O mercado antecipa a PEC e começa a abolir a escala 6×1 por conta própria
A discussão sobre o fim da escala 6×1 continua no Senado, mas parte do varejo brasileiro já começou a mudar. Grandes empresas, como a RD Saúde, adotaram a escala 5×2 em milhares de lojas para reduzir a rotatividade, atrair profissionais e melhorar a retenção de funcionários, antecipando uma tendência que pode ganhar força nos próximos anos.
Quais empresas já abandonaram a escala 6×1 e quantos trabalhadores são afetados?
A mudança mais abrangente veio do setor farmacêutico. A RD Saúde iniciou a transição no segundo semestre de 2025, começando por gerentes e farmacêuticos e expandindo até alcançar toda a operação das mais de 3.500 lojas das redes Drogasil e Raia em todos os estados brasileiros. No varejo alimentar, o movimento é mais gradual, mas consistente. Os grupos que já anunciaram ou iniciaram a adoção da escala 5×2 incluem:
- RD Saúde (Drogasil e Raia): escala 5×2 implantada em todas as 3.500 lojas, cobrindo todo o Brasil
- Grupo Supernosso (MG): piloto com 500 funcionários em três lojas da RMBH; expansão planejada para as 45 unidades, o que beneficiaria cerca de 4.800 trabalhadores
- Grupo Coutinho/Extrabom (ES): teste em andamento nas lojas de Laranjeiras (Serra), Vila Rubim (Vitória) e Gaivotas (Vila Velha); expansão pode alcançar mais de 5.000 funcionários no Espírito Santo

Por que empresas estão adotando a escala 5×2 antes da lei obrigar?
A decisão é estratégica. O varejo tem altíssima rotatividade, e cada demissão representa custo de rescisão, recrutamento e treinamento. Com apenas uma folga, candidatos com mais opções evitam essas vagas. Com duas, o cargo ganha atratividade sem aumento de salário.
Estudo publicado no Nature Human Behaviour em julho de 2025, com 2.896 funcionários em 141 empresas de seis países, identificou que a rotatividade caiu 57% com semanas reduzidas. A receita permaneceu estável ou cresceu levemente, contrariando o argumento de que menos dias trabalhados significam menos resultado.
Como está o andamento da PEC das 40 horas e o que mais está mudando no setor?
No Espírito Santo, uma mudança paralela entrou em vigor em 1.º de março de 2026: supermercados abrangidos pela convenção coletiva estadual deixaram de escalar funcionários aos domingos até 31 de outubro de 2026. Redes como os Supermercados BH estão entre as afetadas. Vale notar que fechar aos domingos não equivale à escala 5×2; a empresa pode manter seis dias de trabalho com folga em outro dia.
A Câmara dos Deputados aprovou a PEC em dois turnos, com 461 votos a favor e 19 contrários no segundo turno. O texto reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e garante dois dias de descanso para cada cinco trabalhados, sem redução salarial. A transição seria gradual: primeiro para 42 horas e depois para 40. A tabela abaixo resume o estágio atual da proposta:
| Instância | Status | Próximo Passo |
|---|---|---|
| Câmara dos Deputados | Aprovada (461×19) | Concluída |
| Senado Federal | Em análise (debate 01/07/2026) | Votação em dois turnos |
| Possível retorno | Se houver modificações | Nova análise na Câmara |
| Vigência atual | Em vigor | Escala 6×1 permitida; 5×2 é voluntária |

O que muda para o trabalhador que já está na escala 5×2?
A principal mudança é o período de descanso semanal. Na escala 6×1, o funcionário trabalha seis dias e descansa um. Na 5×2, trabalha cinco e descansa dois. As duas folgas, porém, não precisam ser sábado e domingo. A empresa pode distribuí-las em qualquer dia da semana conforme a necessidade operacional e o acordo coletivo da categoria.
Um detalhe relevante: a adoção da escala 5×2 não implica necessariamente redução da carga horária total. Antes de interpretar qualquer mudança no holerite, o funcionário deve verificar:
- Contrato de trabalho: se a jornada diária foi ajustada para compensar a folga adicional
- Convenção coletiva da categoria: acordos sindicais podem definir condições específicas para o setor
- Comunicado interno da empresa: cada rede pode ter implementado variações do modelo
Essa mudança já garante dois dias de folga para todos os trabalhadores do varejo?
Ainda não. O movimento é real e crescente, mas não abrange todo o setor. Enquanto a RD Saúde já concluiu a implantação em todas as lojas, o Grupo Supernosso e o Extrabom ainda estão em fase de testes e expansão gradual. A maioria das redes de supermercados e farmácias do Brasil ainda opera no modelo 6×1 enquanto a PEC tramita no Senado.
A escala 5×2 deixou de ser apenas pauta política e virou vantagem competitiva real. Empresas que adotarem primeiro terão acesso a candidatos que preferem duas folgas a uma, independentemente de qualquer decisão legislativa.
![Escala 5x2 pode mudar o trabalho em supermercados no Brasil]](https://www.em.com.br/emfoco/wp-content/uploads/2026/04/Gemini_Generated_Image_dwwid0dwwid0dwwi-1-750x375.png)



