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Você atende o telefone, espera ouvir alguém conhecido e do outro lado só tem silêncio, uma gravação ou uma oferta que você não pediu. Esse roteiro se repete milhões de vezes por dia no Brasil, mas a Anatel vem tentando virar o jogo com uma série de medidas que as operadoras são obrigadas a seguir.
A cautelar que já bloqueou mais de mil empresas
Em maio de 2025, a Anatel prorrogou por mais um ano, até 31 de maio de 2026, a medida cautelar contra ligações abusivas. A regra determina que as operadoras bloqueiem a capacidade de originação de chamadas de qualquer empresa que dispare ao menos 100 mil ligações em um único dia, com 85% ou mais desse volume formado por chamadas de até seis segundos, o perfil típico do spam telefônico.
Desde que essa abordagem começou, em 2022, 1.116 empresas já foram bloqueadas por períodos de 15 dias. A Anatel também firmou termos de compromisso com 180 delas após pedidos de suspensão do bloqueio, enquanto 59 outros pedidos foram negados ou tiveram reincidência constatada. São números que mostram o tamanho do problema e o esforço regulatório para contê-lo.

O que as operadoras têm obrigação de fazer
Vivo, Claro, TIM e outras 26 operadoras que integram a lista atual da Anatel têm obrigação de enviar relatórios mensais à agência com dados de tráfego de chamadas e de grandes usuários. Quando uma empresa ultrapassa os limites estabelecidos, a operadora precisa bloquear sua capacidade de originar chamadas. O bloqueio, vale deixar claro, é temporário (de 15 dias), não definitivo.
Além dos bloqueios, multas pesadas fazem parte do arsenal. Até abril de 2025, a agência já havia aplicado R$ 24,7 milhões em multas contra empresas usuárias em 22 processos, e outros R$ 14,6 milhões contra operadoras que descumpriram as regras em oito processos separados. Para quem pensa que as consequências são apenas simbólicas, os números falam por si.
Três ferramentas que já existem para te proteger
Pouca gente sabe, mas há mecanismos concretos disponíveis para quem quer se defender das ligações indesejadas. Conhecê-los faz diferença no dia a dia:
- Prefixo 0303: a partir de 2022, todas as ligações de telemarketing ativo passaram a ser obrigadas a usar esse prefixo, facilitando a identificação antes mesmo de atender
- Não Me Perturbe: serviço oficial da Anatel que permite ao consumidor cadastrar seu número para não receber chamadas de telemarketing de setores específicos
- Reclamação formal: denúncias podem ser registradas diretamente no site da Anatel ou pelo número 1331, gerando histórico que alimenta os processos de fiscalização
Pontos-chave
As medidas atuais preveem suspensão temporária da capacidade de originar chamadas, não bloqueio permanente de contratos
Esse é o teto de multa previsto para empresas e operadoras que descumprirem as medidas cautelares contra chamadas abusivas
Estimativa da Anatel de ligações curtas abusivas que deixaram de acontecer desde o início das medidas cautelares em 2022
O que vai mudar na tela do seu celular em breve
A próxima grande mudança no combate ao telemarketing abusivo tem nome técnico: protocolo STIR/SHAKEN. Funciona como um passaporte digital para chamadas telefônicas. Quando uma empresa liga, o sistema valida a origem e envia essa assinatura para a operadora de quem está recebendo. Se os dados forem legítimos, o nome e até o motivo do contato podem aparecer na tela do celular. Se a chamada for falsa, o sistema detecta e pode bloqueá-la antes mesmo de tocar.
A Anatel já determinou a implantação progressiva desse protocolo pelas operadoras, com prazo se estendendo até 2026. Para o consumidor, o efeito prático é uma identificação muito mais clara de quem está ligando, reduzindo golpes que usam números clonados ou falsos. Para empresas de telemarketing que operam dentro da lei, a tecnologia também é positiva: suas ligações passam a ser reconhecidas como legítimas, aumentando a taxa de atendimento.

Uma batalha contínua, não uma solução definitiva
Especialistas do setor de telecomunicações apontam que as medidas atuais são reativas por natureza: a empresa abusa, é detectada, bloqueada por 15 dias e muitas vezes volta a operar. O ciclo se repete. A combinação entre bloqueios temporários, multas crescentes e, no futuro, a autenticação via STIR/SHAKEN forma uma abordagem mais completa, mas ainda em construção.
O caminho até um telefone que toca sem causar aquela desconfiança instintiva ainda é longo, mas a direção está traçada. Cada renovação de cautelar, cada multa aplicada e cada nova tecnologia adotada representa um passo real nessa direção.
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