A cidade catarinense mais fria do Brasil não teme o inverno. Urupema, na Serra Catarinense, já registrou sensação térmica de -29°C, tem em média cinco nevadas por ano e ostenta desde 2021 o título de Capital Nacional do Frio, confirmado pelas estações da Epagri/Ciram. A 210 quilômetros de Florianópolis, o que o visitante encontra não é só um lugar gelado: é um destino onde o frio virou história, gastronomia, vinho, medicina popular e uma cascata que se transforma em estalactites de gelo com poucos graus abaixo de zero.
Como o frio se tornou a identidade cultural de Urupema?
A cidade nasceu de um fazendeiro chamado Manuel Pereira de Medeiros, que se estabeleceu na região de Santana e, antes de morrer em 1902, desejou construir uma vila em sua fazenda. Em 1917, seus filhos cumpriram o desejo durante uma reunião em homenagem a Sant’Ana e decidiram erguer uma igreja. Ali nasceu a Vila Santana, que virou Urupema em 1943 e ganhou emancipação política em 1988.
A memória desse percurso está preservada na Casa de Cultura, que reúne acervos sobre os açorianos, a cultura tropeira, os imigrantes italianos e os povos originários que formaram a identidade local. O frio sempre fez parte dessa história, mas só ganhou título oficial pela Lei 14.255 de novembro de 2021, segundo o Wikipedia, depois que os dados da Epagri/Ciram confirmaram as menores temperaturas do país.

O que é possível ver e fazer na Serra Catarinense de Urupema?
O roteiro mais procurado no inverno começa pela cascata de 14 metros a 1.540 metros de altitude, que congela quando as temperaturas caem entre -4°C e -10°C. O fenômeno forma estalactites de gelo, cristais ao redor da queda d’água e um fino filete de água corrente no centro, podendo durar até uma semana. O Morro das Antenas, ponto mais alto da cidade a 1.725 metros, permite ver até sete municípios em dia de céu limpo e já registrou -22°C de sensação térmica.
O Morro das Antenas, ponto mais alto da cidade a 1.725 metros, permite ver até sete municípios em dia de céu limpo e já registrou -22°C de sensação térmica. Na zona rural, a Pousada Rota das Cachoeiras reúne três cachoeiras dentro da propriedade, xaxins centenários e a Estrada Velha, patrimônio histórico em processo de tornar-se rota cênica oficial, com araucárias, erva-mate e observação do papagaio-charão.
Como Urupema transformou plantas medicinais em política pública?
A Farmácia Municipal de Fitoterápicos, mantida pela Secretaria de Saúde em parceria com a de Agricultura, produz e distribui gratuitamente chás, xaropes, pomadas, tinturas e sabonetes seguindo normas semelhantes às de uma farmácia de manipulação. No inverno, quando as gripes se multiplicam, o estoque atende boa parte da população local.
Entre os produtos disponíveis estão o xarope composto com 12 a 14 ervas, a pomada de tanchagem com ação cicatrizante e anti-inflamatória e a tintura de boldo para problemas digestivos. Plantas como cavalinha, marcela, lípia e alfavaca são processadas localmente, e o projeto é apresentado como modelo de acesso à saúde complementar em município de pequeno porte.
No vídeo abaixo do canal @BoaSorteViajante, você pode conhecer ainda mais sobre essa cidade incrível:
Quais são os sabores que definem a gastronomia local?
O prato mais representativo da Serra Catarinense em Urupema é o entrevero de pinhão, feito com bacon, carnes bovina, suína e de frango, calabresa, cebola, pimentões e pinhão como ingrediente central. O pinhão aparece também em receitas que vão da paçoca à lasanha, refletindo como o ingrediente típico do outono e inverno se integra à cozinha local, conforme descreve o Rio Times Online ao contextualizar a economia de altitude da região.
Outras receitas com pinhão que fazem parte da cultura gastronômica local:
- Paçoca de pinhão, típica das festas juninas da região
- Lasanha de pinhão, versão incomum do prato clássico italiano
- Bolo e panqueca com pinhão como base da massa
- Coxinha de pinhão e pinhão assado na chapa como entrada

A Vinícola Gáudio, fundada em 2022 pelo casal Thaí e Paulo Gáudio, complementa o quadro com vinhos de altitude moldados por invernos rigorosos, grande variação térmica e estações bem definidas, que resultam em acidez elevada e aromas intensos. A cidade também integra uma das principais regiões produtoras de maçã do Brasil, com cooperativa de 35 associados e produção estimada em 3 mil toneladas por safra.
Vale fazer a viagem até Urupema no inverno?
Vale, especialmente se você busca um destino onde cada atração está ligada ao clima e não apenas colada nele. A cascata congelada, o frio que exige casaco pesado mesmo de dia, o entrevero quente e o vinho da altitude são experiências que fazem sentido juntas e que raramente se encontram com essa coerência em outro lugar do país.
Urupema recebe visitantes o ano inteiro, mas o inverno é a temporada em que a cidade se mostra completa. Planeje a viagem entre junho e agosto, confira a previsão de temperaturas negativas nos dias anteriores e reserve com antecedência. Quem chega esperando frio vai embalar flores, sabores e paisagens que só o inverno catarinense consegue reunir num lugar só.




