Ciência

Por que a ciência considera que pessoas deprimidas são mais propensas ao vício?

A relação entre depressão e vício tem sido observada em diferentes países e contextos clínicos. Saiba o que diz a ciência a esse respeito.

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A relação entre depressão e vício tem sido observada em diferentes países e contextos clínicos. Afinal, pesquisas indicam que pessoas com transtorno depressivo apresentam maior risco de desenvolver dependência de álcool, drogas ou mesmo comportamentos compulsivos, como jogo e compras. Essa associação não é vista como coincidência, mas como resultado de fatores biológicos, psicológicos e sociais que se somam ao longo do tempo.

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Para a ciência, a depressão não se limita à tristeza intensa. Trata-se de um transtorno que altera a forma como o cérebro processa prazer, recompensa, motivação e tomada de decisão. Em muitos casos, a pessoa deprimida busca aliviar sintomas como apatia, angústia e vazio emocional. É nesse ponto que o consumo de substâncias ou comportamentos viciantes pode entrar como uma tentativa de compensação, ainda que traga riscos significativos.

Para a ciência, a depressão não se limita à tristeza intensa. Trata-se de um transtorno que altera a forma como o cérebro processa prazer, recompensa, motivação e tomada de decisão – depositphotos.com / AndrewLozovyi

Por que a ciência considera que pessoas deprimidas são mais vulneráveis ao vício?

Estudos em neurociência mostram que tanto a depressão quanto o vício envolvem alterações nas mesmas áreas cerebrais, especialmente nos sistemas de recompensa e motivação. Regiões como o córtex pré-frontal e o núcleo accumbens participam do controle de impulsos, da avaliação de riscos e da sensação de prazer. Em indivíduos deprimidos, essas estruturas podem funcionar de maneira menos eficiente, favorecendo comportamentos impulsivos e repetitivos.

A palavra-chave central nesse debate é depressão e vício. A ciência aponta que, diante de um humor persistentemente rebaixado, o organismo passa a responder de maneira diferente a estímulos de prazer. Substâncias como álcool, nicotina ou drogas ilícitas podem provocar um aumento rápido de dopamina, gerando alívio momentâneo. Esse alívio imediato reforça o comportamento, abrindo caminho para a dependência, especialmente quando o sofrimento emocional é intenso e duradouro.

Além disso, quadros depressivos costumam estar associados a baixa autoestima, sentimento de incapacidade e pessimismo em relação ao futuro. Esses fatores psicológicos podem levar a um estilo de enfrentamento chamado de “evitação”, em que a pessoa tenta afastar pensamentos incômodos em vez de lidar diretamente com eles. O uso repetido de substâncias ou a prática de atividades compulsivas tornam-se, então, estratégias de fuga, reforçadas a cada nova tentativa de escapar do mal-estar interno.

Como o cérebro conecta depressão e vício?

Quando se fala em dependência química ou comportamental, a ciência costuma destacar o papel do sistema de recompensa. Em pessoas sem depressão, experiências agradáveis liberam quantidades moderadas de neurotransmissores, como dopamina e serotonina, produzindo satisfação. Já em quadros depressivos, há evidências de que esse sistema fica “hipofuncionante”, com menor resposta a estímulos positivos do cotidiano, como convívio social ou hobbies.

Diante dessa redução da capacidade de sentir prazer, a busca por estímulos mais intensos ganha espaço. O álcool, por exemplo, pode gerar sensação de relaxamento e diminuição temporária da ansiedade. Drogas estimulantes podem provocar aumento passageiro de energia e euforia. A partir daí, o cérebro aprende que essas substâncias fornecem um atalho químico para aliviar o sofrimento. Com o tempo, no entanto, ocorre:

  • Tolerância: necessidade de doses maiores para obter o mesmo efeito;
  • Dependência: dificuldade de reduzir ou interromper o uso;
  • Sintomas de abstinência: piora do humor, irritação, ansiedade e insônia.

Esse ciclo acaba reforçando tanto a depressão quanto o vício. A pessoa passa a depender cada vez mais da substância ou comportamento para se sentir minimamente funcional, enquanto os problemas decorrentes do uso (conflitos familiares, dificuldades no trabalho, questões financeiras) ampliam o sofrimento psíquico.

Quais fatores aumentam o risco de depressão e vício caminharem juntos?

A relação entre depressão e vício não depende de um único elemento. A literatura científica aponta a interação de múltiplos fatores. Alguns se destacam com frequência em estudos populacionais e clínicos:

  • Histórico familiar: parentes com depressão, alcoolismo ou dependência de outras drogas indicam maior vulnerabilidade genética;
  • Experiências traumáticas: violência, abuso, perdas significativas e negligência na infância aumentam a chance de ambos os quadros;
  • Ambiente social de risco: convívio em contextos em que o uso de substâncias é comum e pouco questionado facilita o acesso e a normalização;
  • Falta de apoio: isolamento social e ausência de redes de suporte tornam mais difícil buscar ajuda profissional ou emocional;
  • Condições médicas crônicas: dor persistente, doenças incapacitantes e limitações funcionais podem favorecer depressão e o uso problemático de medicamentos.

Outro ponto importante é que a depressão pode reduzir a motivação para tratamentos, estudos e trabalho. Com menos perspectivas de melhoria, cresce a probabilidade de recorrer a substâncias para tentar lidar com o cotidiano. A ciência observa esse padrão em diferentes faixas etárias, desde adolescentes até pessoas idosas, com variações conforme o contexto cultural e econômico.

Em pessoas sem depressão, experiências agradáveis liberam quantidades moderadas de neurotransmissores, como dopamina e serotonina, produzindo satisfação – depositphotos.com / TLFurrer

Como a ciência orienta o cuidado com depressão e vício juntos?

Pesquisas atuais indicam que tratar apenas o vício, sem abordar os sintomas depressivos, tende a gerar índices mais altos de recaída. Da mesma forma, focar somente na depressão, ignorando o uso problemático de substâncias, reduz a eficácia das intervenções. Por isso, especialistas defendem uma abordagem integrada, conhecida como tratamento para “transtornos simultâneos” ou “dupla diagnóstica”.

Entre as estratégias mais citadas estão:

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  1. Avaliação completa: identificação de sintomas depressivos, padrão de uso de substâncias e fatores de risco associados;
  2. Psicoterapia estruturada: abordagens como terapia cognitivo-comportamental ajudam a trabalhar pensamentos automáticos, hábitos e formas de lidar com o estresse;
  3. Uso criterioso de medicamentos: antidepressivos e outros fármacos podem ser indicados, sempre com acompanhamento médico;
  4. Suporte social: participação de família, grupos de apoio e serviços comunitários contribui para a manutenção de mudanças;
  5. Rotina saudável: sono adequado, alimentação equilibrada e atividades físicas são reforçados como elementos de proteção.

Ao observar a ligação entre depressão e vício, a ciência não atribui essa associação a fraqueza de caráter ou falta de vontade. A ênfase recai sobre mecanismos cerebrais, experiências de vida e condições sociais que, combinados, aumentam a probabilidade de que o uso de substâncias se torne uma resposta ao sofrimento emocional. Compreender essa conexão permite desenvolver políticas públicas, tratamentos e ações de prevenção mais adequados à realidade de quem enfrenta esses dois desafios ao mesmo tempo.

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