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Uma planta barata que a NASA colocou à prova e que ficou famosa pela capacidade de retirar poluentes do ar

José Gustavo Dantas Por José Gustavo Dantas
14/08/2026
Em Curiosidades
O lírio-da-paz Spathiphyllum wallisii e o estudo da NASA sobre purificação de ar

O lírio-da-paz Spathiphyllum wallisii e o estudo da NASA sobre purificação de ar

Ela é comum em casas, custa relativamente pouco e ganhou fama mundial depois de aparecer em experimentos conduzidos para estudar formas de melhorar o ar de ambientes fechados. O lírio-da-paz realmente demonstrou capacidade de remover determinados compostos orgânicos voláteis em testes controlados da NASA. O que a história viral quase nunca conta é que esses experimentos aconteceram em câmaras fechadas, muito diferentes de uma sala comum, e não comprovam que um único vaso consiga eliminar 80% das “toxinas” do ar de uma casa.

Por que o lírio-da-paz entrou no famoso experimento de ar limpo da NASA?

No fim da década de 1980, pesquisadores ligados à NASA estudaram plantas ornamentais como possíveis componentes de sistemas destinados a melhorar a qualidade do ar em ambientes fechados. O trabalho avaliou não apenas as folhas, mas também raízes, substrato e microrganismos associados às plantas. Entre as espécies analisadas estava o Spathiphyllum conhecido popularmente como lírio-da-paz.

O relatório investigou substâncias como benzeno, formaldeído e tricloroetileno, compostos orgânicos voláteis que podem estar presentes em ambientes internos. No relatório original da NASA sobre plantas e poluição do ar, os pesquisadores registraram redução desses compostos em experimentos realizados dentro de sistemas fechados. Foi a partir desses resultados que nasceu boa parte da reputação moderna das chamadas “plantas purificadoras de ar”.

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O que os testes realmente mostraram quando colocaram plantas dentro das câmaras?

Os experimentos mostraram que plantas e seus sistemas associados conseguem retirar compostos orgânicos voláteis do ar quando são colocados em câmaras experimentais. Isso é um resultado real. A dificuldade começou quando números obtidos em pequenos ambientes selados passaram a ser divulgados como se representassem exatamente o que aconteceria em quartos, salas e escritórios ventilados.

Entre os pontos fundamentais para entender a experiência estão:

  • Os testes ocorreram em ambientes experimentais fechados.
  • Foram avaliados compostos como benzeno, formaldeído e tricloroetileno.
  • O sistema envolvia folhas, raízes, substrato e microrganismos.
  • A concentração dos poluentes era acompanhada durante horas ou dias.
  • Os resultados não equivalem automaticamente ao desempenho em uma sala comum.

O vídeo “Can Houseplants Improve Air Quality?” analisa justamente a diferença entre os estudos com plantas em câmaras e o funcionamento de casas reais. O conteúdo mostra por que a capacidade química observada nos experimentos existe, mas pode se tornar pequena diante da ventilação e do volume de ar de um ambiente doméstico.

O lírio-da-paz consegue realmente remover 80% das toxinas do ar de uma sala?

Não existe base para dizer que colocar um lírio-da-paz na sala eliminará automaticamente 80% dos poluentes presentes ali. Percentuais divulgados na internet normalmente vêm de resultados obtidos sob condições experimentais específicas, com volumes de ar, concentrações de contaminantes e tempos de exposição determinados. Alterar qualquer uma dessas variáveis pode mudar completamente a porcentagem observada.

Uma revisão publicada no Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology analisou décadas de pesquisas com plantas em vasos e concluiu que, apesar de elas removerem VOCs em câmaras pequenas e fechadas, a taxa é baixa demais para produzir uma melhora relevante do ar em edifícios típicos quando comparada à renovação normal do ar. Portanto, o efeito existe em laboratório, mas o salto para “um vaso purifica sua sala” não é sustentado pelos mesmos dados.

