Novo fungo da Mata Atlântica consome aranhas e ganha fama de ‘zumbi’
Entre as inúmeras formas de vida que habitam a Mata Atlântica, um fungo recém-descrito chamou atenção da comunidade científica internacional. Trata-se de um chamado 'fungo zumbi', descoberto em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Saiba mais!
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Entre as inúmeras formas de vida que habitam a Mata Atlântica, um fungo recém-descrito chamou atenção da comunidade científica internacional. Com o apelido de fungo zumbi, o Purpureocillium atlanticum parasita aranhas conhecidas como aranhas-armadilha, estabelecendo uma relação íntima e letal com o hospedeiro. A identificação dessa espécie ocorreu em área de vegetação preservada no sudeste do Brasil, em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. Ela vem sendo tratada como um marco no estudo da biodiversidade de fungos.
O trabalho de descrição teve a liderança de pesquisadores brasileiros em colaboração com instituições europeias. Assim, isso coloca o país em destaque em um campo ainda pouco explorado: a micologia que se dedica a fungos que atacam artrópodes. A espécie foi reconhecida por um dos principais centros de pesquisa em plantas e fungos do mundo, o Royal Botanic Gardens, em Kew, no Reino Unido, em uma lista anual que destaca descobertas consideradas particularmente relevantes para a ciência e para a conservação.
O que é o fungo zumbi Purpureocillium atlanticum?
O Purpureocillium atlanticum é um fungo parasita pertencente a um grupo especializado em infectar insetos e aracnídeos. Nesse caso, o alvo são aranhas que constroem tocas subterrâneas, as aranhas-armadilha. Assim, depois de entrar em contato com o animal, o fungo invade o corpo da aranha e passa a utilizar seus tecidos como fonte de nutrientes, instalando-se de forma silenciosa até dominar completamente o hospedeiro.
À medida que a infecção progride, o interior da aranha é tomado por uma estrutura filamentosa chamada micélio, responsável pelo crescimento vegetativo do fungo. Externamente, esse processo se manifesta como uma massa esbranquiçada que preenche o corpo do animal. Assim, em estágios mais avançados, o fungo desenvolve uma estrutura capaz de ultrapassar a entrada da toca e alcançar o ambiente externo. Dessa forma, cria uma espécie de “ponte” entre o interior do abrigo e o solo ao redor.
Essa posição estratégica facilita a dispersão de esporos no ambiente, especialmente no solo e no ar próximo à abertura da toca, aumentando as chances de contato com novas aranhas-armadilha. Trata-se de um ciclo altamente especializado, voltado para um tipo específico de hospedeiro. Pesquisadores destacam que esse grau de especialização indica que o Purpureocillium atlanticum não apresenta risco para seres humanos ou animais domésticos, atuando de forma restrita em seu nicho ecológico.
Como o Purpureocillium atlanticum se comporta na natureza?
O comportamento do fungo zumbi Purpureocillium atlanticum está diretamente ligado ao estilo de vida das aranhas que parasita. As aranhas-armadilha costumam viver em tocas escavadas no solo, fechadas por uma espécie de “porta” camuflada. Esse padrão de vida subterrâneo oferece ao fungo um microambiente estável, com umidade e temperatura relativamente constantes, condições favoráveis ao desenvolvimento do micélio e à produção de esporos.
O ciclo de vida do fungo pode ser resumido em etapas principais:
- Contato inicial entre esporos do fungo e a aranha, geralmente no entorno da toca.
- Penetração do fungo no corpo do hospedeiro e início da colonização interna.
- Substituição gradual dos tecidos da aranha por micélio, resultando na morte do animal.
- Formação de estruturas externas que ultrapassam a entrada da toca, favorecendo a liberação de esporos.
- Dispersão dos esporos no solo e infecção de novos indivíduos, reiniciando o ciclo.
Esse tipo de parasitismo é considerado um exemplo de como fungos e animais podem coevoluir em ambientes específicos. A adaptação do Purpureocillium atlanticum ao comportamento das aranhas-armadilha sugere uma história evolutiva longa, em que pequenos ajustes de ambos os lados foram moldando a interação ao longo do tempo.
Por que o fungo zumbi da Mata Atlântica é importante para a ciência?
A descoberta do Purpureocillium atlanticum reforça a ideia de que a Mata Atlântica abriga uma diversidade de fungos ainda pouco conhecida. Estimativas citadas por instituições internacionais indicam que menos de 10% das espécies de fungos do planeta foram descritas formalmente. Isso significa que a maior parte desse universo permanece desconhecida, inclusive em biomas já bastante estudados sob outros aspectos, como plantas e vertebrados.
Do ponto de vista científico, a identificação de uma nova espécie de fungo parasita de aranhas fornece dados valiosos em diferentes frentes:
- Taxonomia e classificação: amplia o conhecimento sobre a família de fungos que parasitam artrópodes, ajudando a organizar melhor as relações de parentesco entre espécies.
- Ecologia: mostra como fungos, aranhas e outros organismos interagem na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.
- Conservação: evidencia que organismos microscópicos também dependem de ambientes preservados para sobreviver.
Além disso, fungos parasitas de insetos e aracnídeos costumam despertar interesse em áreas aplicadas, como o estudo de compostos bioativos e o desenvolvimento de métodos de controle biológico de pragas. No caso do Purpureocillium atlanticum, ainda não há indicações de uso prático, mas o simples registro de sua existência abre espaço para futuras pesquisas em diferentes campos.
Qual é a relação entre o fungo zumbi e a preservação da Mata Atlântica?
A presença do fungo zumbi Purpureocillium atlanticum em áreas de Mata Atlântica realça a importância da conservação desse bioma. Trata-se de um ambiente que já perdeu grande parte de sua cobertura original, mas que continua abrigando espécies endêmicas, muitas delas ainda desconhecidas pela ciência. Cada nova espécie descrita funciona como um indicador de que há mais diversidade a ser descoberta em fragmentos de floresta remanescentes.
Para especialistas em biodiversidade, descobertas como essa reforçam alguns pontos centrais:
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- Ambientes naturais preservados abrigam redes complexas de interação entre organismos, muitas vezes invisíveis a olho nu.
- Espécies especializadas, como o Purpureocillium atlanticum, podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas, caso seu habitat seja destruído.
- Investimentos em pesquisa de campo, formação de taxonomistas e manutenção de áreas protegidas são fundamentais para revelar e compreender essa diversidade oculta.
Com isso, o fungo zumbi da Mata Atlântica torna-se mais do que uma curiosidade científica. Ele passa a ser um exemplo concreto de como a investigação de organismos discretos, como fungos de solo, pode contribuir para debates mais amplos sobre conservação, uso do território e responsabilidade na gestão de ecossistemas que ainda guardam grande parte de sua riqueza em segredo.