No coração do Cariri paraibano, a 180 km de João Pessoa, existe uma cidade onde a aridez do sertão é tratada como ouro pelos diretores de cinema. Cabaceiras, de pouco mais de 5 mil habitantes, ganhou o apelido de Roliúde Nordestina por reunir condições raríssimas: o menor índice pluviométrico do Brasil, luz natural abundante e formações rochosas que parecem pertencer a outro planeta.
Como o sertão da Paraíba virou um estúdio a céu aberto
A primeira gravação registrada em Cabaceiras é de 1929, com o curta Sob o Céu Nordestino, segundo a Secretaria de Turismo do município. A vocação cinematográfica, no entanto, só ganhou peso nacional sete décadas depois, quando o diretor Guel Arraes escolheu a cidade para gravar O Auto da Compadecida, baseado na obra de Ariano Suassuna, lançado primeiro como minissérie e depois como filme em 2000.
O sucesso transformou a cidade em referência. A Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, o coreto da praça e a réplica da padaria viraram pontos de peregrinação para fãs do longa. O letreiro gigante com a palavra Roliúde, instalado na entrada da cidade ao lado do Morro do Cruzeiro, faz referência direta à pronúncia local de Hollywood e virou cartão-postal obrigatório.

De O Auto da Compadecida a Cangaço Novo: as produções que escolheram Cabaceiras
Mais de 50 produções já foram gravadas em terras cabaceirenses, entre filmes, novelas, séries e videoclipes. Entre os títulos mais conhecidos, segundo o Brasil de Fato, estão:
- O Auto da Compadecida (1999/2000): o longa de Guel Arraes que catapultou a cidade ao cenário nacional, com Selton Mello e Matheus Nachtergaele.
- Cinema, Aspirinas e Urubus (2005): drama de Marcelo Gomes ambientado no sertão dos anos 1940.
- A Pedra do Reino (2007): adaptação para a TV da obra de Ariano Suassuna.
- Cordel Encantado (2011): novela da Globo que aproveitou as paisagens do Cariri.
- Onde Nascem os Fortes (2018): série da Globo gravada em diferentes pontos do município.
- Cangaço Novo: produção contemporânea cuja segunda temporada teve evento de lançamento na praça central da cidade.
A cidade construiu o Memorial Cinematográfico, museu instalado em uma antiga sala de cinema ao lado da igreja matriz, com roteiros originais, figurinos e fotografias de bastidores. Um detalhe peculiar: vários moradores trabalham como figurantes recorrentes, e um marceneiro local, Manoel Batista, ficou conhecido por especializar-se em cenas de tiroteio.

Lajedo de Pai Mateus: a formação rochosa que existe em poucos lugares no mundo
A 14 km do centro de Cabaceiras, dentro de uma propriedade privada, fica o Lajedo de Pai Mateus, vencedor do concurso 7 Maravilhas da Paraíba realizado pela Assembleia Legislativa. O lugar é formado por centenas de matacões de granito, rochas arredondadas que parecem ter sido empilhadas por gigantes em meio à caatinga seca.
A Secretaria de Turismo de Cabaceiras registra que esse tipo de formação geológica existe em apenas quatro lugares no planeta. A Pedra do Capacete, ponto mais fotografado do conjunto, ganhou o nome por se parecer com um capacete militar antigo. O nome do lajedo vem de uma lenda local: o curandeiro Pai Mateus teria vivido na região no século XVIII, e até hoje o lugar é descrito como místico pelos moradores. Algumas pedras guardam pinturas rupestres feitas por povos indígenas que habitaram a área.
Quem ama o filme O Auto da Compadecida, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Mundo Sem Fim, que conta com mais de 1 milhão de inscritos, onde Renan e Michele mostram a mística Cabaceiras:
Por que a cidade que menos chove no Brasil virou cenário ideal para o cinema?
Cabaceiras detém o recorde histórico de menor precipitação anual já registrado no Brasil, com apenas 278 milímetros em um ano, segundo levantamentos meteorológicos citados em estudos climáticos do governo da Paraíba. Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Geografia Física classifica o município como a área de menor índice pluviométrico de todo o Nordeste brasileiro, com clima do tipo As pela classificação de Köppen e temperatura média anual de 24°C.
Estação com baixo índice pluviométrico. Contemple a rara paisagem do sertão verdejante que surge no cenário após as chuvas isoladas.
As precipitações atingem sua média anual. É o breve momento para observar as águas da Cachoeira do Pinga fluindo em curtas correntes.
A luz dourada ideal para o cinema domina o município. Prestigie a famosa e tradicional Festa do Bode Rei sob o céu limpo da Roliúde Nordestina.
Precipitação quase nula e clima extremamente seco. Caminhe pelas formações rochosas e assista ao deslumbrante pôr do sol no Lajedo de Pai Mateus.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Em janeiro de 2026, registros do Instituto Nacional de Meteorologia indicaram apenas 1 milímetro de chuva acumulado no mês todo, o menor valor para o período desde 2017. Essa raridade hídrica explica por que cineastas adoram a cidade: dias de céu limpo praticamente garantidos, sol o ano todo, sem necessidade de remarcar diárias por causa de chuva. O slogan oficial do município é justamente Cabaceiras, sol pra você.
Como chegar ao sertão cinematográfico da Paraíba?
O acesso a Cabaceiras é feito pela BR-230 (Transamazônica) e depois pela PB-148, rodovia estadual pavimentada. Saindo de João Pessoa, o trajeto de 180 km dura cerca de 2h30 de carro. De Recife, são 220 km pela BR-101 e BR-230, aproximadamente 3 horas de viagem.
A cidade não tem aeroporto, mas os aeroportos mais próximos são o Aeroporto Internacional de João Pessoa e o Aeroporto de Campina Grande, ambos com voos regulares. Recomenda-se alugar um carro para explorar as atrações rurais com liberdade. Há também opções de passeios guiados partindo das capitais.
Da carne de bode ao couro: a outra alma da Roliúde Nordestina
O cinema não é a única identidade da cidade. Cabaceiras é apelidada de Terra do Bode Rei e abriga um dos maiores rebanhos de caprinos e ovinos da Paraíba. A caprinocultura sustenta tanto a gastronomia quanto o artesanato em couro, atividade reconhecida nacionalmente.
A Festa do Bode Rei, realizada anualmente em junho, recria o cenário de um castelo medieval com muralhas, praça e a residência simbólica do bode-rei. O evento é um dos principais do calendário cultural e agropecuário paraibano e atrai milhares de visitantes para feiras, competições e shows. Na cozinha local, o protagonista absoluto é a carne de bode em todas as versões: assada na brasa, guisada, em buchada e na panelada, sempre acompanhada de cuscuz, macaxeira e feijão verde.
Por que essa cidade cenográfica merece um lugar no seu próximo roteiro
Cabaceiras transformou aquilo que muitos consideravam desvantagem, a aridez extrema e a falta de chuva, em vocação artística. A cidade entrega cenários geológicos que existem em poucos lugares do planeta, mais de 50 produções audiovisuais em seu currículo e uma comunidade que adotou o cinema como parte da rotina.
Você precisa atravessar o Cariri paraibano e caminhar pelas mesmas ruas onde Chicó e João Grilo fizeram história para entender por que o sertão virou o estúdio a céu aberto mais cobiçado do Brasil.




