Do grão ao chá: a história da cevada como “café falso”
Durante boa parte dos séculos XIX e XX, a cevada torrada ganhou espaço como alternativa ao café em diferentes países, inclusive no Brasil.
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Durante boa parte dos séculos XIX e XX, a cevada torrada ganhou espaço como alternativa ao café em diferentes países, inclusive no Brasil. Em períodos de crise, guerras ou problemas de safra, o grão de café ficava mais caro ou simplesmente sumia das prateleiras. Nesses momentos, muitas famílias abriram espaço para o chamado “café de cevada”, que surgia como solução prática e acessível. Esse substituto tentava reproduzir a experiência de beber café, mas com outra matéria-prima.
A bebida de cevada torrada seguia um preparo parecido ao do café coado. As pessoas tostavam os grãos, depois moíam e filtravam em água quente; assim, obtinham uma infusão escura e aromática. O resultado chamava atenção pela cor escura e pelo aroma tostado. Esses elementos ajudavam a enganar, à primeira vista, quem se acostumava à xícara fumegante de todas as manhãs e buscava manter seu ritual diário. Por essas características, a cevada conquistou fama como um “café falso” em épocas de escassez.
Por que a cevada virou substituto do café?
A principal razão para a popularização da cevada como substituto do café surgiu da escassez do grão verdadeiro. Em contextos de guerra, bloqueios comerciais, crises econômicas ou geadas nas lavouras, o café encarecia e desaparecia das lojas. Nesses cenários, muitas famílias precisavam adaptar seus hábitos e, portanto, a solução surgia no uso de cereais mais baratos e abundantes, como a cevada, o centeio ou até a chicória. Desse modo, a cevada entrou na cozinha não apenas por gosto, mas sobretudo por necessidade.
Em termos visuais, o “café de cevada” mostrava aparência semelhante à bebida tradicional. O líquido marrom-escuro, servido em xícaras comuns, geralmente aparecia adoçado e acompanhado de pão, bolos simples ou biscoitos caseiros. Além da cor, o sabor também trazia notas tostadas, que lembravam de longe o café. Essa semelhança visual e o custo menor ajudavam famílias a manter o hábito de tomar uma bebida quente pela manhã. Mesmo sem café puro à disposição, o ritual continuava, ainda que com outro significado.
Em alguns países europeus, como Alemanha e Itália, a cevada ganhou versões industrializadas, vendidas em pó solúvel ou granulada. Nesses mercados, surgiram marcas específicas e campanhas publicitárias que apresentavam a cevada como bebida moderna e funcional. Em muitos casos, fabricantes indicavam o produto para crianças, idosos ou pessoas sensíveis à cafeína. Essa orientação ocorria justamente porque a bebida não estimulava o sistema nervoso como o café. Com isso, o consumo podia se estender pela noite sem atrapalhar o sono. Esse uso reforçou a imagem da cevada como alternativa “mais leve”, embora o gosto se mantivesse diferente.
Substituto do café: até que ponto a cevada enganava?
Apesar da aparência semelhante, a cevada não reproduzia plenamente o sabor característico do café. A bebida de cevada apresentava gosto mais suave, com notas de cereal e um amargor distinto, menos complexo. Para quem se habituava ao café forte, a diferença surgia evidente já no primeiro gole, mesmo quando o preparo era mais concentrado. Essa distância de sabor dificultou a aceitação plena da cevada como equivalente.
Outro ponto central envolvia a ausência de cafeína. Historicamente, as pessoas sempre ligaram o café à ideia de despertar, dar ânimo para o trabalho e ajudar na concentração. Ao substituir o café por cevada, o consumidor mantinha o ritual da xícara fumegante e o momento de pausa. No entanto, ele perdia o efeito estimulante, o que mudava bastante a função social e corporal da bebida. Em muitos relatos históricos de famílias brasileiras, o “café de cevada” aparecia como algo “fraco” para começar o dia, e não como reforço de energia. Assim, a bebida servia mais como opção para crianças ou em momentos de aperto financeiro, além de ser valorizada, mais tarde, por quem buscava reduzir a ingestão de cafeína.
