemas com valor agregado, como programas de bem-estar superior ou produção orgânica, em que o consumidor aceita pagar mais por um modelo considerado menos excludente. No entanto, representantes da indústria afirmam que a adoção em grande escala enfrenta desafios, como maior custo de ração por quilo de carne e menor produtividade de ovos em comparação com as linhagens especializadas.

Como o setor avícola pode avançar nesse debate?

Especialistas em agropecuária e ética animal apontam que a superação do abate sistemático de pintos recém-nascidos depende de múltiplos fatores. Entre eles, destacam-se:

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  1. Pesquisa e inovação: desenvolvimento de métodos de sexagem in ovo mais baratos e rápidos, acessíveis também a incubatórios de médio porte;
  2. Transparência com o consumidor: rotulagem clara e comunicação sobre as práticas adotadas na produção de ovos e carne de frango;
  3. Incentivos econômicos: políticas públicas e programas privados que favoreçam sistemas que reduzam o descarte, como projetos com dupla finalidade;
  4. Atualização regulatória: revisão de normas de bem-estar animal à luz das novas tecnologias e das expectativas sociais;
  5. Formação técnica: capacitação de veterinários, zootecnistas e produtores para implementar alternativas de forma segura e consistente.

O tema coloca em evidência a relação entre eficiência produtiva, custo dos alimentos e responsabilidade ética na pecuária moderna. Ao mesmo tempo em que o setor busca atender a demanda global por proteína de origem animal, cresce o desafio de ajustar seus métodos a padrões de bem-estar e transparência cada vez mais exigentes pela sociedade, mantendo a sustentabilidade econômica das granjas.

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