No início de 2026, uma obra de manutenção em um templo budista na Tailândia revelou, por acaso, um contexto arqueológico muito mais antigo do que o previsto. Durante a correção de um sistema de drenagem no complexo do Wat Thammachak Sema Ram, trabalhadores encontraram um recipiente de cerâmica enterrado a mais de um metro de profundidade, ao lado de uma grande estátua de Buda reclinado. Dentro do vaso havia pequenos objetos metálicos datados em cerca de 1.300 anos, associados à tradição Dvaravati, o que rapidamente transformou o local em foco de interesse para pesquisadores.
O que torna especial a descoberta sob a estátua de Buda reclinado
A informação foi divulgada em 20 de julho de 2026 e publicada por Melissa Ait Lounis, destacando o impacto do achado no estudo da arte e da religiosidade antiga da Tailândia. O sítio de Phra Non abriga uma escultura de Buda reclinado em arenito com cerca de 13 metros de comprimento, considerada por pesquisadores a mais longa e uma das mais antigas do tipo no país, provavelmente criada por volta de 657 d.C.
O fato de um conjunto de artefatos tão antigo estar oculto sob um monumento desse porte reforçou o interesse arqueológico no local. A sobreposição entre a grande imagem em arenito e os depósitos enterrados sugere que o espaço foi pensado ao longo dos séculos como um centro de grande relevância religiosa e simbólica.

Quais tesouros em ouro, prata e bronze foram encontrados no Wat Thammachak Sema Ram
O recipiente encontrado fazia parte de um depósito cuidadosamente protegido pelo solo, contendo 33 artefatos de ouro, prata e bronze, segundo o Departamento de Belas Artes da Tailândia. Entre esses itens estavam anéis de ouro, brincos de prata e brincos de argola de bronze com formato pouco comum, semelhantes a peças associadas ao período Dvaravati em outras regiões do país.
Depois do primeiro achado, a equipe ampliou a área de escavação ao redor da estátua de Buda reclinado e identificou outros grupos de objetos enterrados próximos. Essa repetição de concentrações de artefatos indicou práticas estruturadas de deposição, interpretadas como possíveis oferendas rituais ligadas à importância devocional do monumento.
Como os artefatos ajudam a compreender o período Dvaravati
Entre os objetos mais detalhados está uma pequena placa de ouro retangular, com cerca de 7,5 cm por 12,5 cm, produzida com a técnica de repoussé. Nela, Buda aparece sentado em postura de ensinamento, com cachos em espiral, ampla auréola, lóbulos alongados e túnica cobrindo apenas um ombro, além de um furo que sugere uso como acessório ritual ou elemento de exibição.
Outro destaque é uma chapa metálica em liga de chumbo e estanho, com cerca de 11,5 cm por 15 cm, representando Buda em pé dentro de uma moldura arqueada, ladeado por duas figuras auxiliares. Uma delas pode ser uma forma local do deus hindu Brahma, ilustrando o diálogo entre budismo e tradições hindus na arte religiosa do antigo reino Dvaravati.

Que evidências indicam o uso ritual das chapas metálicas encontradas
Os arqueólogos identificaram ainda um terceiro grupo de peças: chapas metálicas empilhadas, separadas por camadas de argila compactada misturada com um tipo de cimento antigo. Encontradas atrás da cabeça da estátua de Buda reclinado, elas foram interpretadas como possíveis oferendas rituais colocadas de forma intencional em uma área de alta reverência na escultura.
Esses achados permitem observar a variedade de técnicas usadas por artesãos do período Dvaravati, bem como a diversidade de funções dos objetos. Para entender melhor esse contexto, as equipes de conservação e pesquisa seguem etapas coordenadas no estudo do material:
- registro fotográfico e catalogação individual de cada artefato;
- análises laboratoriais das ligas de ouro, prata, bronze, chumbo e estanho;
- avaliação do estado de conservação e tratamentos anticorrosão;
- comparação com outros achados Dvaravati em território tailandês.
Como a descoberta em Phra Non redefine o passado religioso da Tailândia
Logo após a descoberta no Wat Thammachak Sema Ram, os artefatos foram enviados ao Museu Nacional de Phimai, onde passam por limpeza controlada, estabilização e documentação detalhada. As investigações em 2026 ainda estão em curso, mas já revelam novas pistas sobre práticas de oferenda, circulação de símbolos budistas e relações entre budismo e hinduísmo na região.
Esse tesouro de 1.300 anos abre uma janela rara para o passado, conectando a devoção de antigos artesãos e fiéis às pesquisas atuais sobre a história religiosa tailandesa. Acompanhar e apoiar projetos de preservação como esse é urgente: cada nova análise pode ser a última chance de recuperar informações cruciais antes que o tempo ou a degradação façam desaparecer detalhes que jamais voltarão à luz.




