Destaques
Em vigor desde 1º de março de 2026
Convenção Coletiva 2025–2027 entre Fecomércio-ES e Sindicato dos Comerciários, com cláusula dominical válida até 31 de outubro de 2026.
70 mil trabalhadores impactados
Cerca de 1.500 lojas nos 78 municípios capixabas seguem o novo modelo de funcionamento.
Mercadinhos e farmácias abertos
Estabelecimentos que funcionam sem mão de obra contratada para o domingo seguem operando normalmente.
Se você mora no Espírito Santo ou conhece alguém por lá, já sabe: chegar ao supermercado no domingo para aquela compra de última hora pode ser uma surpresa desagradável. Desde 1º de março de 2026, o fechamento dos supermercados aos domingos reorganizou a rotina de compras e de trabalho de muita gente, e o modelo capixaba virou referência nacional em um debate que está longe de terminar.
O domingo que mudou o varejo alimentar capixaba
Tudo começou com a Convenção Coletiva de Trabalho 2025–2027, firmada entre a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES) e o Sindicato dos Comerciários. A cláusula que trata do trabalho dominical entrou em vigor em 1º de março de 2026 e tem validade inicial até 31 de outubro de 2026, quando as partes vão reavaliar os impactos. A partir dela, ficaram proibidos de abrir aos domingos os supermercados, hipermercados, atacarejos, mercearias, minimercados, hortifrutigranjeiros e lojas de material de construção que dependem de empregados contratados, incluindo as unidades instaladas em shoppings dentro do segmento alimentício. O tradicional regime 6×1, em que funcionários folgavam em dias rotativos, foi ajustado para garantir o descanso fixo justamente no fim de semana.
Houve uma exceção planejada para o início da vigência: durante o verão 2025/2026, os supermercados continuaram autorizados a abrir aos domingos, conforme previsto no próprio acordo, e a regra só passou a valer em março. A convenção também permite atividades internas pontuais, como inventários, balanços e reorganizações, em até quatro domingos por ano, além de serviços essenciais como manutenção predial e vigilância patrimonial.
Para garantir o cumprimento, a CCT prevê multa equivalente a um salário do empregado para cada domingo trabalhado de forma irregular, com 70% destinados ao trabalhador e 30% ao sindicato, além do pagamento das horas extras com adicional de 150%.
O modelo não é inédito no estado: entre 2009 e 2018, um acordo semelhante já manteve os supermercados capixabas fechados aos domingos. A regra só foi interrompida quando o governo federal classificou o setor supermercadista como atividade essencial. Agora, em um contexto de baixíssimo desemprego — em 2025, o Espírito Santo registrou taxa de desocupação de 3,3%, a menor da série histórica da Pnad Contínua, segundo o IBGE —, e diante da dificuldade de contratação no setor, o fechamento dominical voltou ao mapa.
Na prática, quem antes descansava numa segunda ou numa quarta passou a trabalhar nesses dias e a folgar no domingo. Para as empresas, o desafio virou outro: como distribuir equipes e atender bem nos dias em que a demanda cresceu de forma concentrada?

O sábado virou o novo domingo das compras
Com as portas fechadas no domingo, o movimento que antes se espalhava por três dias, sábado, domingo e segunda, se concentrou principalmente no sábado e na segunda-feira. O sábado ganhou um fluxo intenso de consumidores fazendo estoque para o fim de semana, enquanto as segundas amanhecem cheias de gente repondo o que faltou. Os números do próprio setor ajudam a entender por que a mudança não derrubou o faturamento: em 2025, segundo a Secretaria de Estado da Fazenda, os supermercados capixabas faturavam em média R$ 102 milhões aos sábados, contra apenas R$ 25,9 milhões aos domingos, o menor volume da semana.
As redes do varejo capixaba reorganizaram suas operações de formas distintas. O Grupo Coutinho, dono das bandeiras Extrabom, Extraplus e AtacadoVem, passou a abrir uma hora mais cedo (às 7 horas) ou fechar mais tarde (até 21h30 ou 22h) nas sextas e sábados, em parte de suas mais de 50 unidades. Os Supermercados BH, com mais de 40 lojas no estado, também antecipou aberturas e estendeu fechamentos no fim de semana. Já o Grupo Carone (Carone e Sempre Tem) e a rede Assaí optaram por manter os horários tradicionais, e o Grupo Carrefour Brasil (Atacadão, Carrefour e Sam’s Club) informou que continuaria operando normalmente nos demais dias da semana.
