Muriqui-do-sul: o primata gigante da Mata Atlântica à beira da extinção
Muriqui-do-sul é o nome do maior primata das Américas, um macaco que já ocupou grandes áreas da Mata Atlântica. Hoje, porém, ele sobrevive em poucos fragmentos de floresta. A redução drástica de sua população levanta uma pergunta que pesquisadores e moradores de regiões de mata repetem há décadas: por que um animal antes abundante se […]
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Muriqui-do-sul é o nome do maior primata das Américas, um macaco que já ocupou grandes áreas da Mata Atlântica. Hoje, porém, ele sobrevive em poucos fragmentos de floresta. A redução drástica de sua população levanta uma pergunta que pesquisadores e moradores de regiões de mata repetem há décadas: por que um animal antes abundante se tornou um dos primatas mais ameaçados do planeta? A resposta envolve, sobretudo, perda de habitat, caça histórica, baixa taxa reprodutiva e isolamento dos últimos grupos. Além disso, fatores recentes como mudanças climáticas e expansão de infraestrutura agravam ainda mais esse cenário.
Ao longo de grande parte do século XX, o muriqui-do-sul deixou de ser presença comum em grandes trechos de floresta e se tornou uma espécie rara, localizada em áreas muito restritas. Esse processo não ocorreu de forma repentina; ao contrário, resultou de uma combinação de pressão humana contínua, mudanças na paisagem e falta de proteção efetiva em períodos críticos. Como consequência direta, populações inteiras desapareceram sem que houvesse tempo para reação. Hoje, as listas nacionais e internacionais classificam a espécie em situação crítica e diversos programas específicos de conservação tentam, portanto, reverter esse cenário.
Muriqui-do-sul: o primata gigante da Mata Atlântica à beira da extinção
O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) é um primata típico da Mata Atlântica, com características que o tornam especialmente vulnerável. Trata-se de um animal de grande porte que depende de áreas florestais contínuas e de dossel bem desenvolvido para se deslocar com segurança. Além disso, sua alimentação se baseia principalmente em folhas, frutos e flores, o que exige diversidade de árvores nativas ao longo do ano e uma floresta funcional em todas as estações.
Essas características ligam diretamente a sobrevivência do muriqui à integridade da floresta. Quando a cobertura vegetal se fragmenta, o primata perde acesso a recursos alimentares, rotas de deslocamento e locais adequados de descanso e reprodução. Desse modo, mesmo pequenas clareiras podem interromper o fluxo entre grupos. Além disso, o muriqui-do-sul apresenta reprodução lenta, com intervalos longos entre os nascimentos. Esse padrão dificulta a recuperação populacional após perdas significativas e torna qualquer impacto ainda mais grave. Por consequência, um único evento de desmatamento intensivo pode demorar décadas para ser compensado, mesmo sob condições ideais de proteção.
Por que o muriqui-do-sul quase desapareceu da Mata Atlântica?
A principal razão para o declínio do muriqui-do-sul envolve o desmatamento da Mata Atlântica. Desde o período colonial, a floresta cedeu lugar a lavouras, pastagens, cidades, estradas e áreas industriais. Assim, antigas paisagens contínuas foram sendo transformadas em mosaicos de pequenos fragmentos. Estimativas indicam que, em 2025, apenas uma pequena fração da cobertura original permanece, geralmente em fragmentos isolados. Como o muriqui precisa de grandes áreas contínuas para formar grupos estáveis, essa redução de habitat impactou diretamente suas populações.
Além da perda de florestas, a caça histórica também acelerou o desaparecimento do primata gigante em muitas regiões. Em décadas passadas, caçadores abatiam o muriqui-do-sul para consumo de carne, por conflito com lavouras ou simplesmente por prática de caça esportiva. Em áreas onde a floresta já se encontrava reduzida, a caça, por sua vez, intensificou a extinção local da espécie. Outros fatores, como doenças transmitidas por animais domésticos e perturbações constantes pela presença humana, agravaram esse quadro. Ademais, incêndios florestais, ainda que pontuais, podem eliminar em poucos dias o que levou séculos para se formar. Consequentemente, muitas populações locais desapareceram por completo.
