Mathias Refstrup assumiu a gestão de uma loja na Dinamarca e largou o cargo menos de dois meses depois. A frase que resumiu a decisão, publicada pelo jornal dinamarquês Fyens Stiftstidende, foi direta: “Não consigo me ver nisso.” O caso individual reflete um fenômeno que os dados de 2026 tornaram impossível de ignorar: gestores de varejo estão queimando mais rápido do que qualquer outra categoria profissional, e a taxa de desistência nos primeiros meses de uma nova função atingiu níveis que preocupam especialistas em saúde ocupacional no mundo inteiro.
Por que gerentes queimam mais do que suas próprias equipes
A lógica parece invertida, mas os dados são consistentes. Gestores são 36% mais propensos a reportar burnout do que funcionários sem cargo de liderança, e 24% mais propensos a considerar demissão nos seis meses seguintes, segundo levantamento compilado pelo High5 Test com base em pesquisas de 2024 e 2025. O fenômeno é especialmente crítico entre gerentes intermediários: 71% relatam burnout, índice superior ao de funcionários júnior e ao de executivos seniores.
A posição de “sanduíche” explica parte do problema. O gerente recebe pressão de cima, com metas e demandas corporativas, e de baixo, com as necessidades da equipe, sem ter autonomia suficiente para resolver nenhum dos dois lados de forma satisfatória. No varejo, essa tensão é ainda mais aguda: o contato direto com clientes, a imprevisibilidade dos turnos e a responsabilidade sobre pessoas com alta rotatividade criam uma carga que poucos candidatos conseguem dimensionar antes de assumir o cargo.

O varejo tem os índices mais altos de esgotamento entre setores de trabalho presencial
A Organização Mundial da Saúde aponta que trabalhadores em funções de linha de frente, incluindo varejo, logística e hospitalidade, enfrentam riscos elevados de estresse, burnout e ansiedade em comparação com trabalhadores em ambientes de escritório, segundo dados compilados pelo Meditopia for Work. No Reino Unido, uma pesquisa da Legion Technologies com mais de 1.000 trabalhadores de varejo revelou que 52% dos gerentes sentem que não têm tempo para treinar e desenvolver suas equipes, enquanto 27% afirmam não ter sido adequadamente preparados para o cargo. A combinação de responsabilidade alta com suporte baixo é o cenário mais propício ao burnout rápido.
Quais sinais indicam que um gestor está próximo do limite
O burnout em gestores raramente aparece de forma abrupta. Ele se constrói em semanas ou meses, com sinais que muitas vezes são confundidos com dificuldade de adaptação ao cargo. Os principais indicadores documentados pela pesquisa são:
- Desconexão emocional progressiva do trabalho e da equipe, descrita por 52% dos trabalhadores em alto estresse como sensação de distanciamento dos colegas
- Dificuldade crescente de tomar decisões rotineiras, sinal de sobrecarga cognitiva acumulada
- Irritabilidade fora do padrão habitual em situações de baixa complexidade
- Sensação persistente de que o esforço nunca é suficiente, independentemente dos resultados entregues
- Insônia ou sono não reparador, que amplifica todos os outros sintomas e reduz a capacidade de regulação emocional
O que as empresas fazem de errado ao promover novos gestores
A pesquisa de 2026 aponta um padrão recorrente nas demissões precoces de gestores: a preparação para o cargo é insuficiente ou inexistente. Funcionários são promovidos com base em desempenho técnico, mas sem treinamento em gestão de pessoas, resolução de conflitos ou regulação emocional sob pressão. Segundo dados do HR Stacks, apenas 38% dos trabalhadores afirmam que seu gestor ajuda a criar um ambiente de baixo estresse, mas quem trabalha com gestores de suporte ativo tem 70% menos probabilidade de desenvolver burnout. O paradoxo é evidente: quem mais precisaria de suporte é justamente quem menos recebe.

O que o caso dinamarquês ensina sobre decisões que parecem fracasso mas são saúde
Mathias Refstrup pode ter tomado a decisão mais difícil e também a mais inteligente disponível para ele: reconhecer o desalinhamento antes do colapso, e não depois. Em 2026, com burnout afetando mais de 55% dos trabalhadores em tempo integral segundo a consultoria Eagle Hill, sair a tempo deixou de ser fraqueza para se tornar uma forma de preservação que os dados da saúde mental amparam com clareza.
Se você está há poucos meses num cargo de gestão e sente que não consegue se ver nele, o que o caso dinamarquês ensina é que reconhecer esse sentimento cedo é muito diferente de falhar. A diferença entre um pedido de demissão e um afastamento médico costuma ser apenas o tempo que se leva para tomar a decisão.