Por que uma planta funciona no laboratório e quase desaparece diante da ventilação de uma casa?

Imagine uma pequena câmara fechada contendo uma quantidade conhecida de determinado composto. Se não entra ar novo no sistema, qualquer retirada gradual daquele poluente pela planta pode ser medida com facilidade. Uma residência é completamente diferente: portas abrem, janelas permitem trocas de ar, sistemas de ventilação funcionam, pessoas entram e saem e novas fontes de compostos podem aparecer continuamente.

Situação O que acontece
Câmara experimental fechada A redução dos poluentes produzida pela planta pode ser detectada ao longo do tempo.
Sala de uma residência Há troca constante de ar e várias fontes de compostos químicos.
Um único vaso Sua taxa de remoção é pequena diante do volume de ar de um cômodo.
Sistema vegetal com fluxo de ar ativo Forçar o ar através do sistema pode elevar bastante a capacidade de remoção.

Os pesquisadores que revisaram os estudos calcularam as taxas de remoção levando em conta o volume real dos ambientes e a renovação do ar. A conclusão foi que seria necessária uma densidade impraticavelmente grande de plantas para competir com a remoção de VOCs proporcionada pela ventilação normal de muitos edifícios. Essa análise é uma das razões pelas quais hoje se considera exagerada a antiga recomendação de utilizar alguns vasos como verdadeiro sistema doméstico de purificação.

De onde vêm benzeno, formaldeído e outros compostos encontrados dentro de casa?

Compostos orgânicos voláteis constituem uma categoria ampla e podem surgir de diferentes materiais e atividades. Dependendo do composto, as fontes internas podem envolver produtos, materiais de construção, acabamentos, móveis e processos de combustão. Por isso, falar genericamente em “toxinas venenosas” simplifica demais uma questão de qualidade do ar que envolve substâncias diferentes, concentrações diferentes e níveis distintos de risco.

O estudo da NASA não demonstrou que o lírio-da-paz funciona como um aspirador capaz de encontrar qualquer substância perigosa e devolvê-la simplesmente como “oxigênio puro”. Plantas realizam fotossíntese em condições adequadas, mas a remoção de compostos voláteis envolve processos diferentes, incluindo absorção e participação do sistema radicular e de microrganismos. O próprio relatório de 1989 enfatizou que folhas, raízes, solo e organismos associados participavam do sistema investigado.

Aspectos botânicos do lírio-da-paz Spathiphyllum wallisii e a absorção de compostos orgânicos voláteis
Aspectos botânicos do lírio-da-paz Spathiphyllum wallisii e a absorção de compostos orgânicos voláteis

Então por que o lírio-da-paz continua sendo chamado de planta que purifica o ar?

Existe uma razão legítima por trás do apelido: em condições experimentais, o lírio-da-paz e outras plantas realmente demonstraram capacidade de remover determinados compostos do ar. Estudos posteriores continuaram encontrando remoção de VOCs por sistemas vegetais, e pesquisas com paredes verdes ativas mostram que fazer o ar passar deliberadamente pelo sistema pode aumentar muito esse efeito. O erro surge apenas quando um resultado mensurável em laboratório é convertido em uma promessa de purificação intensa dentro de qualquer casa.

Por isso, o lírio-da-paz pode continuar sendo uma planta interessante para decoração e um exemplo fascinante da interação entre vegetação e contaminantes atmosféricos, mas não deve substituir ventilação adequada nem equipamentos específicos quando existe um problema real de qualidade do ar. A NASA ajudou a demonstrar uma capacidade biológica verdadeira; décadas de pesquisas posteriores mostraram o limite dessa descoberta. A história continua impressionante justamente quando separamos aquilo que a planta consegue fazer em uma câmara do que um único vaso consegue fazer no meio de uma sala.

Tags: estudo da NASAlírio-da-pazplantas de interiorqualidade do ar

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