Fundada nos primeiros anos do século XVIII às margens do Rio das Mortes, São João del-Rei mantém em operação, desde 1881, o trem a vapor que está há mais tempo em funcionamento contínuo em todo o Brasil. Seus vagões de madeira ainda percorrem os mesmos trilhos de 76 centímetros de bitola que foram inaugurados pelo próprio Dom Pedro II. A cidade abriga mais de 700 imóveis de valor histórico que são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1938, já foi eleita Capital Brasileira da Cultura em 2007 e está localizada a uma distância de menos de 3 horas de Belo Horizonte pela rodovia BR-265.
Por que São João del-Rei nunca perdeu o apito da Maria Fumaça?
No dia 28 de agosto de 1881, a locomotiva de número 1 da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) fez a sua entrada triunfal na estação de São João del-Rei, trazendo a bordo o imperador Dom Pedro II, a imperatriz Dona Teresa Cristina e uma grande comitiva formada por ministros e conselheiros do império. O trem, desde aquela noite, simplesmente nunca mais parou. Os 12 quilômetros de trilhos que atualmente fazem a ligação da cidade com a vizinha Tiradentes funcionaram de forma ininterrupta, o que faz dessa ferrovia a mais antiga em operação contínua de todo o Brasil, como faz questão de destacar o IPHAN, que realizou o tombamento de todo o complexo ferroviário em 1989.
A história já começa com um fato curioso no próprio dia da inauguração: na manhã seguinte à chegada do trem, o então Ministro da Agricultura Buarque Macedo faleceu de forma súbita nos aposentos em que estava hospedado. Em razão desse acontecimento, Dom Pedro II cancelou toda a programação que havia sido preparada e partiu da cidade ainda durante a madrugada, deixando São João sem a cerimônia oficial que lhe havia sido prometida. A ferrovia, portanto, teve o seu início sem grandes fanfarras, mas o certo é que nunca mais ficou parada. Em seus tempos de maior glória, a EFOM chegou a contar com uma extensão de mais de 600 quilômetros de trilhos. Hoje, os 12 quilômetros que separam São João del-Rei de Tiradentes são o único trecho que sobreviveu, operado por quatro locomotivas a vapor e por vagões de madeira que já são centenários.

O que torna o passeio de Maria Fumaça único?
A Maria Fumaça realiza seus passeios sempre às sextas-feiras, aos sábados e aos domingos, rodando sobre uma bitola superestreita de 76 centímetros, que é exatamente a mesma que foi utilizada em 1881. O trajeto completo tem uma duração que varia de 40 a 50 minutos, margeando as águas do Rio das Mortes e as formações da Serra de São José. Ao chegar em Tiradentes, o visitante se depara com o fascinante espetáculo da rotunda: a locomotiva é desacoplada dos vagões e girada de forma manual pelos próprios funcionários sobre um trilho de formato circular, para que possa mudar o seu sentido e fazer a viagem de volta. Os encostos dos bancos também precisam ser invertidos manualmente para o lado oposto. Tudo isso é feito de forma artesanal, exatamente como se fazia lá em 1881.
Que reconhecimentos nacionais e internacionais a cidade acumulou?
São João del-Rei concentra uma lista de reconhecimentos que é realmente rara e que pode ser facilmente verificada. Os principais deles são:
- Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo IPHAN (1938): a cidade foi uma das seis primeiras a ter o conjunto arquitetônico inteiro tombado no Brasil. O acervo soma cerca de 700 imóveis, conforme o portal do IPHAN.
- Patrimônio Imaterial pelo IPHAN (2009): a arte dos sineiros foi registrada como patrimônio imaterial do Brasil. Mais de 40 toques diferentes saem das torres para anunciar missas, casamentos, funerais e festas.
- Capital Brasileira da Cultura (2007): título concedido com apoio da UNESCO e da Organização Capital Americana da Cultura, conforme documentado pelo IPHAN. São João del-Rei foi a segunda cidade brasileira a receber o título, após Olinda.
- Destino Referência de Turismo de Estudos e Intercâmbio (2009): seleção do Ministério do Turismo que reconheceu a combinação de patrimônio cultural e presença da Universidade Federal.
