Entenda as manifestações no Irã e como funciona o poder político no país
Nas últimas semanas, o Irã voltou ao centro das atenções internacionais por causa de uma nova onda de manifestações populares em diversas cidades. Entenda o que está acontecendo e como funciona o poder político no país.
compartilhe
SIGA
Nas últimas semanas, o Irã voltou ao centro das atenções internacionais por causa de uma nova onda de manifestações populares em diversas cidades. Os protestos têm como pano de fundo o descontentamento com a situação econômica, a pressão social sobre costumes e liberdades civis e o funcionamento da própria estrutura política do país. Diante disso, a resposta das autoridades tem incluído reforço do aparato de segurança, restrições ao acesso à internet e prisões de manifestantes e ativistas.
Os atos não surgiram de forma isolada. Afinal, eles se somam a um histórico recente de mobilizações, que ganharam destaque mundial a partir de 2022, após a morte de Mahsa Amini, jovem detida pela chamada “polícia da moralidade”. Desde então, setores da sociedade iraniana mantêm uma agenda de reivindicações que vai da exigência de mais liberdade de vestimenta até mudanças profundas nas regras políticas e na aplicação das leis baseadas na interpretação oficial da religião islâmica.
O que está por trás das manifestações no Irã?
A palavra-chave para entender o que está ocorrendo atualmente no Irã é insatisfação acumulada. Três eixos costumam aparecer com frequência nas faixas, nas redes sociais e nos relatos de manifestantes. São eles: crise econômica, restrições sobre direitos e contestação da forma como o poder é exercido. Ademais, a inflação alta, o desemprego entre jovens e as dificuldades para acesso a bens básicos afetam o cotidiano de grande parte da população. Além disso, o cenário agrava-se por sanções internacionais e limitações nas exportações de petróleo.
Ao mesmo tempo, grupos de ativistas chamam atenção para a aplicação rigorosa de normas de conduta com base na interpretação oficial da lei islâmica, especialmente sobre mulheres. Regras sobre o uso obrigatório do véu, à segregação de espaços e à atuação de órgãos de fiscalização de costumes têm sido alvo de protestos recorrentes. Nessas manifestações, o Irã aparece frequentemente descrito por analistas como uma república islâmica em tensão interna, dividida entre setores que defendem a manutenção rígida do modelo atual e parcelas da sociedade que pedem flexibilização e reformas.
Como funciona a forma de governo na república islâmica do Irã?
O Irã é uma república islâmica, modelo em que religião e política se conectam diretamente. No topo da estrutura está o Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, autoridade máxima do país. Ele concentra o maior poder político e religioso, com influência direta sobre as Forças Armadas, os serviços de segurança, o sistema judiciário e os principais órgãos de comunicação pública. Além disso, o Líder Supremo também tem papel decisivo na definição das diretrizes de política externa e em temas estratégicos, como o programa nuclear.
Paralelamente, existe um presidente da República, eleito por voto popular em eleições periódicas. No entanto, os candidatos à presidência precisam ter aprovação prévia por órgãos ligados à liderança religiosa, o que limita o espectro de concorrentes. Além disso, o sistema restringe os poderes do presidente. Afinal, decisões centrais podem ser revisadas ou barradas por instituições controladas pelo Líder Supremo. E também por conselhos compostos majoritariamente por clérigos e juristas alinhados à cúpula religiosa.
Outro ponto relevante da estrutura política iraniana é a existência de órgãos como o Conselho dos Guardiões e a Assembleia dos Especialistas. O primeiro revisa leis aprovadas pelo Parlamento e analisa candidaturas a cargos importantes, garantindo que estejam de acordo com a Constituição e com a interpretação oficial do islamismo. A segunda é responsável, entre outras funções, por eleger e, em tese, poder destituir o Líder Supremo. Essa combinação faz com que, mesmo em uma república com eleições, o centro do poder permaneça concentrado em instâncias religiosas e em figuras não diretamente escolhidas pela maioria da população.
Por que o sistema político do Irã é alvo de críticas e protestos?
O formato de república islâmica no Irã é frequentemente apontado por manifestantes e por organizações de direitos humanos como um dos principais fatores de tensão interna. De um lado, o governo afirma que o modelo garante identidade religiosa, estabilidade e resistência a pressões externas. De outro, parte da sociedade argumenta que essa estrutura restringe a pluralidade política e limita a participação de grupos reformistas, liberais e minorias étnicas ou religiosas.
Entre as críticas mais recorrentes estão:
- Controle rígido de candidaturas, o que reduz a diversidade política nas eleições.
- Fiscalização severa de comportamentos no espaço público, com base em normas religiosas oficiais.
- Atuação forte de forças de segurança durante protestos, com relatos de repressão e prisões.
- Restrições à imprensa e à internet, sobretudo em momentos de maior mobilização social.
Analistas apontam que, sempre que questões econômicas se agravam – como aumento do custo de vida, queda no valor da moeda local e dificuldades de acesso a empregos formais –, a insatisfação com esse modelo de poder tende a se tornar mais visível nas ruas. As manifestações atuais seguem esse padrão: combinam pautas de caráter econômico, demandas por maior liberdade social e questionamentos à concentração de poder nas mãos do Líder Supremo e de órgãos por ele influenciados.
Quais são os principais fatores que alimentam a crise atual?
Além dos aspectos políticos e sociais, a situação do Irã está diretamente ligada ao contexto internacional. As sanções impostas por países ocidentais, especialmente ligadas ao programa nuclear iraniano, impactam a entrada de investimentos estrangeiros, o comércio e o setor energético. Essa pressão externa repercute na economia doméstica, contribuindo para inflação persistente, instabilidade da moeda e queda no poder de compra de amplas camadas da população.
Dentro do país, destacam-se ainda outros elementos que ajudam a entender o cenário:
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
- Desigualdade regional: algumas províncias sofrem mais com desemprego e falta de infraestrutura.
- Perfil jovem da população: muitos iranianos em idade produtiva relatam dificuldades para planejar o futuro, migrar ou empreender.
- Pressão sobre grupos organizados: sindicatos independentes, movimentos estudantis e coletivos de mulheres enfrentam limitações legais e risco de detenção.
- Controle da informação: períodos de bloqueio parcial de redes sociais e aplicativos de mensagem dificultam a organização dos protestos, mas também ampliam a percepção de restrição de liberdades.
Nesse contexto, o Irã vive um momento de forte cobrança por respostas das autoridades. Enquanto o governo procura conter as manifestações e reforçar a narrativa de estabilidade, parcelas da população seguem nas ruas, reivindicando mudanças em diferentes níveis – da política econômica ao papel do Líder Supremo, passando pela relação entre Estado, religião e direitos individuais em uma república islâmica que permanece em constante debate interno.