História

Quem foi ‘Dona Beja’, que volta a ser tema de novela

Dona Beja, cujo nome verdadeiro era Ana Jacinta de São José, é uma das figuras mais marcantes da história do Brasil no século XIX. Saiba quem foi essa personagem que volta a ser tema de novela, agora na HBO Max.

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Dona Beja, cujo nome verdadeiro era Ana Jacinta de São José, é uma das figuras mais marcantes da história do Brasil no século XIX. Nascida em 1800, em Minas Gerais, tornou-se personagem lendária na região de Araxá, associada a histórias de beleza incomum, enfrentamento de padrões morais e ascensão social em plena época do Império. Agora, a personagem histórica volta ao centro das atenções com uma nova versão da telenovela “Dona Beja”. O fato reforça o interesse pelo que foi fato e pelo que pertence ao campo do mito em sua trajetória.

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A nova novela, produzida pela HBO Max, tem estreia prevista para 2 de fevereiro de 2026 e apresenta uma releitura contemporânea da trama já conhecida do público. Assim, a produção recupera o universo de Ana Jacinta e o recria para a linguagem atual, aproximando a personagem de temas em pauta atualmente. Entre eles, o poder feminino, moralidade pública e controle sobre o próprio corpo. Dessa forma, a história mistura elementos documentados a relatos orais e ficcionais, o que ao longo de décadas contribuiu para transformar Dona Beja em uma figura quase mítica.

A nova produção recupera o universo de Ana Jacinta e o recria para a linguagem atual, aproximando a personagem de temas em pauta atualmente – Divulgação/HBO Max

Quem foi Dona Beja na história de Araxá?

Dona Beja nasceu em uma sociedade marcada pelo patriarcado e por rígidos códigos de conduta. Criada em Araxá, na então província de Minas Gerais, ela teria se destacado desde jovem por sua beleza e pelo modo pouco convencional de se relacionar com a elite local. Assim, fontes históricas indicam que viveu em um contexto de disputas políticas e interesses econômicos. Nesse contexto, alianças pessoais tinham grande peso na vida cotidiana.

Diversos relatos mencionam que Ana Jacinta foi alvo de sequestro, possivelmente por um representante influente do poder imperial, o que teria marcado profundamente sua trajetória. Ao retornar à região, passou a construir uma vida à margem das expectativas reservadas às mulheres de sua época, recusando o destino tradicional de casamento arranjado e submissão. A partir daí, sua imagem começou a ser associada a uma figura de transgressão social, ao mesmo tempo temida e procurada pela elite masculina.

Dona Beja realmente fundou um bordel?

Um dos pontos mais conhecidos da lenda de Dona Beja é a criação de uma casa de prostituição em Araxá. A tradição oral e a literatura indicam que ela teria fundado um bordel de luxo, frequentado por figuras importantes da política e da economia regional. Nesse espaço, a personagem controlaria sua própria atividade, organizaria o ambiente e ditaria as regras de convivência, algo incomum para o período imperial brasileiro.

Do ponto de vista histórico, há registros fragmentados sobre a existência dessa casa e sobre a atuação de Ana Jacinta na prostituição. No entanto, grande parte dos detalhes foi ampliada por romances, folclore local e adaptações dramáticas. Assim, muitos elementos que hoje fazem parte do imaginário popular — como rituais de sedução, “feitiços” e cenas de escândalo público — têm forte componente ficcional. No entanto, o que se sustenta com mais consistência é a imagem de uma mulher que administrava seu próprio espaço. Além disso, lidava diretamente com homens de poder e circulava em áreas sociais reservadas a eles.

  • Fato provável: atuação de Dona Beja como cortesã em Araxá;
  • Fato possível: administração de um estabelecimento voltado ao prazer masculino;
  • Mito alimentado pela ficção: detalhes espetaculares de magia, vinganças elaboradas e domínio absoluto sobre todas as figuras poderosas da região.

Fato ou mito: qual foi o legado de Dona Beja?