- Complexo Ferroviário tombado pelo IPHAN (1989): inclui locomotivas, vagões, estações e oficinas de manutenção, um dos tombamentos ferroviários mais completos do país.

O que fazer em São João del-Rei além do passeio de trem?
A cidade concentra igrejas, museus e tradições musicais num centro histórico percorrível a pé. As principais atrações são:
- Igreja de São Francisco de Assis: fachada projetada por Aleijadinho e executada por Francisco de Lima Cerqueira no século XVIII. Aos domingos, a Orquestra Ribeiro Bastos toca na missa das 9h15, numa tradição que não se interrompeu em mais de 200 anos.
- Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar: templo setecentista com talha dourada e teto pintado, sede das principais celebrações religiosas. Tombada pelo IPHAN.
- Igreja Nossa Senhora do Carmo: construída entre 1732 e 1759 pela Irmandade do Carmo, com acabamento que se estendeu até o início do século XIX.
- Museu Ferroviário: dentro da estação de São João del-Rei, abriga a locomotiva original nº 1 que transportou Dom Pedro II em 1881. Entrada gratuita, aberto de quarta a domingo.
- Oficinas de manutenção da EFOM: abertas à visitação, reúnem máquinas de fabricação inglesa do século XIX que ainda fazem manutenção nas locomotivas ativas. Uma raridade industrial em funcionamento.
- Museu Regional: instalado no sobrado do Comendador, com mobiliário, utensílios, pinturas e instrumentos do cotidiano do século XVIII e XIX, incluindo balanças de pesar ouro.
- Semana Santa: a mais importante do calendário. A tricentenária Irmandade do Santíssimo Sacramento organiza procissões com tapetes de serragem e flores. A Orquestra Ribeiro Bastos, com mais de 200 anos de atuação, toca o Ofício de Trevas com o Coro Gregoriano de Coroinhas. Em março de 2026, as celebrações voltaram a ocorrer nas igrejas do Carmo e do Rosário.
Quem busca história e cultura no coração de Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 91 mil visualizações, onde Tati Marmon mostra 10 curiosidades fascinantes sobre uma das mais belas cidades históricas do estado, São João del-Rei:
Qual a melhor época para visitar a cidade dos sinos?
São João del-Rei tem clima tropical de altitude, com verão chuvoso e inverno seco. O calendário de eventos molda a escolha do período:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. A Semana Santa e o Festival de Inverno são os períodos de maior ocupação hoteleira, com reserva antecipada recomendada.
Como chegar à cidade histórica a menos de 3 horas de BH?
São João del-Rei está situada a uma distância de 185 quilômetros da capital Belo Horizonte, e o acesso se dá pelas rodovias BR-040 e BR-265, em um trajeto que pode ser percorrido de carro em aproximadamente 2 horas e 30 minutos. Para quem vem da cidade de São Paulo, a distância é de 490 quilômetros, utilizando-se a rodovia Fernão Dias (BR-381). Existem linhas regulares de ônibus que partem tanto de Belo Horizonte quanto de São Paulo. O aeroporto da cidade não opera voos de caráter regular; o mais próximo que conta com conexões aéreas é o Aeroporto Regional Presidente Itamar Franco, localizado em Juiz de Fora, a 130 quilômetros de distância.
A cidade onde o barroco ainda se mantém vivo e onde o trem não deixou de apitar
São João del-Rei é um lugar que se torna raro justamente por ter conseguido preservar todo o seu rico patrimônio sem que a vida local fosse congelada no tempo. As orquestras seguem tocando há mais de 200 anos de forma ininterrupta, os sinos continuam a comunicar as notícias pontualmente às 7 horas da manhã, a Maria Fumaça dá o seu apito característico às 10 horas e as procissões da Semana Santa, há três séculos, ocupam as mesmas ruas de pedra do centro histórico.
Você precisa caminhar pelo centro da cidade no final da tarde, justamente naquele momento em que o bronze das torres começa a soar, e assim conseguirá compreender por que São João del-Rei é uma das cidades brasileiras onde ainda é plenamente possível ouvir a passagem do tempo.




