Em 1926, as mariposas argentinas da espécie Cactoblastis cactorum começaram a ser liberadas na Austrália contra uma invasão de cactos que ocupava 24,3 milhões de hectares. Após testes de segurança, suas lagartas destruíram as plantas e permitiram recuperar áreas agrícolas de Queensland e Nova Gales do Sul.
Como os cactos tomaram 24 milhões de hectares?
As figueiras-da-índia chegaram à Austrália no fim do século 18 e outras variedades foram levadas para jardins, cercas e alimentação do gado em períodos secos. Sem inimigos naturais suficientes, os cactos invasores avançaram pelo interior e formaram manchas densas, difíceis de atravessar ou remover.
Na metade da década de 1920, a infestação cobria cerca de 24 milhões de hectares de áreas agrícolas e pastagens. Métodos como corte, fogo, esmagamento e venenos exigiam muito trabalho, mas não conseguiam acompanhar a expansão das plantas.

Por que as mariposas argentinas foram escolhidas?
A Cactoblastis cactorum é uma mariposa nativa de parte da Argentina cujas lagartas se alimentam de cactos do gênero Opuntia. Essa relação chamou atenção porque o inseto atacava justamente o grupo vegetal que dominava extensas propriedades australianas.
Uma equipe de entomologistas buscou inimigos naturais dos cactos nas Américas e levou diferentes organismos para avaliação. Entre eles, as mariposas argentinas se destacaram pela capacidade de reprodução e pelo dano causado dentro das palmas, onde as lagartas consumiam o tecido macio.
Como os cientistas evitaram atacar outras plantas?
Antes da liberação, os insetos passaram por avaliações rigorosas de criação e alimentação em Chinchilla. O objetivo era observar se as lagartas permaneceriam ligadas aos cactos-alvo ou se poderiam se alimentar de outras plantas cultivadas e nativas presentes no país.
Os testes indicaram que a mariposa poderia ser usada contra as figueiras-da-índia selecionadas. Depois de atravessar a camada externa da palma, as lagartas trabalham em grupo, abrem galerias no interior e deixam a estrutura sem tecido suficiente para continuar viva.
A seguir listamos quatro etapas da preparação que transformaram uma remessa pequena em um programa de controle em grande escala:
- Importação: 3 mil ovos foram trazidos da Argentina após tentativas anteriores de criação fracassarem.
- Divisão: metade seguiu para Chinchilla e a outra metade permaneceu em Brisbane.
- Multiplicação: 527 fêmeas produziram 100.605 ovos na primeira reprodução bem-sucedida.
- Liberação: os insetos aprovados nos testes começaram a ser soltos no ambiente em 1926.

Como 3 mil ovos viraram milhões por dia?
As primeiras tentativas de criar o inseto falharam, até que 3 mil ovos importados da Argentina foram divididos entre Chinchilla e Brisbane. De 527 fêmeas, nasceram 100.605 ovos, e a segunda geração ultrapassou 2,5 milhões, mostrando um ritmo de multiplicação incomum.
Com a criação estabilizada, os ovos eram enviados para propriedades de Queensland e Nova Gales do Sul e colocados sobre os cactos. As lagartas eclodiam, penetravam nas palmas e aceleravam a destruição das plantas, enquanto a distribuição diária alcançava escala industrial.
A seguir listamos cinco números da operação que mostram como o programa cresceu desde a infestação inicial até a distribuição em massa:
| Etapa | Quantidade | Resultado |
|---|---|---|
| Infestação inicial | 24,3 milhões de hectares | Áreas rurais tomadas por cactos |
| Lote importado | 3 mil ovos | Divisão entre Chinchilla e Brisbane |
| Primeira reprodução | 100.605 ovos | Resultado obtido de 527 fêmeas |
| Segunda geração | Mais de 2,5 milhões | Expansão rápida da criação |
| Pico de distribuição | Até 14 milhões por dia | Envios para duas regiões australianas |
Por que esse caso entrou para a história do controle biológico?
Em poucos anos, grandes campos antes cobertos por cactos apodreceram ou ficaram livres das plantas. Até 1933, estimativas apontavam a limpeza de 80% da área infestada em Queensland e de 50% a 60% em Nova Gales do Sul, devolvendo terras ao uso rural.
O episódio mostrou que o controle biológico pode funcionar quando o agente é estudado, testado e acompanhado no ambiente certo. Também deixou uma lição duradoura: um organismo útil contra uma invasora pode causar problemas em regiões onde seus cactos hospedeiros são nativos.




