A frase saiu da boca de Moritz Schularick, presidente do Instituto Kiel para a Economia Mundial, em entrevista à Süddeutsche Zeitung publicada em julho de 2026: “A VW provavelmente será comprada por um fabricante chinês de automóveis. Algo como a BYD.” A Volkswagen descartou o comentário como “especulação infundada”, mas os dados de mercado contam uma história diferente. Entre 2018 e 2025, as vendas da montadora na China caíram de 4,21 milhões para 2,69 milhões de veículos. No mesmo período, as exportações chinesas de automóveis saltaram de 1,09 milhão para 9,42 milhões de unidades. O choque de realidade chegou a Wolfsburg.
Por que a Volkswagen entrou em crise tão profunda?
A crise da VW não aconteceu da noite para o dia. O modelo de negócio que funcionou por décadas, desenvolver carros na Alemanha, produzir na Europa e exportar para o mundo, deixou de ser competitivo em velocidade e custo diante da ascensão das montadoras chinesas. Em 2025, a margem operacional do grupo caiu para apenas 3%, metade do patamar de anos anteriores, e uma pesquisa interna citada pelo Manager Magazin revelou que o próprio conselho de administração considera a existência da empresa ameaçada.
O CEO Oliver Blume prepara um plano de reestruturação que, segundo relatórios de julho de 2026, inclui medidas sem precedentes na história da empresa. Os pontos centrais em discussão são:
- Corte de até 100.000 empregos, cerca de 15% da força de trabalho global
- Fechamento de quatro fábricas alemãs: Hannover, Zwickau, Emden e Audi Neckarsulm
- Redução do portfólio de modelos de 150 para menos de 100 veículos
- Possível cisão da marca Volkswagen do restante do grupo

Quem é a BYD e por que o nome aparece nessa disputa?
A BYD é hoje a maior fabricante de veículos elétricos do mundo por volume de vendas. Fundada em 1995 em Shenzhen, passou de fabricante de baterias a rival das maiores marcas ocidentais. Em 2026, registrou crescimento de 318% nas vendas na Alemanha, com 26.264 veículos e 1,77% de participação de mercado no país sede da própria VW.
O economista Niall Ferguson, da Universidade Stanford, é igualmente direto: o modelo de exportações automotivas europeias está “morrendo”. Sem mudança radical, os europeus passarão a dirigir em massa carros fabricados na China. Ambos deixam claro que se trata de análise prospectiva, não de anúncio de negociação.
Uma aquisição da VW pela BYD seria juridicamente possível?
Na prática, a estrutura acionária da Volkswagen cria barreiras robustas contra qualquer aquisição hostil. A Porsche Automobil Holding SE, controlada pelas famílias Porsche e Piëch, detém 53,3% dos direitos de voto no grupo. Além disso, a legislação alemã conhecida como Lei VW garante ao estado da Baixa Saxônia poder de veto em decisões estratégicas. Sem o consentimento dessas duas forças, nenhuma aquisição se concretiza.
A análise da revista Auto Motor und Sport conclui que o cenário de aquisição, nas condições atuais, é “não realista”. A tese de Schularick funciona mais como diagnóstico da fragilidade industrial europeia do que como previsão operacional de uma transação de mercado.

O que os dados revelam sobre a virada de poder no setor automotivo?
Os números do setor mostram uma inversão histórica. A tabela abaixo compara a evolução das exportações automotivas da Alemanha e da China entre 2018 e 2026, ilustrando a mudança de posição das duas potências industriais:
| País | 2018 | 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 4,69 milhões | 3,48 milhões | -26% |
| China | 1,09 milhão | 9,42 milhões | +764% |
O que está em jogo vai muito além da Volkswagen?
Schularick e Ferguson convergem em um diagnóstico que vai muito além de uma única montadora. Os riscos identificados por ambos para a Europa incluem:
- Perda de autonomia tecnológica em setores estratégicos como mobilidade elétrica e semicondutores
- Desindustrialização progressiva com migração de empregos para China e Estados Unidos
- Dependência crescente de fornecedores asiáticos para componentes críticos de veículos
Schularick e Ferguson convergem em um ponto que ultrapassa a crise da VW: o risco de desindustrialização da Europa. Enquanto China e Estados Unidos avançam em tecnologia e escala, o continente europeu enfrenta o dilema de como manter autonomia industrial sem protecionismo excessivo. Schularick defende que a Europa use o acesso ao seu grande mercado consumidor como moeda de troca para exigir produção local de fabricantes estrangeiros, incluindo chineses. Sem isso, o cenário descrito por Ferguson, europeus dirigindo BYDs em massa, pode se tornar realidade antes do esperado.
A frase de um economista sobre a possível compra da Volkswagen pela BYD não é apenas provocação acadêmica. É um sinal de que as certezas industriais do século XX estão sendo reescritas em tempo real. Se você acompanha o mercado automotivo ou investe no setor, este é o momento de prestar atenção no que os dados já mostram com clareza.




