A Espanha está prestes a transformar completamente a forma como os cidadãos acessam a internet, e quem vive ou trabalha no país precisa entender o que muda a partir de 2027. O governo espanhol iniciou os procedimentos para um novo Decreto Real que atualizará o Serviço Universal de Telecomunicações, trazendo velocidades muito mais altas, preços mais acessíveis e liberdade total para escolher a operadora de preferência, sem depender de contratos impostos pelo Estado.
O que é o serviço universal de telecomunicações e por que ele vai mudar?
O Serviço Universal de Telecomunicações existe desde 2005 como uma garantia de acesso à internet e à telefonia fixa para todos os cidadãos espanhóis, independentemente de onde vivam. Até hoje, esse serviço era oferecido por meio de licitações com empresas privadas, primeiro a Telefónica e depois a Hispasat, com velocidades que chegavam a apenas 10 Mbps, um padrão muito abaixo das necessidades atuais de qualquer usuário conectado.
Com a chegada de novas tecnologias como fibra óptica, redes 5G e conexões via satélite, o governo entendeu que era hora de modernizar esse modelo. A nova regulamentação, prevista para entrar em vigor em 1 de janeiro de 2027, coincide exatamente com o encerramento do programa Conectate 35, instituído em 2022, marcando uma virada importante na política de conectividade do país.
Quais são as novas velocidades de internet que as operadoras serão obrigadas a oferecer?
O novo regulamento estabelece padrões técnicos bem mais exigentes do que os atuais, refletindo a evolução do consumo de internet nos últimos anos. As conexões do Serviço Universal passarão a ter especificações mínimas que garantem uma navegação fluida para uso doméstico, profissional e empresarial.
As principais mudanças técnicas previstas para o novo Serviço Universal de internet incluem:
- Velocidade de download de 100 Mbps, um salto expressivo em relação aos 10 Mbps oferecidos atualmente pelo serviço
- Velocidade de upload de 5 Mbps, garantindo conexões mais estáveis para videoconferências, envio de arquivos e trabalho remoto
- Latência máxima de 690 ms, estabelecendo um limite técnico para a qualidade da resposta da conexão em todo o território

Como a liberdade de escolha da operadora vai beneficiar os consumidores?
Uma das mudanças mais significativas do novo modelo é justamente a liberdade que o consumidor terá para escolher sua própria operadora. Ao contrário do sistema atual, em que o Serviço Universal era vinculado a uma empresa específica selecionada pelo governo, a nova regulamentação permitirá que qualquer operadora com cobertura na região do usuário ofereça o serviço.
Essa abertura beneficia não apenas os cidadãos comuns, mas também microempresas, pequenas e médias empresas e organizações sem fins lucrativos, que poderão negociar diretamente com a operadora de sua preferência. A concorrência entre as empresas tende a melhorar a qualidade do atendimento e pressionar os preços para baixo, algo que qualquer usuário de internet aguarda há muito tempo.
Quem terá direito ao desconto de 25% na conta de internet?
Além das melhorias técnicas, o governo espanhol também incluiu no regulamento uma medida voltada para a inclusão digital de famílias de baixa renda. A proposta do Ministério da Transformação Digital prevê um desconto de 25% na conta de internet para usuários vulneráveis, com potencial para beneficiar cerca de 800 mil famílias em todo o país.
A fiscalização e a garantia desse desconto ficarão a cargo da CNMC, que será responsável por verificar se todas as operadoras estão cumprindo a obrigação. Os pontos centrais dessa medida são:
- Desconto mínimo de 25% aplicado sobre tarifas já existentes, sem exigir que o consumidor migre para um plano específico
- Liberdade para o usuário escolher qualquer operadora com cobertura em sua região para usufruir do benefício
- Fiscalização ativa da CNMC para garantir que nenhuma operadora deixe de oferecer a tarifa social reduzida

O que acontece com as regiões sem cobertura de internet no país?
O novo regulamento reconhece um desafio real da infraestrutura de telecomunicações espanhola: nem todas as regiões têm cobertura suficiente para que as operadoras privadas atuem por conta própria. Para essas áreas, o governo abrirá licitações específicas para que uma ou mais empresas assumam a cobertura local, com o custo dividido entre todas as operadoras com faturamento superior a 100 milhões de euros.
Em muitas dessas regiões mais remotas, a conexão via satélite será a solução viável, já que a regulamentação só pode exigir que as operadoras atuem dentro de suas áreas de cobertura existentes. Essa combinação de fibra óptica, 5G e satélite representa a aposta do governo para garantir que nenhum cidadão, empresa ou organização fique de fora da conectividade universal que o país quer consolidar até 2027.
Uma mudança como a da Espanha poderia acontecer no Brasil?
O Brasil já possui um instrumento semelhante ao modelo espanhol: o Serviço de Comunicações Digitais (SCD), regulado pela Anatel, que prevê o acesso universal à internet em banda larga como um direito dos cidadãos. No entanto, a aplicação prática ainda enfrenta obstáculos significativos, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde milhões de domicílios seguem sem conexão de qualidade ou sem nenhuma conectividade.
A experiência espanhola mostra que é possível combinar regulação, concorrência entre operadoras e subsídios para famílias de baixa renda em um modelo funcional. Para que algo parecido aconteça no Brasil, seria necessário avançar em alguns pontos estruturais que ainda limitam a democratização do acesso à internet no país:
- Ampliação da cobertura de fibra óptica e 5G nas regiões rurais e periferias urbanas, onde a infraestrutura ainda é precária e as operadoras privadas têm pouco incentivo para investir
- Criação de tarifas sociais obrigatórias para famílias de baixa renda, com fiscalização ativa da Anatel para garantir que todas as operadoras cumpram a exigência sem burocracia excessiva
- Uso estratégico de conexões via satélite, como o Starlink e futuros projetos nacionais, para cobrir municípios remotos onde a fibra óptica não chegará no curto prazo




