Ciência

Avanço científico: cérebro é estimulado e paciente recupera parte da visão perdida

Um homem cego há mais de uma década voltou a perceber formas e luz graças a um implante cerebral experimental que contorna completamente o nervo óptico e estimula diretamente o córtex visual. Saiba em detalhes!

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Um homem cego há mais de uma década voltou a perceber formas e luz graças a um implante cerebral experimental que contorna completamente o nervo óptico e estimula diretamente o córtex visual. O procedimento, conduzido por uma equipe da Universidade Miguel Hernández de Elche, na Espanha, foi um marco para a neurociência e para o desenvolvimento de novas terapias de restauração visual.

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O paciente, de meia-idade, perdeu a visão após uma lesão grave no nervo óptico, estrutura responsável por transmitir os sinais da retina ao cérebro. Assim, com o dano irreversível, métodos tradicionais, como cirurgias oculares ou transplantes de córnea, não ofereciam perspectiva de recuperação. Porém, o novo implante cerebral inaugurou uma rota alternativa. Afinal, em vez de tentar reparar o olho, a estratégia foi levar a informação visual diretamente ao centro de processamento no cérebro.

Com o dano irreversível, métodos tradicionais, como cirurgias oculares ou transplantes de córnea, não ofereciam perspectiva de recuperação. Porém, o novo implante cerebral inaugurou uma rota alternativa – depositphotos.com / IgorVetushko

Como funciona o implante cerebral de visão?

O dispositivo implantado é uma matriz de microeletrodos fixada na região do córtex visual, na parte posterior do crânio. Essa área é responsável por interpretar os estímulos luminosos que, em condições normais, chegam dos olhos por meio do nervo óptico. No caso estudado, o nervo estava danificado, o que interrompia completamente o fluxo de informações. O implante atua como uma espécie de “atalho”, fornecendo ao córtex sinais elétricos artificiais que o cérebro aprende a interpretar como estímulos visuais.

Para gerar essas imagens rudimentares, o sistema usa câmeras externas conectadas a um computador portátil. As imagens captadas passam por um processamento digital que as transforma em padrões de impulsos elétricos. Esses padrões são enviados aos microeletrodos, que estimulam pontos específicos do córtex visual. Cada eletrodo pode produzir pequenas percepções luminosas, chamadas de fosfenos. Combinados, esses pontos de luz permitem que o paciente identifique contornos, posição de objetos e contraste entre claro e escuro.

Implante cerebral de visão: o caso do homem com lesão no nervo óptico

Antes da cirurgia, o paciente vivia há anos em cegueira completa em decorrência de uma neuropatia óptica traumática. Exames mostravam que a retina mantinha alguma estrutura, mas o nervo óptico apresentava lesão extensa e irreversível. Assim, sem essa “via de transmissão”, qualquer tentativa de correção ocular seria insuficiente. Portanto, a equipe da Universidade Miguel Hernández de Elche o selecionou justamente por esse perfil, em que a visão não poderia ser restaurada por meios convencionais.

Após o implante, o processo não foi imediato. O paciente passou por semanas de calibração e treinamento em laboratório. Inicialmente, percebia apenas pontos luminosos desconexos. Com o tempo, a equipe ajustou a intensidade, a frequência e a combinação dos sinais elétricos até que esses pontos começassem a formar padrões reconhecíveis. Em testes controlados, o homem conseguiu:

  • Detectar a presença ou ausência de objetos em uma mesa.
  • Identificar a posição aproximada de portas e janelas em uma sala.
  • Distinguir letras grandes de alto contraste em painéis específicos.

Embora não se trate de uma visão detalhada, os resultados indicaram um ganho funcional, permitindo maior orientação espacial e interação com o ambiente.

O que dizem os pesquisadores sobre os resultados?

