História

Entre livros e debates: Os segredos das duas mais famosas universidades da Idade Média

Descubra por que Bologna e Salamanca se tornaram grandes polos de estudantes e pensadores na Idade Média, moldando o saber europeu

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Nas cidades de Bolonha e Salamanca, na Europa medieval, formou-se um ambiente em que a circulação de ideias, livros e mestres ganhou força rara para a época. Em meio a reinos fragmentados, conflitos religiosos e mudanças econômicas, esses centros se destacaram como lugares onde o estudo começou a ganhar organização, regras próprias e um certo prestígio social. Não se tratava apenas de escolas isoladas, mas de comunidades estruturadas de alunos e professores que atraíam gente de vários territórios.

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Ao longo dos séculos XII e XIII, Bolonha e Salamanca foram se consolidando como referências em saber jurídico, filosófico e teológico. A presença de manuscritos, o apoio de autoridades civis e religiosas e a formação de corporações acadêmicas permitiram que essas cidades se transformassem em polos de ensino superior. O que hoje se chama de “universidade” começou a ganhar forma justamente nesses espaços, com normas internas, graus acadêmicos e um modelo que seria copiado em outras regiões da Europa.

Por que Bolonha se destacou como centro de estudo na Idade Média?

Localizada em uma região importante da Península Itálica, Bolonha se beneficiava de um intenso trânsito de comerciantes, autoridades e representantes da Igreja. Isso favoreceu a circulação de textos jurídicos romanos e canônicos, que passaram a ser objeto de estudo sistemático por mestres especializados, conhecidos como glosadores.

O ensino em Bolonha era fortemente voltado ao direito romano redescoberto, especialmente ao Corpus Iuris Civilis, compilado séculos antes no Império Bizantino. Professores comentavam linha por linha esses textos, produzindo anotações e interpretações que serviam de base para estudantes de diversas regiões. O prestígio dessas aulas fez com que a cidade atraísse jovens de diferentes reinos, interessados em atuar como juristas, conselheiros e funcionários nas cortes e nas dioceses.

Outro ponto decisivo foi o reconhecimento formal. A partir do século XII, a comunidade acadêmica de Bolonha passou a ser vista como uma entidade autônoma, com capacidade de definir regras internas, horários, remuneração de professores e até proteção jurídica aos estudantes estrangeiros. Essa autonomia, reforçada por privilégios concedidos por papas e imperadores, transformou Bolonha em um modelo de universidade medieval, combinando ensino, pesquisa de textos antigos e formação profissional.

Na Europa medieval, essas cidades transformaram o estudo em instituição, reunindo mestres e alunos de diferentes reinos em torno do direito, da teologia e da filosofia – depositphotos.com / canbedone

O que tornou Salamanca um polo intelectual tão importante?

No caso de Bolonha e Salamanca, Salamanca se destacou em outro contexto político e cultural: o da Península Ibérica em processo de reconquista e reorganização dos reinos cristãos. Fundada oficialmente como universidade no século XIII, com apoio de reis castelhanos e confirmação papal, Salamanca tornou-se um instrumento estratégico para a formação de quadros administrativos, religiosos e jurídicos da Coroa de Castela.

A localização da cidade, relativamente afastada de conflitos diretos, contribuiu para um ambiente mais estável. Isso permitiu que mestres em teologia, direito canônico, filosofia e, mais tarde, humanidades, se estabelecessem com maior segurança. A instituição recebia estudantes interessados em carreiras eclesiásticas, cargos na administração real e funções ligadas ao direito, o que aumentava sua influência política e intelectual.

Com o tempo, Salamanca também se tornou um local de debates sobre temas religiosos e morais, especialmente a partir da expansão ibérica para outros continentes. Questões ligadas à justiça, à ética e ao papel da Coroa eram estudadas por teólogos e juristas, reforçando a imagem da cidade como espaço de reflexão sobre o direito natural e as relações entre poder temporal e espiritual. Esse perfil intelectual contribuiu para consolidar a reputação da universidade como uma das mais relevantes da Europa medieval e dos séculos seguintes.

Quais fatores comuns explicam o prestígio de Bolonha e Salamanca?

Alguns elementos ajudam a entender por que Bolonha e Salamanca são frequentemente citadas juntas como grandes centros de estudantes e pensadores na Idade Média. Ambos os locais reuniam condições políticas, econômicas e institucionais que favoreciam a vida acadêmica. Entre esses fatores, destacam-se o apoio de autoridades seculares e religiosas, a relativa estabilidade local, a presença de professores reconhecidos e a capacidade de atrair alunos de diferentes regiões.

Essas universidades medievais também desenvolveram uma estrutura corporativa particular, com regras sobre matrícula, graus, disputas intelectuais e métodos de ensino. Esse modelo incluía:

  • Corporações de mestres e estudantes, que negociavam direitos e deveres com autoridades externas.
  • Uso do latim como língua comum de ensino, permitindo a presença de alunos estrangeiros.
  • Currículos relativamente padronizados, especialmente em direito, teologia e artes liberais.

Além disso, tanto Bolonha quanto Salamanca se beneficiaram de redes de circulação de livros e ideias. A cópia de manuscritos, o intercâmbio com outras escolas e a referência constante a textos clássicos e religiosos criaram uma base de conhecimento que ultrapassava a realidade local. Isso fazia com que decisões jurídicas, pareceres teológicos e interpretações filosóficas produzidas nessas universidades influenciassem práticas e normas em outros lugares.

Muito antes dos campi modernos, Bolonha já atraía estudantes interessados no direito romano, enquanto Salamanca formava juristas, teólogos e administradores para a Coroa de Castela – depositphotos.com / roberaten

Como se estruturava o cotidiano dos estudantes medievais?

O dia a dia em Bolonha e Salamanca envolvia rotinas intensas de estudo, marcadas por leituras públicas, comentários de textos e exercícios de argumentação. A formação não se limitava à sala de aula; a convivência em hospedarias, pensões e colégios ajudava a criar redes de contatos entre estudantes de diferentes origens sociais e geográficas. Isso ampliava a circulação do saber, já que muitos retornavam aos seus reinos levando métodos e ideias aprendidos nesses centros.

As etapas de formação seguiam um percurso relativamente estruturado:

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  1. Primeiro contato com as artes liberais, que forneciam base em gramática, lógica e retórica.
  2. Especialização em áreas como direito civil, direito canônico ou teologia, conforme o interesse ou necessidade do estudante.
  3. Participação em disputa pública (disputatio), na qual o candidato defendia teses diante de mestres e colegas.
  4. Concessão de graus acadêmicos, que habilitavam o indivíduo a lecionar ou a ocupar cargos específicos.

Esse conjunto de fatores ajuda a entender por que Bolonha e Salamanca, ainda hoje, são lembradas como símbolos da tradição universitária europeia. Na Idade Média, funcionaram como espaços em que o estudo sistemático do direito, da teologia e da filosofia encontrou terreno fértil, reunindo estudantes e pensadores em escala que poucos outros centros conseguiam alcançar.

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