- Redução drástica da Mata Atlântica e fragmentação da paisagem.
- Caça histórica e pressão de subsistência em comunidades rurais.
- Baixa taxa de natalidade e longo intervalo entre crias.
- Isolamento dos grupos remanescentes, com pouca troca genética.
Quais características tornam o muriqui-do-sul tão vulnerável?
O comportamento social do muriqui-do-sul ajuda a entender sua situação atual. A espécie vive em grupos relativamente grandes e realiza deslocamentos diários em busca de alimento. Para isso, depende de uma “ponte” contínua de copas de árvores, algo raro em paisagens muito fragmentadas. Assim, quando rodovias, pastos ou áreas urbanas separam a floresta, os grupos ficam confinados, expostos a riscos maiores e com menor disponibilidade de recursos.
Do ponto de vista biológico, o muriqui apresenta reprodução lenta. As fêmeas costumam ter o primeiro filhote tardiamente, e os intervalos entre gestações podem chegar a vários anos. Em situações de perda de indivíduos pela caça, atropelamentos ou queda de árvores, a população não consegue repor os animais na mesma velocidade. Portanto, mesmo após a proteção legal, a recuperação das populações avança de forma muito lenta. Por outro lado, quando há proteção efetiva e habitat adequado, alguns grupos demonstram aumento gradual, o que reforça a importância da conservação a longo prazo. Pesquisadores observam que alguns grupos levam décadas para aumentar de forma significativa.
- Dependência de grandes áreas: grupos precisam de extensos trechos de floresta para se alimentar.
- Deslocamento pelo dossel: a espécie evita o solo, o que aumenta a sensibilidade à fragmentação.
- Longevidade e baixa fecundidade: poucas crias ao longo da vida de cada fêmea.
- Sensibilidade a distúrbios: ruídos, desmatamento seletivo e presença intensa de humanos alteram o comportamento.
O que está sendo feito para evitar a extinção do muriqui-do-sul?
Nos últimos anos, organizações ambientais, pesquisadores e órgãos públicos desenvolveram ações específicas para o muriqui-do-sul. Entre as iniciativas, destacam-se a criação e ampliação de unidades de conservação, projetos de reflorestamento voltados para conectar fragmentos e monitoramento constante dos grupos remanescentes. Paralelamente, planos de ação nacionais para a espécie definem metas de médio e longo prazo. Além disso, estudos genéticos ajudam a entender o grau de parentesco entre populações e orientam estratégias de manejo em médio e longo prazo.
Outra frente importante envolve o trabalho com comunidades que vivem no entorno das florestas. Programas de educação ambiental, alternativas de renda e incentivo ao turismo de observação de fauna buscam reduzir a pressão sobre os habitats do primata. Esses programas também valorizam a presença do muriqui como parte do patrimônio natural. Em alguns locais, o animal se tornou símbolo de campanhas para recuperação de corredores florestais, o que reforça a ideia de que a proteção do muriqui-do-sul depende da própria saúde da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, parcerias com escolas, associações rurais e gestores públicos ampliam o alcance dessas iniciativas.
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Mesmo com avanços importantes, especialistas apontam que o futuro da espécie ainda depende de medidas de longo prazo, como o controle do desmatamento residual e a restauração de áreas degradadas. Além disso, a manutenção de políticas públicas consistentes e de financiamento contínuo define o sucesso dos programas de conservação. Por fim, o acompanhamento científico de longo prazo permite ajustar estratégias sempre que necessário, aumentando as chances de sobrevivência da espécie. Assim, o caso do muriqui-do-sul mostra como um animal antes considerado comum pode se aproximar da extinção quando o ambiente passa por alterações constantes ao longo de décadas. Mostra também como a conservação de um único primata se conecta diretamente à preservação de todo um bioma.