Durante o Último Máximo Glacial, entre cerca de 26.000 e 19.000 anos atrás, o nível do mar estava tão baixo que grandes porções hoje cobertas pelo oceano formavam uma massa de terra contínua. Nesse cenário, o antigo supercontinente Sahul unia Austrália, Nova Guiné e as atuais Ilhas Aru, criando vastas savanas onde populações de caçadores-coletores circulavam por dezenas de milhares de anos, explorando sobretudo marsupiais de médio e grande porte, como cangurus, pademelões e bandicoots.
Qual foi o papel das Ilhas Aru no supercontinente Sahul?
As Ilhas Aru, hoje isoladas por mares rasos no Mar de Arafura, faziam parte de uma extensa planície exposta quando o mar estava mais de 120 metros abaixo do nível atual. Esse ambiente funcionava como um grande corredor ecológico, conectando o norte da Austrália às terras altas da Nova Guiné e permitindo a circulação de espécies típicas da fauna australiana, incluindo diversos tipos de cangurus.
Pesquisas de paleoceanografia e geomorfologia mostram que essa planície sustentava paisagens de savana aberta, ideais para grandes herbívoros e para grupos móveis de caçadores-coletores. As Ilhas Aru, nesse contexto, atuavam como ponto estratégico de ocupação humana, com acesso a água, abrigos rochosos e rotas de migração animal.

Como era o ambiente de savana aberta no Pleistoceno em Aru?
Estudos sedimentológicos em Aru indicam que predominavam paisagens de savana aberta e bosques esparsos, muito diferentes das florestas tropicais úmidas atuais. A presença de pólen de gramíneas, carvão microscópico e restos ósseos de animais adaptados a ambientes secos reforça esse quadro paleoambiental.
Para os caçadores-coletores, esse mosaico de vegetação significava grandes áreas para perseguir presas velozes, como o canguru-ágil (Macropus agilis), ainda encontrado no norte da Austrália. A combinação de amplos campos abertos, fontes de água sazonais e abrigos em cavernas tornava a região altamente favorável à ocupação recorrente ao longo de milênios.
Como funcionava a caça aos cangurus-de-cauda-curta em Aru?
Os vestígios ósseos de Liang Lemdubu mostram um claro predomínio de cangurus-de-cauda-curta e outros marsupiais de porte médio, com fragmentos queimados, marcas de corte e fraturas intencionais. Em estudos de arqueologia da Oceania, essa recorrência indica um foco prolongado na caça a cangurus e espécies associadas às savanas abertas de Sahul.
Modelos etnoarqueológicos, somados a registros de povos aborígenes australianos, ajudam a entender as estratégias de caça em Aru, destacando o uso de queimadas controladas e a forte organização social necessária para conduzir e abater os animais de forma eficiente. Entre as práticas mais prováveis estão:
- Uso sistemático do fogo para criar mosaicos de vegetação e direcionar as presas;
- Caçadas cooperativas em grupo, cercando cangurus em áreas abertas;
- Aproveitamento de encostas e relevos naturais para emboscar animais;
- Processamento intensivo das carcaças em abrigos, com fratura de ossos para extração de medula.

Por que ferramentas simples revelam um conhecimento complexo?
Em Liang Lemdubu, o conjunto lítico é dominado por lascas simples de sílex e quartzito, sem retoques sofisticados. Ainda assim, análises microscópicas de uso indicam polimentos, microfraturas e desgastes compatíveis com o corte de carne, raspagem de peles e trabalho em madeira, mostrando que a eficiência não dependia de formas elaboradas.
Pesquisadores destacam que o sucesso adaptativo no antigo Sahul se ancorava em um sistema denso de conhecimento ecológico, passado entre gerações. Mapear rotas migratórias de cangurus, ritmos de queima da vegetação, ciclos de reprodução e disponibilidade de água constitui uma verdadeira engenharia de paisagem com fogo, muito anterior à agricultura formal e essencial à gestão ambiental em larga escala.
O que a ocupação de longo prazo em Aru revela sobre a adaptação humana?
A longa sequência ocupacional de cerca de 30.000 anos em Liang Lemdubu mostra como grupos humanos ajustaram gradualmente suas práticas diante do aquecimento pós-glacial e da elevação do nível do mar, que isolou as Ilhas Aru por volta de 8.000 anos atrás. Mesmo com a transição de uma paisagem de savana para florestas mais densas, houve continuidade no uso de abrigos rochosos e no aproveitamento de recursos faunísticos locais.
Esse registro reforça que sociedades de caçadores-coletores do supercontinente Sahul responderam a mudanças climáticas intensas com flexibilidade, manejo cuidadoso do fogo e forte conexão com o território. Apoiar e acompanhar pesquisas em Aru, Kimberley, Arnhem Land e Nova Guiné é urgente para entender como povos do passado enfrentaram transformações ambientais rápidas — e para inspirar, agora, decisões mais responsáveis diante da crise climática em curso.