- Sabor menos intenso e menos amargo que o café;
- Aroma de cereal torrado, diferente do perfume típico do café;
- Textura frequentemente mais rala, dependendo do preparo;
- Ausência de efeitos estimulantes ligados à cafeína.
Por que o “café de cevada” não se firmou ao longo do tempo?
Com a normalização da oferta de café, especialmente a partir da segunda metade do século XX, a cevada perdeu espaço gradualmente. A produção cafeeira se expandiu em diversos países e se modernizou. Consequentemente, os preços caíram e se tornaram mais acessíveis para muitas famílias. Além disso, a cadeia de exportação e consumo se consolidou com força. Em países como o Brasil, grande produtor mundial, o café verdadeiro deixou de ser artigo de luxo e entrou de vez no dia a dia da população.
Além disso, os hábitos culturais influenciaram de forma decisiva. O paladar coletivo se formou em torno do gosto e do aroma do café tradicional. Em muitas casas, o café filtrado se transformou em símbolo de hospitalidade, encontro e pausa no trabalho; oferecer “um cafezinho” virou sinônimo de acolhimento. A cevada, por mais que imitasse alguns elementos, não carregava a mesma carga simbólica. Em contextos urbanos, o crescimento das cafeterias, do espresso e de bebidas à base de café reforçou ainda mais essa diferença. Desse modo, o “café falso” perdeu apelo diante da experiência completa do café e do status cultural associado a ele.
Outro fator envolveu a associação da cevada a períodos de dificuldade. Em determinadas épocas, o “café de cevada” surgiu na memória como marca de racionamento, guerra ou pobreza. Quando a economia melhorava e o café voltava às prateleiras, muitas famílias preferiam abandonar o substituto. Elas escolhiam o sabor considerado mais completo do café e, simbolicamente, celebravam a superação da escassez. Assim, a cevada permaneceu restrita a nichos específicos, como produtos infantis, bebidas sem cafeína ou usos culinários, incluindo pães, sopas e cervejas. Mais recentemente, também passou a aparecer em dietas voltadas ao bem-estar digestivo e a estilos de vida mais naturais.
Curiosidades históricas sobre a cevada como “café falso”
Ao longo do século XX, alguns períodos registraram crescimento pontual do consumo de “café de cevada”. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, países europeus sob racionamento recorreram intensamente a substitutos como cevada, chicória e beterraba torrada. Em muitos lares, as famílias reservavam o “café verdadeiro” para ocasiões especiais, como visitas e festas. Enquanto isso, o dia a dia ficava com a versão de cereal torrado. Em certas regiões, esse costume marcou tanto a vida doméstica que ainda hoje é lembrado em relatos orais e crônicas familiares.
No Brasil, em algumas regiões rurais, a cevada até hoje aparece na memória como bebida da infância, preparada em panela esmaltada e servida em canecas de ágata. Além disso, algumas famílias retomam essa prática por nostalgia ou por escolha de estilo de vida sem cafeína, às vezes alternando entre cevada, cafés descafeinados e chás de ervas.
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- Escassez ou encarecimento do café abriram espaço para a cevada;
- O cereal passou por torra e moagem para imitar café;
- O sabor e a falta de cafeína revelaram a diferença;
- Com a maior oferta de café, o substituto perdeu relevância;
- Hoje, a cevada permanece como opção sem cafeína e parte da memória histórica.
Assim, a história da cevada como “café falso” mostra como hábitos alimentares se adaptam a crises e transformações econômicas. Ao mesmo tempo, o gosto, a química da cafeína e os costumes culturais definem quais bebidas permanecem no cotidiano. Outras bebidas, como a cevada torrada, se ligam mais à lembrança de outros tempos, à saúde ou a escolhas de consumo diferentes. Em um cenário atual de maior interesse por alternativas ao café, essa antiga substituta volta a ganhar visibilidade, agora não apenas por necessidade, mas também por preferência consciente.