A regra de “nada pela boca” antes de uma cirurgia estava em vigor por décadas, mas os dados científicos acumulados mudaram esse consenso. Em maio de 2026, a Australian Commission on Safety and Quality in Healthcare publicou uma diretriz nacional chamada Sip Til Send — literalmente “beba até ser chamado” — que permite aos pacientes ingerir pequenas quantidades de líquidos claros até o momento em que são convocados para a sala cirúrgica. A mudança tem respaldo em evidências e deve influenciar protocolos cirúrgicos ao redor do mundo, incluindo o Brasil.
O que é o protocolo Sip Til Send e o que ele autoriza?
O Sip Til Send é uma diretriz oficial da Australian Commission on Safety and Quality in Healthcare que substitui o jejum hídrico prolongado por um protocolo de ingestão controlada de líquidos claros. Adultos podem consumir até 200 ml por hora — o equivalente a um copo padrão de enfermaria — de líquidos não turvos até serem chamados ao centro cirúrgico. Crianças com até 16 anos e até 65 kg têm limite proporcional: até 3 ml por quilo de peso por hora.
O professor anestesiologista David Scott, consultado pelo portal médico AusDoc, confirmou que a diretriz estabelece o protocolo como a abordagem clinicamente aceita, formalizado para o sistema de saúde australiano após revisão sistemática da literatura e consulta com especialistas. Alguns hospitais já adotavam a prática, mas a publicação nacional oficializa e padroniza o protocolo em todo o país.

Por que o jejum hídrico prolongado era considerado obrigatório e o que mudou?
A restrição hídrica pré-operatória foi estabelecida para reduzir o risco de aspiração pulmonar — a entrada acidental de conteúdo gástrico nos pulmões durante a anestesia. O problema é que auditorias clínicas repetidas, compiladas pelo portal Agency for Clinical Innovation (NSW), mostraram que pacientes ficavam em jejum hídrico muito além das duas horas recomendadas pelas diretrizes vigentes. O resultado era desconforto, sede intensa, cefaleia, náusea e necessidade de soro intravenoso desnecessário.
A evidência acumulada em estudos publicados no JAMA Surgery (2023) e revisados pela Cochrane mostrou que não há aumento documentado do risco de aspiração com a prática do Sip Til Send em comparação ao jejum de duas horas. Em outras palavras: o benefício da hidratação é real, e o risco adicional é inexistente quando o protocolo é seguido corretamente.
Quem não pode usar o protocolo Sip Til Send?
A diretriz é clara sobre as exceções. O protocolo não se aplica a todos os pacientes indiscriminadamente, e os casos excluídos são bem definidos. Estão fora da indicação:
- Pacientes com indicação de “nada pela boca” por razão médica ou cirúrgica específica: condições que aumentam o risco de aspiração independentemente do volume ingerido
- Usuários de agonistas do receptor GLP-1: medicamentos como semaglutida e liraglutida — usados para diabetes e obesidade — retardam o esvaziamento gástrico e contraindicam o protocolo
- Pacientes que necessitam de líquidos de textura modificada: engrossantes e líquidos modificados não são considerados líquidos claros para fins do protocolo
- Crianças abaixo de determinado peso: o cálculo de 3 ml/kg/hora se aplica a crianças com até 65 kg — pacientes fora dessa faixa seguem avaliação individualizada pelo anestesista

Quais líquidos são permitidos e quais estão proibidos pelo protocolo?
O protocolo autoriza apenas líquidos claros e não turvos: água, chá claro sem leite, café preto sem leite, sucos coados sem polpa e bebidas isotônicas transparentes. Qualquer líquido que contenha partículas em suspensão, gordura ou proteína está fora da lista. Isso exclui leite, iogurte líquido, sucos com polpa, bebidas alcoólicas e qualquer preparação enteral. Segundo o Safer Care Victoria, o princípio básico é que líquidos claros se esvaziam do estômago muito mais rapidamente do que sólidos ou líquidos opacos, o que fundamenta a segurança do protocolo.
O Sip Til Send já é adotado no Reino Unido pelo NHS e em hospitais da Nova Zelândia, Irlanda e Suécia com resultados positivos documentados. O anestesiologista não precisa mais prescrever soro de rotina apenas para compensar o jejum hídrico prolongado, o que também reduz custos hospitalares e tempo de internação. A tendência é que outros países, incluindo o Brasil, revisem seus protocolos pré-operatórios à luz dessas evidências.
Essa mudança chegará aos hospitais brasileiros em breve?
As diretrizes da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) ainda recomendam o jejum hídrico de duas horas como padrão mínimo, mas o debate internacional sobre flexibilizar esse protocolo já chegou aos congressos e publicações médicas do país. A diretriz australiana, por vir de um órgão de segurança e qualidade de reconhecimento global, tende a acelerar esse processo de revisão.
Se você vai passar por uma cirurgia e tem dúvidas sobre o jejum, converse com seu anestesiologista antes do procedimento — não interrompa nem altere as orientações médicas recebidas sem orientação profissional. Compartilhe este conteúdo com quem tem cirurgia marcada e está confuso sobre o que pode ou não pode beber nas horas anteriores ao procedimento.




