Arqueólogos egípcios identificaram recentemente 18 tumbas antigas em Marina el-Alamein, cidade costeira às margens do Mar Mediterrâneo, cerca de 100 quilômetros a oeste de Alexandria. As sepulturas datam dos períodos ptolomaico e romano e chamam a atenção pela presença de dezenas de objetos conhecidos como “línguas de ouro”, além de um grande sarcófago de granito, um altar de oferendas e uma estátua inacabada de Afrodite, reforçando o caráter multicultural da região.
O que revelam as tumbas recém-descobertas em Marina el-Alamein
De acordo com o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, 11 túmulos foram escavados em maior profundidade, enquanto outros sete se localizam mais próximos da superfície. Entre os achados estão esqueletos humanos, um grande sarcófago de granito ainda em análise e um altar de oferendas com base esculpida, além de uma estátua incompleta da deusa Afrodite.
Especialistas ressaltam que o sítio confirma Marina el-Alamein como uma comunidade em que tradições egípcias e greco-romanas conviveram intensamente nas práticas funerárias (Dzierzbicka, Missão Arqueológica Polaco-Egípcia em Marina el-Alamein). A localização costeira favorecia contatos comerciais e culturais, o que se reflete diretamente nos rituais de sepultamento.

Como funcionavam as “línguas de ouro” na vida após a morte
As chamadas línguas de ouro são pequenas lâminas douradas encontradas junto às múmias, geralmente colocadas na região da boca. Para os antigos egípcios, o ouro era considerado a “carne dos deuses”, o que conferia a esses amuletos forte valor simbólico ligado à fala e à comunicação no além.
Estudos sobre sepultamentos ptolomaicos e romanos no Egito indicam que essas peças permitiriam que o falecido “falasse” no outro mundo, sobretudo durante o julgamento diante de Osíris ou ao recitar fórmulas sagradas (Hesham Hussein, Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito). Em Marina el-Alamein foram registradas pelo menos 24 dessas línguas, algumas com o Olho de Hórus, reforçando seu papel protetor.
Como a diversidade de amuletos indica mistura religiosa
Nem todos os especialistas interpretam os objetos como línguas propriamente ditas. O arqueólogo Attilio Mastrocinque, da Universidade de Verona, observou que uma das peças se assemelha a uma espiga de trigo, elemento associado à fertilidade e comum em santuários romanos na Europa, sugerindo outras funções rituais.
A diversidade formal dos artefatos reforça a ideia de um cemitério que refletia uma população com referências religiosas múltiplas. Alguns amuletos parecem combinar a função de língua para comunicação com deuses com papéis protetores ou ligados à fertilidade, aproximando práticas egípcias e símbolos típicos do universo romano e helênico.

O que significam o altar, a “porta falsa” e outros elementos do complexo
Entre os achados mais comentados está um altar de oferendas cuja base lembra uma porta falsa, elemento arquitetônico típico do Egito faraônico que funcionava como passagem simbólica entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Pesquisadores destacam que esse motivo pode ter mantido seu valor simbólico, mesmo com alterações de forma.
Outros especialistas, como Krzysztof Jakubiak e Hala Mostafa, sugerem que o altar pode estar inacabado ou representar o hieróglifo de “oferenda”, e não uma porta em sentido estrito. Para organizar melhor essas interpretações e a relação com outros achados, os arqueólogos têm proposto focar em algumas frentes principais de estudo:
- Mapear todos os objetos e estruturas das tumbas, incluindo variações de amuletos.
- Comparar as línguas de ouro de Marina el-Alamein com exemplares de outros sítios.
- Analisar laboratorialmente restos humanos e materiais orgânicos preservados.
- Publicar resultados em estudos revisados por pares para consolidar interpretações.
O que a descoberta revela sobre uma cidade multicultural e por que isso importa hoje
As novas escavações se somam a décadas de pesquisa em Marina el-Alamein e mostram uma comunidade culturalmente diversa, na qual tradições egípcias e greco-romanas se misturavam no cotidiano e nos rituais funerários. As línguas de ouro, os símbolos agrícolas, a possível porta falsa e a estátua de Afrodite ilustram, em pequena escala, esse cenário de convivência religiosa ao longo de quase oito séculos.
Enquanto análises laboratoriais e publicações acadêmicas avançam, o sítio reforça a importância da costa mediterrânea do Egito para entender como culturas distintas se encontram e se transformam. Acompanhar esses resultados agora é crucial: cada novo dado pode reescrever nossa visão sobre identidade, crenças e contato cultural no Mediterrâneo antigo, e você não vai querer ficar para trás nessa descoberta em andamento.