Independentemente da estratégia de horário, redes como o Extrabom passaram a usar indicadores de fluxo e ticket médio por dia e horário para evitar filas e rupturas nos momentos críticos. Ferramentas digitais de gestão de estoque e sistemas de previsão de demanda ganharam peso real na operação diária.
Quatro estratégias que as redes adotaram para não perder vendas
A reorganização não foi improvisada. Com dados de comportamento do cliente em mãos, mapas de calor e indicadores de giro de produtos, as redes desenvolveram estratégias específicas para equilibrar equipes e atendimento no novo cenário. Confira as principais ações adotadas:
- Escala 6×1 com domingos fixos: folgas foram redistribuídas para horários de menor movimento durante a semana, garantindo descanso sem prejudicar a operação nos picos.
- Reforço pesado nos sábados: mais repositores, empacotadores e caixas nos períodos de maior fluxo, especialmente em perecíveis e hortifruti.
- Segunda-feira no radar: foco ampliado na reposição de prateleiras após dois dias intensos de vendas, reduzindo rupturas de produtos.
- Contratações direcionadas: novos funcionários são recrutados para turnos específicos, reduzindo ociosidade e otimizando custos operacionais.
Pontos-chave
Quem está proibido de abrir
Supermercados, hipermercados, atacarejos, mercearias, minimercados, hortifrutis e lojas de material de construção que utilizam mão de obra contratada. A regra alcança lojas em shoppings do segmento alimentício.
Quem pode funcionar
Pequenos mercados de bairro tocados exclusivamente pelos proprietários, padarias, açougues, farmácias e restaurantes, além das demais lojas de shopping fora do segmento alimentício.
O impacto nas vendas
Em 2025, o domingo já era o pior dia de faturamento do setor (R$ 25,9 mi contra R$ 102 mi do sábado). O volume foi redistribuído para sexta à tarde, sábado e segunda-feira.
O que isso muda no bolso e na vida de quem trabalha no setor
Para os cerca de 70 mil trabalhadores do varejo alimentar capixaba, o descanso dominical fixo representa uma mudança concreta na qualidade de vida. Finais de semana mais previsíveis facilitam o convívio familiar, o acesso a atividades de lazer e até a frequência em atividades religiosas, algo valorizado por boa parte dos trabalhadores brasileiros. Ao mesmo tempo, a reorganização das escalas exige adaptação, já que os sábados passaram a ser dias mais puxados do que antes.
A convenção também trouxe avanços financeiros para a categoria: reajuste salarial de 7%, piso de R$ 1.650 e auxílio-alimentação mensal de R$ 150 para empresas com cinco ou mais funcionários, além de plano de saúde ambulatorial e plano odontológico fornecidos pelo empregador.
Para o consumidor, o ajuste exige um pouco mais de planejamento. A ida ao supermercado precisa acontecer antes do domingo, mas a oferta de mercadinhos de bairro, padarias e farmácias garante que itens de consumo imediato continuem acessíveis. O modelo estimula um hábito de compra menos impulsivo e mais organizado.

Um projeto piloto que outros estados estão de olho
Hoje o Espírito Santo é o único estado do país com uma convenção coletiva que suspende o funcionamento dos supermercados aos domingos, segundo a Associação Brasileira de Supermercados. O modelo capixaba funciona como um projeto piloto nacional, inspirado em práticas comuns em vários países europeus. Com a cláusula em vigor até outubro de 2026, sindicatos, associações comerciais e legisladores de outros estados acompanham de perto os resultados para decidir se vale a pena replicar a experiência. O debate envolve equilíbrio entre direitos dos trabalhadores, competitividade do varejo e conveniência para o consumidor, e o Espírito Santo está na linha de frente dessa discussão.
O varejo alimentar brasileiro está em transformação, e o domingo capixaba é mais do que uma folga garantida: é um sinal de que modelos diferentes de funcionamento são possíveis. Consumidores, trabalhadores e empresários têm muito a ganhar acompanhando esse debate de perto.
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