Integrantes da equipe da Universidade Miguel Hernández de Elche descrevem o estudo como uma prova de conceito relevante para a neurociência visual. Segundo os pesquisadores, o principal avanço está em demonstrar que é possível gerar percepções visuais úteis sem a participação do nervo óptico, apenas com a estimulação do córtex. Em entrevistas sobre o projeto, eles destacaram que a experiência do paciente reforça a ideia de que o cérebro adulto mantém uma capacidade significativa de adaptação.

De acordo com os cientistas envolvidos, o implante apresentou estabilidade ao longo dos meses de uso, sem complicações neurológicas graves associadas à estimulação. Eles ressaltam, porém, que o sistema ainda é experimental, com número limitado de eletrodos e resolução bastante inferior à visão natural. Para ampliar a qualidade das imagens, serão necessários:

  1. Aumentar a densidade de microeletrodos no córtex visual.
  2. Otimizar os algoritmos de processamento de imagem e codificação dos estímulos.
  3. Aprimorar a integração entre câmeras externas e o cérebro em tempo real.

Os pesquisadores também observam que o acompanhamento de longo prazo será fundamental para entender como o cérebro se adapta de forma sustentada a esse tipo de entrada artificial.

Como a plasticidade cerebral ajuda na recuperação da visão?

A noção de plasticidade cerebral é central nesse tipo de tecnologia. Mesmo em adultos que perderam a visão há anos, o córtex visual não fica totalmente inativo; em muitos casos, passa a ser recrutado para outras funções sensoriais, como tato e audição. Quando o implante começa a estimular essa região, o cérebro precisa reorganizar suas conexões para atribuir significado aos novos sinais elétricos.

Pesquisas em neurociência indicam que o treinamento repetitivo é essencial para essa adaptação. No caso do paciente, sessões diárias de exercícios visuais ajudaram o sistema nervoso a criar associações entre certos padrões de fosfenos e objetos do mundo real. Com o passar do tempo, tarefas que inicialmente exigiam grande esforço de concentração se tornaram mais automáticas, sugerindo um processo gradual de aprendizado neural.

Essa mesma lógica de plasticidade pode abrir caminho para outras aplicações médicas. Dispositivos semelhantes ao implante cerebral de visão podem, em teoria, ser adaptados para pessoas com degenerações da retina, doenças genéticas ou lesões em outras vias sensoriais. Além disso, conhecimentos obtidos nesses estudos podem contribuir para próteses neurais que auxiliem em distúrbios motores, de linguagem ou de memória.

A noção de plasticidade cerebral é central nesse tipo de tecnologia – depositphotos.com / KostyaKlimenko

Quais são as próximas etapas dessa linha de pesquisa?

Os responsáveis pelo projeto em Elche indicam que os próximos passos incluem testar o sistema em um número maior de participantes, com diferentes causas de cegueira, e refinar o desenho do implante para torná-lo menos invasivo e mais durável. A equipe também pretende integrar algoritmos de inteligência artificial para selecionar, em tempo real, as informações visuais mais relevantes, reduzindo a sobrecarga de estímulos no córtex.

Outra frente em estudo envolve miniaturizar os componentes externos, como câmeras e processadores, para que o conjunto possa ser utilizado no dia a dia sem grandes limitações. A expectativa dos pesquisadores é que, ao longo dos próximos anos, versões mais avançadas desses sistemas permitam não apenas identificar objetos e contornos, mas também distinguir rostos, ler textos simples e navegar com maior autonomia em ambientes urbanos.

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Apesar de ainda estar em fase inicial, o caso do homem com lesão no nervo óptico atendido pela Universidade Miguel Hernández de Elche ilustra o potencial dos implantes cerebrais de visão como alternativa para formas de cegueira consideradas, até recentemente, sem perspectiva de tratamento. À medida que a tecnologia evolui e o entendimento sobre a plasticidade cerebral se amplia, abre-se uma possibilidade concreta de ampliar o repertório terapêutico disponível para pessoas com perda visual grave, inaugurando uma nova etapa na interface entre cérebro, eletrônica e reabilitação sensorial.

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