Hong Kong: a cidade entre a coerção britânica e o retorno à China
Descubra por que a China cedeu Hong Kong na Convenção de Chuenpi, como recuperou o território e qual a relação política atual com a China
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A história de Hong Kong está ligada a disputas comerciais, conflitos militares e mudanças políticas que marcaram a relação entre a China e o Reino Unido ao longo dos séculos XIX e XX. A Convenção de Chuenpi, os tratados posteriores e os acordos firmados no fim do século XX ajudam a entender por que o território passou ao domínio britânico e, mais tarde, voltou à soberania chinesa. Hoje, Hong Kong ocupa uma posição particular dentro da República Popular da China, com um sistema jurídico e econômico diferenciado.
Para compreender o processo, é necessário observar o contexto em que a China imperial enfrentava pressões de potências ocidentais interessadas em abrir seu mercado à força, sobretudo por meio do comércio do ópio. Nesse cenário, Hong Kong surgiu inicialmente como uma base estratégica para o Reino Unido, ganhando importância econômica e política ao longo do tempo, enquanto a China via enfraquecer sua capacidade de negociação diante de sucessivas derrotas militares.
Por que a China cedeu Hong Kong na Convenção de Chuenpi?
A Convenção de Chuenpi, firmada em 1841, foi um acordo preliminar durante a Primeira Guerra do Ópio entre o Império Chinês da dinastia Qing e o Reino Unido. Embora não tenha sido plenamente ratificada em Pequim, ela simbolizou o momento em que a China aceitou, sob pressão militar, ceder a ilha de Hong Kong aos britânicos. Na prática, a derrota chinesa no conflito abriu caminho para que o território passasse ao controle britânico e servisse como porto e base naval no sul da China.
O motivo central da cessão foi a combinação de superioridade militar britânica e interesse comercial. A marinha britânica tinha clara vantagem tecnológica, e o governo Qing enfrentava dificuldades internas para resistir. Hong Kong oferecia um porto de águas profundas, posição geográfica estratégica próxima ao delta do Rio das Pérolas e acesso direto às rotas comerciais da região. A cessão foi consolidada posteriormente pelo Tratado de Nanjing (1842), que formalizou a transferência da ilha para o Reino Unido em caráter perpétuo, dentro do contexto dos chamados “tratados desiguais”.
Como a China recuperou o direito de retomar Hong Kong?
A palavra-chave para entender a retomada de Hong Kong pela China é “arrendamento”. Ao longo do século XIX, foram estabelecidos três regimes distintos para diferentes partes do território: a ilha de Hong Kong foi cedida em 1842; a Península de Kowloon, ao sul da Boundary Street, em 1860; e os Novos Territórios, ao norte da Boundary Street e ilhas adjacentes, foram arrendados ao Reino Unido por 99 anos em 1898.
Esse arrendamento dos Novos Territórios, válido até 1997, tornou-se o ponto jurídico-chave para as negociações no século XX. Na prática, sem os Novos Territórios, Hong Kong deixaria de ser viável, pois boa parte da área terrestre, da infraestrutura e da expansão urbana se concentrava ali. Na década de 1980, o Reino Unido e a República Popular da China iniciaram negociações formais sobre o futuro do território.
O resultado foi a Declaração Conjunta Sino-Britânica, assinada em 1984, que estabeleceu que todo o território de Hong Kong retornaria à China em 1º de julho de 1997. Em troca, Pequim se comprometeu a manter, por 50 anos após a transferência, o modelo conhecido como “um país, dois sistemas”, garantindo a Hong Kong alto grau de autonomia, sistema econômico capitalista e preservação de direitos e liberdades civis sob uma Lei Básica própria.
Como é hoje a relação de Hong Kong com a China?
Atualmente, Hong Kong é uma Região Administrativa Especial da China (RAEHK). Isso significa que o território faz parte da República Popular da China, mas possui um sistema jurídico, econômico e administrativo distinto do aplicado na China continental. Hong Kong mantém moeda própria (o dólar de Hong Kong), sistema financeiro internacionalizado e tribunais baseados na tradição do common law, herdada do período colonial britânico.
Na prática, a relação entre Hong Kong e Pequim é definida por um equilíbrio entre autonomia local e autoridade central. A Lei Básica prevê que a região tenha:
- Alto grau de autonomia em matérias econômicas, administrativas e parte das questões internas.
- Sistema econômico capitalista com ampla abertura ao investimento estrangeiro.
- Judiciário próprio, com cortes locais e possibilidade de recurso final ao Tribunal de Apelação Final de Hong Kong.
- Controle de fronteiras, imigração e moeda distintos da China continental.
Ao mesmo tempo, a política externa e a defesa permanecem sob responsabilidade exclusiva do governo central em Pequim. Nos últimos anos, mudanças legislativas, como a introdução de uma lei de segurança nacional para Hong Kong, aproximaram ainda mais o território das diretrizes políticas da China continental, tema que tem sido objeto de debate em nível internacional e local.
Quais são as principais características de Hong Kong hoje?
Hong Kong se consolidou como um importante centro financeiro e logístico da Ásia. Mesmo após 1997, o território continua sendo um dos principais hubs de serviços financeiros, comércio internacional e turismo de negócios da região. A ligação com a China continental, especialmente com a província de Guangdong e a chamada Grande Baía, reforça a função de ponte entre o mercado chinês e o sistema econômico global.
Alguns elementos ajudam a entender o papel atual de Hong Kong em relação à China:
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- Função econômica estratégica: a cidade atua como porta de entrada de capitais estrangeiros e como plataforma para empresas chinesas acessarem mercados internacionais.
- Sistema jurídico diferenciado: a manutenção do common law oferece previsibilidade a contratos, investimentos e disputas comerciais.
- Integração regional crescente: grandes projetos de infraestrutura conectam Hong Kong a cidades da China continental, ampliando fluxos de pessoas, mercadorias e serviços.
Assim, a trajetória de Hong Kong, da cessão na Convenção de Chuenpi ao retorno à soberania chinesa em 1997, resultou em uma configuração política singular: um território que pertence à China, mas opera com regras econômicas e institucionais diferenciadas, desempenhando papel relevante na ligação entre o país e o restante do mundo.