A fronteira entre realidade e lenda, no caso de Dona Beja, é estreita. Documentos oficiais sobre sua vida são escassos, o que abriu espaço para que escritores e roteiristas preenchessem lacunas com imaginação literária. Em linhas gerais, pode-se dizer que o legado histórico está ligado a três pontos centrais: a quebra de expectativas em relação ao papel feminino, o questionamento da moral sexual dominante e a capacidade de negociação com grupos influentes de seu tempo.

Já o legado mítico inclui a ideia de uma mulher que exerceria fascínio irresistível, manipularia paixões e confrontaria publicamente as famílias tradicionais de Araxá. Também se consolidou a imagem de “feiticeira”, associada à alcunha “A Feiticeira do Araxá”, em referência à suposta habilidade de encantar homens e desestabilizar convenções sociais. Essa combinação de elementos reais e fantasiados explica por que a personagem continua gerando adaptações, pesquisas e debates no século XXI.

  1. Realidade: mulher à frente de seu tempo, em contexto imperial conservador;
  2. Construção literária: figura romântica e trágica, envolvida em paixões intensas;
  3. Ícone cultural: símbolo de poder feminino, desejo e transgressão social.

Como a televisão transformou Dona Beja em ícone?

A trajetória de Dona Beja ganhou projeção nacional a partir da televisão. Em 1986, a Rede Manchete exibiu a novela “Dona Beija”, que ajudou a cristalizar muitos dos elementos hoje associados à personagem. Nessa versão, a protagonista foi interpretada pela atriz Maitê Proença, que deu rosto e corpo à figura histórica, reforçando o imaginário de sedução e enfrentamento ao moralismo.

A trama de 1986 baseou-se em obras literárias que já misturavam pesquisa histórica e romance: “Dona Beja: A Feiticeira do Araxá”, de Thomas Othon Leonardos, e “A Vida em Flor de Dona Beja”, de Agripa Vasconcelos. Esses livros serviram como referência para retratar a personagem em um tom de drama romântico, com forte carga de erotismo e conflitos de honra. Parte do que o público hoje considera “verdade” sobre ela veio, na realidade, dessa combinação entre literatura e teledramaturgia.

Na novela de 1986, na extinta TV Manchete, a protagonista foi interpretada pela atriz Maitê Proença, que deu rosto e corpo à figura histórica, reforçando o imaginário de sedução e enfrentamento ao moralismo – Reprodução/TV Manchete

O que a nova novela “Dona Beja” traz de diferente?

A nova versão de “Dona Beja”, prevista para estrear em 2 de fevereiro de 2026 na HBO Max, resgata a mesma base literária, mas com outra abordagem. Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, com direção de Hugo de Sousa, a produção terá 40 capítulos e se propõe a reinterpretar Ana Jacinta para o público atual. A atriz Grazi Massafera assume o papel principal, sucedendo Maitê Proença na representação televisiva da personagem.

Nessa releitura, o enredo tende a enfatizar questões como autonomia feminina, relações de poder e violência simbólica, sem abandonar o pano de fundo histórico do Brasil imperial. Ao apresentar Dona Beja como uma mulher que desafia a sociedade conservadora, a novela reforça o debate sobre o controle social exercido sobre a sexualidade feminina e sobre a forma como certas figuras históricas são julgadas por seus comportamentos afetivos e profissionais.

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  • Protagonista na versão de 1986: Maitê Proença;
  • Protagonista na versão de 2026: Grazi Massafera;
  • Base literária: livros de Thomas Othon Leonardos e Agripa Vasconcelos;
  • Plataforma atual: HBO Max, com 40 capítulos previstos.

Entre fatos documentados, memórias transmitidas oralmente e adaptações dramáticas, Dona Beja permanece como uma figura que desperta curiosidade e discussão. A união de história, mito e ficção televisiva mantém viva a pergunta sobre quem, de fato, foi Ana Jacinta de São José e como sua imagem continua sendo reconstruída ao longo do tempo.

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