Cultura

Do Recôncavo à Sapucaí: a história e a força do Bembé do Mercado

Bembé do Mercado: celebração afro-brasileira em Santo Amaro que une fé, ancestralidade e patrimônio cultural, tema da Beija-Flor

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Realizado todos os anos em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, o Bembé do Mercado é considerado uma das mais antigas celebrações públicas de matriz africana em atividade no Brasil. A festa reúne cânticos, toques de atabaque, danças e rituais que ocupam o espaço urbano, especialmente a área próxima ao Mercado Municipal e à Praça do Mercado. Ao longo de vários dias, moradores, visitantes, religiosos e artistas se encontram para celebrar tradições que atravessam gerações.

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O Bembé do Mercado está diretamente ligado à história da presença africana na Bahia e à resistência da população negra diante de períodos de proibição de cultos e perseguições religiosas. A festa preserva elementos de religiões de matriz africana, principalmente o candomblé, e ao mesmo tempo se abre para manifestações populares, como cortejos, apresentações musicais e ações educativas. Com o passar do tempo, transformou-se em um símbolo de identidade para o povo de Santo Amaro e referência nacional quando se fala em cultura afro-brasileira.

Origem histórica do Bembé do Mercado

A origem do Bembé do Mercado remonta ao final do século XIX, em um contexto de fim formal da escravidão, mas de permanência de desigualdades e preconceitos. Registros históricos indicam que a festa teria começado em 1889, como forma de agradecimento e de louvação aos orixás pela liberdade recém-conquistada. Antigos terreiros da região do Recôncavo Baiano tiveram papel central na organização das primeiras edições, que ocorriam de maneira simples, porém marcadas por forte sentido religioso.

Naquele período, muitas práticas de candomblé ainda eram criminalizadas e realizadas às escondidas. O Bembé se destacou justamente por ocupar um espaço público, o mercado, aproximando a religiosidade de matriz africana do cotidiano da cidade. Mães e pais de santo, ogãs e equedes ajudaram a consolidar o caráter comunitário da festa, que passou a se repetir todos os anos, fortalecendo uma tradição que atravessa o século XX e chega ao século XXI com forte presença simbólica.

A festa reúne rituais do candomblé, música, dança e cortejos como forma de resistência e afirmação da identidade negra – Wikimedia Commons/Tatiana Azeviche-Setur

O que significa o Bembé do Mercado para a religiosidade afro-brasileira?

Do ponto de vista religioso, o Bembé do Mercado é um grande xirê público, um momento em que cânticos e toques são dedicados aos orixás, entidades cultuadas nas religiões de matriz africana. A festa envolve rituais específicos, com rezas, oferendas, danças e o uso de instrumentos tradicionais, como atabaques e agogôs. Tudo é realizado segundo regras e fundamentos transmitidos pelos terreiros, o que garante respeito às tradições e aos mais velhos.

Esse caráter religioso convive com uma dimensão social ampla. Para muitas pessoas da região, o Bembé funciona como um espaço de reafirmação de identidade, orgulho da ancestralidade africana e valorização da liberdade de culto. A festa ajuda a combater o preconceito religioso, ao mostrar ao público que o candomblé e outras práticas de matriz africana são parte estruturante da cultura brasileira. Em vez de ficar restrita a espaços fechados, a fé se manifesta na rua, de maneira visível e coletiva.

Onde o Bembé do Mercado acontece e como é celebrado?

O Bembé do Mercado ocorre em Santo Amaro, município situado a cerca de 70 quilômetros de Salvador, na região do Recôncavo, área conhecida pela forte presença de tradições afro-brasileiras. O ponto central da celebração é o entorno do Mercado Municipal e da Praça do Mercado, onde são montados palcos, estruturas de som e áreas reservadas para os rituais religiosos. Ao longo dos dias de festa, o espaço se enche de barracas, comidas típicas, artesanato e manifestações artísticas.

A celebração costuma se estender por vários dias, geralmente em maio, reunindo atividades que vão desde as obrigações religiosas até apresentações culturais diversas. Entre os momentos mais marcantes estão:

  • Toques de candomblé, com atabaques e cânticos em língua africana;
  • Rodas de samba e outras expressões musicais do Recôncavo;
  • Desfiles e cortejos com grupos culturais da região;
  • Atividades educativas, como palestras, rodas de conversa e oficinas sobre história e cultura afro-brasileira.

Essa combinação de rito e festa transforma o Bembé em um grande encontro popular, envolvendo diferentes gerações.

Reconhecido como patrimônio cultural, o Bembé se tornou símbolo da história e da religiosidade afro-brasileira – Wikimedia Commons/EvertonCostaFoto

Importância cultural e reconhecimento como patrimônio

A relevância do Bembé do Mercado para a cultura afro-brasileira é ampla. A festa preserva músicas, danças, rezas e modos de fazer que vieram da diáspora africana e se reinventaram no Recôncavo. Também fortalece a autoimagem da população negra, ao valorizar seus saberes e seus símbolos em uma celebração pública. Para pesquisadores e instituições culturais, o Bembé é um exemplo de como a herança africana estruturou práticas sociais e religiosas no Brasil.

Esse reconhecimento resultou em importantes registros de patrimônio cultural. Em nível estadual e federal, o Bembé do Mercado foi reconhecido como bem cultural de natureza imaterial, integrando o conjunto de manifestações protegidas por políticas de salvaguarda. De forma geral, esse tipo de reconhecimento busca:

  1. Documentar a história e a memória da celebração;
  2. Apoiar mestres, sacerdotes e comunidades que mantêm a tradição viva;
  3. Garantir que futuras gerações tenham acesso aos saberes e práticas associados ao Bembé;
  4. Estimular ações de preservação do espaço urbano ligado à festa.

Com isso, o Bembé do Mercado passa a ser visto não apenas como evento local, mas como referência do patrimônio cultural brasileiro.

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Bembé do Mercado no Carnaval carioca

Em 2025, o Bembé do Mercado ganhou projeção ainda maior ao ser escolhido como tema do desfile da Beija-Flor de Nilópolis, atual campeã do Carnaval do Rio de Janeiro. A proposta do enredo é apresentar, na Marquês de Sapucaí, a história da celebração, seus vínculos com a liberdade, com a religiosidade de matriz africana e com a resistência da população negra no Recôncavo Baiano. O samba-enredo, amplamente divulgado antes do desfile, vem sendo apontado por comentaristas e apreciadores como um dos melhores sambas deste século, o que reforça o interesse nacional sobre o Bembé e contribui para divulgar, de forma respeitosa e educativa, esse importante patrimônio cultural do país.

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