Tuvalu em risco, Caribe seguro? O impacto do aquecimento global nas ilhas
O aquecimento global deixou de ser um tema distante para se tornar parte do cotidiano de diversas ilhas ao redor do mundo. Entenda por que o impacto diferente entre ilhas do Pacífico e do Caribe.
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O aquecimento global deixou de ser um tema distante para se tornar parte do cotidiano de diversas ilhas ao redor do mundo. Afinal, em diferentes oceanos, pequenas nações insulares já convivem com a combinação de elevação do nível do mar, erosão costeira e eventos climáticos extremos mais frequentes. Algumas, como Tuvalu e Kiribati, no Pacífico, lidam com a possibilidade real de desaparecer do mapa. Já outras, como St. Kitts e Nevis, no Caribe, veem suas zonas costeiras sob pressão, ainda que o risco de submersão total seja menor.
As mudanças que acontecem nessas ilhas ajudam a ilustrar de forma concreta o que os relatórios científicos apontam há décadas. O derretimento de geleiras e mantos de gelo, somado à expansão térmica dos oceanos, vem elevando o nível médio do mar em ritmo crescente desde o século XX. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a elevação global média ultrapassou 20 centímetros desde 1900, com aceleração mais forte a partir dos anos 1990. Assim, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, projeções até o fim do século apontam para elevações que podem superar 1 metro em algumas regiões oceânicas.
Aquecimento global e aumento do nível do mar: o que está em jogo?
O aquecimento global é impulsionado, principalmente, pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, como dióxido de carbono e metano. Esse processo intensifica o efeito estufa natural e eleva a temperatura média do planeta. Por sua vez, o oceano absorve boa parte desse calor e também parte do CO? emitido. Isso leva não apenas ao aquecimento das águas, mas também à sua dilatação e à perda de massa de gelo em regiões polares e de alta montanha.
A expressão aumento do nível do mar reúne esses efeitos em um indicador concreto para populações costeiras. Além disso, a elevação não é homogênea: correntes marinhas, salinidade, gravidade e subsidência (afundamento) do solo fazem com que algumas áreas registrem taxas maiores que a média global. Por isso, pequenas ilhas do Pacífico e do Caribe, dependentes de faixas costeiras estreitas, são especialmente sensíveis a variações de poucos centímetros, que já podem intensificar inundações em marés altas e tempestades.
Por que ilhas como Tuvalu e Kiribati estão entre as mais vulneráveis?
Tuvalu e Kiribati aparecem como símbolos da vulnerabilidade climática por causa de suas características geográficas e geológicas. Afinal, muitas de suas terras emergidas constituem-se de atóis de coral, estruturas baixas, estreitas e pouco elevadas em relação ao nível do mar. Assim, em diversos pontos, a altitude mal supera dois metros. Isso significa que a diferença entre a linha d’água em dias calmos e a superfície habitada é mínima.
Essa configuração faz com que pequenos incrementos no nível médio do mar tenham efeitos amplificados no cotidiano. Por isso, ,arés mais altas e tempestades podem provocar inundações que atravessam a ilha de um lado a outro, salinizando lençóis freáticos rasos e comprometendo a agricultura de subsistência. Em alguns locais, comunidades já relatam a necessidade de deslocamento interno devido à perda de áreas habitáveis. De maneira simplificada, quanto mais baixa e plana a ilha, maior a probabilidade de que a elevação contínua do mar torne partes significativas do território inabitáveis ao longo das próximas décadas.
Além da altitude, outro fator relevante é a natureza do solo. Atóis de coral tendem a ser mais frágeis à erosão causada por ondas intensas e tempestades mais fortes. A elevação do mar também aumenta a energia das ondas que chegam à costa, favorecendo o recuo das praias. Sem grandes montanhas ou rochas resistentes para atuar como barreiras naturais, o ambiente costeiro dessas ilhas se torna particularmente exposto.
Por que ilhas vulcânicas do Caribe, como St. Kitts e Nevis, sofrem de forma diferente?
No Caribe, ilhas como St. Kitts e Nevis apresentam uma configuração distinta. Formadas por atividade vulcânica, contam com cadeias montanhosas e terrenos mais elevados. Esse fator reduz o risco de desaparecimento completo por submersão mesmo diante de um aumento significativo do nível do mar. Em muitos pontos, as áreas centrais ultrapassam centenas de metros de altitude, oferecendo uma espécie de “refúgio vertical” para populações e infraestruturas.
Porém, Isso não significa ausência de impactos. Nessas ilhas vulcânicas, as porções mais vulneráveis concentram-se nas zonas costeiras, onde estão instalados portos, hotéis, estradas e boa parte da infraestrutura econômica ligada ao turismo. Assim, a elevação do nível do mar intensifica a erosão costeira, aumenta o risco de inundações em tempestades tropicais e pode danificar recifes de coral que protegem as praias. Em alguns trechos, a combinação de mar mais alto e tempestades mais intensas já força a realocação de construções ou obras de contenção.
Na comparação entre Pacífico e Caribe, a diferença central está no “desenho” das ilhas. Em St. Kitts e Nevis, mesmo com a perda de faixas costeiras, há áreas internas mais altas para onde atividades econômicas e moradias podem, em tese, se deslocar. Em Tuvalu e Kiribati, essa margem de manobra é muito mais estreita. Afinal, quase toda a superfície está próxima da linha do mar, sem gradientes altimétricos significativos.
Quais fatores geográficos e geológicos aumentam a vulnerabilidade das ilhas?
A vulnerabilidade de uma ilha ao aumento do nível do mar resulta de uma combinação de fatores físicos e humanos. Entre os elementos geográficos e geológicos que mais influenciam essa exposição, destacam-se:
- Altitude média e máxima: ilhas baixas, como atóis de coral, são mais propensas a inundações permanentes e temporárias.
- Tipo de formação geológica: formações vulcânicas tendem a ser mais elevadas e rochosas; atóis são mais frágeis e planos.
- Largura das faixas costeiras: ilhas estreitas possuem menos área disponível para recuo da linha de ocupação.
- Erosão e estabilidade do solo: costas arenosas e recifes degradados aumentam a exposição às ondas.
- Taxas locais de subsidência ou soerguimento: o afundamento do terreno pode intensificar, em escala local, o efeito da elevação do mar.
Além desses fatores físicos, a forma como as ilhas são ocupadas também tem peso. Afinal, a concentração de infraestrutura em áreas costeiras, a urbanização de manguezais e dunas e a retirada de vegetação nativa reduzem a capacidade natural de proteção das margens. Em algumas ilhas, medidas de adaptação já em debate incluem barreiras físicas e recuperação de ecossistemas costeiros. Ademais, também há o planejamento de eventuais realocações internas de comunidades.
Como esses cenários ajudam a entender o futuro das ilhas?
Ao comparar Tuvalu e Kiribati, no Pacífico, com St. Kitts e Nevis, no Caribe, torna-se mais claro que o impacto do aquecimento global e do aumento do nível do mar não é uniforme. Ilhas baixas e coralinas correm maior risco de ver partes significativas de seu território tornarem-se inabitáveis em horizontes de algumas décadas, enquanto ilhas montanhosas enfrentam perdas sobretudo nas áreas costeiras, essenciais para suas economias.
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A evolução desses casos será acompanhada de perto por cientistas, governos e organismos internacionais ao longo dos próximos anos. As decisões tomadas em relação à redução de emissões globais, à adaptação costeira e à proteção de ecossistemas marinhos e terrestres tendem a influenciar de forma direta o futuro dessas populações insulares, que hoje funcionam como um termômetro visível das transformações climáticas em curso.