Vinte e quatro marcas preservadas em rochas da Austrália estão mudando a forma como os cientistas enxergam os dinossauros do Cretáceo. As pegadas, datadas de cerca de 120 a 128 milhões de anos, indicam que grandes predadores e pequenos herbívoros circularam por uma antiga região polar, num tempo em que Austrália e Antártica ainda estavam conectadas.
As pegadas revelam um mundo polar cheio de vida
A descoberta ocorreu na Formação Wonthaggi, em Victoria, um dos registros fósseis mais importantes do Hemisfério Sul. O achado foi descrito em estudo publicado no periódico científico Alcheringa e divulgado pelo Museums Victoria, com participação de pesquisadores da Universidade Emory e da Universidade Monash.
Segundo a equipe liderada pelo paleontólogo Anthony J. Martin, as pegadas mostram que os dinossauros não apenas passaram por aquela paisagem, mas usaram o ambiente polar de forma recorrente. A região tinha rios, planícies alagadas e longos períodos de frio e escuridão durante o inverno.

Que dinossauros deixaram essas marcas?
Das 24 pegadas fossilizadas, a maior parte foi atribuída a terópodes, grupo de dinossauros carnívoros bípedes, com dedos finos e garras afiadas. Algumas marcas medem de 18 a 47 centímetros, sugerindo a presença de animais de tamanhos diferentes, incluindo jovens e adultos.
O estudo também identificou pegadas de ornitópodes, pequenos herbívoros que podem ter servido de presa para predadores maiores. Essa combinação reforça a ideia de que o antigo ambiente polar tinha uma cadeia alimentar ativa, com espécies ocupando diferentes papéis ecológicos.
O que torna essa descoberta tão importante?
As pegadas são valiosas porque registram comportamento, movimento e presença em vida, algo que ossos isolados nem sempre conseguem provar. Elas ajudam os cientistas a reconstruir como esses animais caminhavam, onde circulavam e quais áreas do antigo território utilizavam:
- 18 pegadas foram associadas a terópodes carnívoros.
- 4 pegadas foram atribuídas a ornitópodes herbívoros.
- 2 marcas ainda têm origem incerta.
- As pegadas indicam atividade durante verões polares.
- Os tamanhos variados sugerem presença de juvenis e adultos.
Para os pesquisadores, esse conjunto é uma das evidências mais claras de que dinossauros viveram em ambientes polares do antigo Gondwana. As marcas preservadas em planícies aluviais sugerem deslocamentos após enchentes sazonais, possivelmente depois do degelo da primavera.

Dinossauros criavam filhotes em regiões congeladas?
A presença de pegadas pequenas e grandes no mesmo contexto levanta uma hipótese fascinante: alguns desses animais podem ter feito ninhos ou criado filhotes na região. Anthony Martin destacou que os rastros juvenis tornam essa possibilidade mais forte, embora ainda não provem o comportamento de forma definitiva.
Mesmo assim, a descoberta muda a imagem popular de dinossauros vivendo apenas em florestas quentes. No Cretáceo, a temperatura média global era mais alta que a atual, mas esses ecossistemas polares ainda enfrentavam invernos rigorosos, congelamento e meses com pouca ou nenhuma luz.
A descoberta amplia a história dos dinossauros polares
O trabalho faz parte do projeto Dinosaur Dreaming, conduzido desde a década de 1970 por Thomas Rich e Patricia Vickers-Rich. A caçadora voluntária de fósseis Melissa Lowery teve papel essencial na identificação das marcas, reconhecendo padrões que poderiam passar despercebidos nas rochas costeiras.
Cada nova pegada aproxima a ciência de uma cena perdida há mais de 120 milhões de anos. Aja como quem vê o passado ganhar chão: acompanhe essas descobertas, valorize a pesquisa científica e lembre que até uma marca na pedra pode reescrever a história da vida na Terra.

