A quase 5.000 metros abaixo da superfície do Atlântico Sul, onde a luz do Sol não chega, cientistas encontraram algo invisível a olho nu: fragmentos de DNA preservados na lama por até 32,5 mil anos. O estudo, publicado em 2013 na revista científica Biology Letters e que voltou a ganhar atenção, mostrou que o fundo do oceano funciona como um enorme arquivo da vida antiga.
O que os cientistas encontraram no fundo do oceano?
Os pesquisadores analisaram quatro colunas de sedimentos retiradas de áreas abissais do Atlântico Sul. Essas amostras funcionam como uma espécie de bolo em camadas: a lama mais próxima da superfície é mais recente, enquanto as partes mais profundas guardam materiais acumulados ao longo de milhares de anos.
Dentro dessas camadas, a equipe encontrou fragmentos de DNA de organismos eucarióticos, principalmente foraminíferos e radiolários. Esses seres possuem apenas uma célula e fazem parte da vida microscópica dos oceanos. Alguns produzem pequenas estruturas minerais que viram fósseis, mas muitos desaparecem sem deixar marcas visíveis.

Por que o DNA revelou algo que os fósseis não mostravam?
O estudo, liderado por pesquisadores ligados à Universidade de Genebra e publicado na Biology Letters, comparou o material genético com os microfósseis presentes nos mesmos sedimentos. O resultado mostrou que grande parte do DNA pertencia a grupos que não apareciam com clareza no registro fóssil tradicional.
- o DNA alcançou organismos que não formam estruturas resistentes;
- algumas sequências não correspondiam bem aos registros disponíveis;
- as camadas guardavam sinais de diferentes períodos do oceano;
- o método revelou uma biodiversidade maior do que a vista nos fósseis.
Isso não significa que cada sequência represente uma espécie nova. Em muitos casos, o material pode pertencer a linhagens pouco estudadas ou ausentes dos bancos genéticos. Mesmo assim, a descoberta amplia a visão sobre o passado, porque mostra seres que poderiam permanecer invisíveis caso os cientistas dependessem apenas de conchas e carapaças.
Como o DNA conseguiu sobreviver por milhares de anos?
O fundo do oceano reúne condições que podem diminuir a velocidade de degradação do material genético. A água é muito fria, não há luz solar e as camadas de sedimento permanecem relativamente estáveis. A lama também pode ajudar a proteger pequenos fragmentos contra parte da ação do ambiente.
Esse material é chamado de DNA ambiental, ou eDNA. Segundo a NOAA, agência dos Estados Unidos voltada aos oceanos e à atmosfera, ele é formado por vestígios liberados pelos organismos, como células, tecidos, muco e resíduos. Quando fica preso em sedimentos antigos, pode ajudar a reconstruir ecossistemas que já desapareceram.

O que essa descoberta pode revelar sobre o passado?
Uma revisão publicada em 2023 na revista Frontiers in Marine Science destacou que o DNA antigo dos sedimentos pode ampliar o estudo da história dos oceanos. A técnica permite acompanhar mudanças na biodiversidade e comparar quais grupos viveram em diferentes períodos, inclusive aqueles que quase nunca deixam fósseis.
Os pesquisadores também podem relacionar essas mudanças a alterações na temperatura, nas correntes e na composição do ambiente marinho. O método ainda possui limitações, porque o DNA antigo costuma estar quebrado e pode sofrer contaminação. Por isso, os resultados precisam ser comparados com fósseis, dados químicos e outras evidências.
Por que estudar a lama do oceano se tornou tão importante?
A descoberta mostra que regiões aparentemente vazias podem guardar informações valiosas sobre milhares de anos de vida marinha. Hoje, técnicas de DNA complementam câmeras, robôs, perfurações e análises microscópicas. Elas ajudam a detectar organismos que dificilmente seriam vistos ou capturados pelos métodos tradicionais.
Antes de modificar grandes áreas do fundo do mar, é essencial entender o que existe nelas e quais histórias permanecem escondidas. A lama escura do Atlântico Sul revelou que ainda conhecemos apenas uma parte da biodiversidade oceânica. Proteger e estudar esses ambientes agora pode evitar que espécies e informações desapareçam antes mesmo de serem descobertas.




