Imagine nadar em mares gelados onde quase nada muda por séculos, cruzando eras humanas diferentes sem sequer perceber. É isso que provavelmente acontece com o tubarão-da-Groenlândia, um dos animais mais misteriosos do planeta e o vertebrado mais longevo já conhecido. Alguns desses gigantes silenciosos podem ter nascido em tempos de navegações coloniais, e hoje ainda deslizam pelas profundezas do Ártico como verdadeiros arquivos vivos da história da Terra.
O que torna o tubarão-da-Groenlândia um campeão de longevidade?
A longevidade extrema do tubarão-da-Groenlândia é resultado de um conjunto de fatores biológicos e ambientais que agem em conjunto. Ele cresce muito devagar, em torno de 1 centímetro por ano, o que indica um metabolismo lento, compatível com as águas geladas do Ártico e do Atlântico Norte, onde cada processo do corpo acontece em ritmo quase econômico.
Esse tubarão vive em áreas profundas, frias e escuras, longe de muita luz solar e de boa parte da poluição humana, o que reduz a exposição a agentes que causam danos às células. Somando tudo isso, percebe-se por que esses animais podem facilmente ultrapassar 200 anos, com alguns indivíduos podendo chegar a mais de três séculos em relativo bom funcionamento do corpo.

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Como os cientistas conseguem estimar a idade desses tubarões?
Descobrir a idade real de um tubarão-da-Groenlândia não é nada simples, porque ele não tem ossos como os peixes comuns, o que impede o uso de métodos tradicionais. A grande pista está nas lentes oculares, estruturas dos olhos formadas antes do nascimento e que praticamente não mudam durante toda a vida do animal.
Usando a técnica de datação por radiocarbono nessas lentes, os pesquisadores estimam quando aquele tecido se formou e, assim, calculam a idade aproximada de cada exemplar. Embora exista uma margem de erro, essa abordagem abriu um novo caminho para estudar vertebrados de vida longa, mostrando que esses tubarões podem ser muito mais velhos do que qualquer outro animal com esqueleto conhecido.
O que o genoma do tubarão-da-Groenlândia revela sobre sua resistência?
Quando cientistas começaram a analisar o genoma do tubarão, perceberam que havia algo especial ali. Ele é maior do que o genoma humano e contém muitos elementos móveis, os chamados “genes saltadores”, que podem influenciar como outros genes são ativados ao longo da vida. Isso ajuda a explicar como a espécie se adaptou a um ambiente tão frio e estável por tanto tempo geológico.
Entre as descobertas, chamam atenção as múltiplas cópias de genes ligados ao reparo de DNA, o que indica uma capacidade reforçada de consertar danos celulares. Também foram encontradas variantes de genes associados à supressão de tumores, o que pode contribuir para a baixa incidência de câncer, mesmo em idades que, para nós, pareceriam quase impossíveis de alcançar.
Para você que gosta de aprofundar, separamos um vídeo do canal Canal History Brasil com mais sobre o tubarão da groelândia:
Quais aprendizados essa espécie oferece para a medicina e o envelhecimento?
O interesse nesses tubarões vai muito além da curiosidade sobre animais exóticos: eles são vistos como um laboratório natural para entender o envelhecimento. Ao estudar seus genes de reparo de DNA, seus supressores de tumor e o jeito como o corpo funciona em ritmo lento, cientistas buscam pistas para proteger melhor as células de outros vertebrados, incluindo os seres humanos.
Algumas linhas de pesquisa exploram como esses mecanismos naturais podem inspirar futuros tratamentos em áreas como oncologia e medicina regenerativa. Para organizar essas possibilidades, muitos estudos destacam pontos centrais que podem, no futuro, se transformar em aplicações médicas concretas ou em novas formas de prevenir doenças ligadas à idade:
- Inspiração para terapias que reforcem o reparo de DNA em células humanas
- Estudo de genes supressores de tumor para prevenir certos tipos de câncer
- Compreensão de como um metabolismo lento protege tecidos ao longo de décadas
- Criação de modelos de envelhecimento saudável baseados em vertebrados de vida longa
Dessa forma, o tubarão-da-Groenlândia deixa de ser apenas uma figura distante nas águas do Ártico e se torna um aliado inesperado no entendimento da longevidade saudável. Cada nova descoberta sobre essa espécie amplia nossa visão de como a vida pode permanecer funcional por séculos, abrindo portas para estudos que podem transformar a forma como lidamos com o envelhecimento e as doenças relacionadas ao tempo.




