Uma caverna na costa mediterrânea da Turquia está mudando a forma como cientistas enxergam a relação entre neandertais e humanos modernos. Ferramentas de pedra, restos de animais e pequenas conchas indicam que os dois grupos mantiveram hábitos muito parecidos em épocas diferentes, levantando a possibilidade de uma troca cultural muito mais profunda do que se imaginava.
O que os arqueólogos encontraram na caverna?
As descobertas foram feitas na caverna Üçağızlı II, próxima à fronteira com a Síria. O local funcionava como uma passagem natural entre o Oriente Médio e outras regiões da Eurásia. Ali, pesquisadores encontraram dentes, parte de uma mandíbula, milhares de ferramentas de pedra, ossos de animais e conchas marinhas.
O estudo foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, conhecida como PNAS. A análise mostrou que neandertais ocuparam a caverna entre cerca de 77 mil e 59 mil anos atrás. Depois, grupos de Homo sapiens usaram o mesmo local entre aproximadamente 59 mil e 47 mil anos atrás.

Quais hábitos eram parecidos entre os dois grupos?
Mesmo vivendo na caverna em períodos diferentes, neandertais e humanos modernos deixaram vestígios muito semelhantes. Segundo os pesquisadores, os dois grupos buscavam pedras nas mesmas fontes da região, fabricavam ferramentas parecidas e caçavam animais semelhantes para sobreviver.
- usavam sílex encontrado nas mesmas áreas próximas;
- produziam ferramentas de pedra com técnicas semelhantes;
- caçavam cabras selvagens, veados, corços e javalis;
- levavam pequenas conchas marinhas para dentro da caverna;
- aparentemente usavam algumas conchas como enfeites.
Entre os achados estavam 29 conchas do pequeno molusco Columbella rustica. Algumas possuíam furos que podem ter servido para passá-las por cordões. Uma concha associada à presença neandertal também apresentava sinais de aquecimento proposital, possivelmente para alterar sua cor.
Como os cientistas descobriram a idade dos achados?
A equipe analisou a estrutura interna dos dentes fossilizados para diferenciar restos de neandertais dos pertencentes ao Homo sapiens. Essa identificação foi importante porque os ossos encontrados eram poucos e estavam misturados a diversas camadas de sedimentos acumuladas durante milhares de anos.
Para calcular a idade das ocupações, os pesquisadores utilizaram a luminescência opticamente estimulada. A técnica mede há quanto tempo certos grãos minerais ficaram protegidos da luz do Sol. Com isso, foi possível organizar a sequência de ocupação da caverna e comparar o que cada população deixou para trás.

Os neandertais ensinaram costumes aos humanos modernos?
O estudo não prova que os dois grupos viveram juntos dentro da caverna nem que um ensinou diretamente o outro. A principal hipótese é que populações de neandertais e Homo sapiens que circulavam pela região podem ter mantido contato e compartilhado conhecimentos, preferências e maneiras de usar os recursos locais.
Naoki Morimoto, paleoantropólogo da Universidade de Kyoto e coautor da pesquisa, afirmou que os resultados indicam um nível profundo de interação cultural. Para ele, as semelhanças não parecem envolver apenas adaptação ao mesmo ambiente, mas também possíveis preferências simbólicas compartilhadas.
Por que a descoberta pode mudar a visão sobre os neandertais?
Durante muito tempo, os neandertais foram retratados como menos criativos e mais limitados do que os humanos modernos. Descobertas como a da Turquia reforçam uma visão diferente: eles fabricavam ferramentas, exploravam vários animais e possivelmente escolhiam objetos pelo valor visual ou simbólico.
A pesquisa ainda não encerra o mistério sobre a relação entre as duas populações, mas mostra que a história humana pode ter sido muito mais conectada. Novas escavações poderão revelar como ideias circularam entre grupos diferentes. Cada camada retirada da caverna pode ajudar a reconstruir uma parte esquecida da origem de nossa própria cultura.




