Em uma colônia da Flórida, formigas-carpinteiras conseguem fazer algo raro no mundo animal: amputar a pata ferida de uma companheira. Nos testes, o procedimento elevou a sobrevivência em lesões no fêmur para cerca de 90% a 95%, enquanto ferimentos mais baixos receberam outro tipo de cuidado na colônia.
Por que essas formigas-carpinteiras tratam uma pata ferida de duas maneiras?
A espécie Camponotus floridanus vive em colônias onde trabalhadoras feridas recebem atenção de outras operárias. O comportamento muda conforme a posição do corte, o que indica que a resposta não é simplesmente morder qualquer membro machucado.
Quando a lesão experimental atingia o fêmur, a região mais próxima do corpo, as companheiras primeiro limpavam a área e depois cortavam a pata na base. Quando o ferimento estava na tíbia, mais distante do corpo, elas prolongavam a limpeza e não amputavam.

O que os testes mostraram sobre a sobrevivência após a amputação?
O estudo Wound-dependent leg amputations to combat infections in an ant society, publicado em 2024 na Current Biology, confirmou que amputações após lesões no fêmur aumentaram de forma significativa a sobrevivência em comparação com indivíduos sem o procedimento.
Nos experimentos com ferimentos infectados, o tratamento no fêmur levou a uma sobrevivência de cerca de 90% a 95%. Sem atendimento, o índice ficou abaixo de 40%. A diferença mostra por que retirar a pata pode ser vantajoso, mesmo sendo um procedimento demorado e irreversível.
Por que uma lesão mais baixa recebe apenas limpeza?
A explicação está na anatomia da perna. Exames mostraram que o fêmur concentra músculos ligados à circulação da hemolinfa, o fluido que exerce funções semelhantes às do sangue nos insetos. Uma lesão nessa região pode reduzir o fluxo e retardar a dispersão de microrganismos.
Essa diferença muda o tempo disponível para agir. Os principais resultados foram:
- Ferimento no fêmur: limpeza seguida de amputação da pata.
- Ferimento na tíbia: limpeza prolongada, sem corte do membro.
- Amputação demorada: o processo pode levar pelo menos 40 minutos.
- Resposta seletiva: o tratamento varia conforme a posição da lesão.

Como as próprias formigas executam uma amputação?
As operárias começam usando as peças bucais para limpar o ferimento. Depois avançam pela pata até a base e mordem repetidamente a região de ligação com o corpo. A companheira ferida permanece relativamente imóvel enquanto o membro é separado e o local volta a receber cuidados.
O acompanhamento de uma equipe de pesquisa também registrou que, em lesões de fêmur, a sobrevivência chegou a 90% ou 95%. Já a limpeza de feridas na tíbia elevou a sobrevivência para cerca de 75% nos testes.
O que esse comportamento revela sobre a vida dentro da colônia?
A amputação mostra que o cuidado coletivo pode chegar a um nível de especialização comportamental muito maior do que uma simples limpeza. A colônia responde ao tipo de ferimento, investe tempo no tratamento e preserva operárias que depois podem voltar às atividades mesmo com cinco patas.
O mais marcante é a combinação entre diagnóstico e ação: nem toda lesão recebe o mesmo procedimento. A localização do corte altera o risco e a utilidade da amputação, e as formigas ajustam o cuidado de modo compatível com essa diferença anatômica.
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