Duas pessoas sentadas lado a lado, no mesmo ambiente, com o termômetro marcando a mesma temperatura, podem ter percepções completamente opostas. Uma pede para fechar a janela enquanto a outra está confortável. Por que algumas pessoas sentem mais frio não é questão de fraqueza nem de drama, é fisiologia com explicação científica detalhada.
Onde fica o termostato do corpo humano e como ele funciona?
O centro de controle térmico humano é o hipotálamo, estrutura do cérebro que recebe sinais dos termorreceptores distribuídos pela pele e nos órgãos internos. Ele comanda respostas como tremor, vasoconstrição e arrepio para manter a temperatura interna estável em torno de 36,5 °C. Os termorreceptores cutâneos são os primeiros a detectar a queda de temperatura, e a quantidade desses sensores varia entre pessoas.
Segundo Joachim Latsch, especialista em medicina esportiva da Faculdade de Esportes de Colônia, quem tem mais sensores concentrados em regiões como orelhas, mãos e pés sente o frio mais precocemente nessas áreas. “Assim como cada pessoa tem o pé de um tamanho, alguns de nós têm mais desses sensores, outros, menos”, explica o especialista. Isso significa que a sensação térmica é, em parte, anatomicamente determinada, independentemente da temperatura real do ambiente.

Por que a massa muscular faz tanta diferença na sensação de frio?
O músculo esquelético é o maior produtor de calor do corpo humano em repouso, responsável por até 40% da produção total de calor basal, segundo dados da fisiologia da termorregulação. Quando a temperatura cai, o tremor muscular aumenta a geração de calor em até cinco vezes. Quanto maior a massa muscular, maior a capacidade do organismo de se autossustentar termicamente.
Esse é um dos motivos pelos quais, em média, homens sentem menos frio que mulheres: a massa muscular representa cerca de 45% da composição corporal masculina contra 25% na feminina. A solução não está em comer para engordar, como aponta Latsch: “Movimentar-se sim.” O exercício regular aumenta a massa muscular e, consequentemente, a produção basal de calor do organismo.
A diferença entre homens e mulheres na sensação de frio tem base científica?
Sim, e os dados científicos confirmam essa diferença. Um estudo publicado no PNAS em 2024 mostrou que mulheres possuem uma zona termoneutra com limite inferior cerca de 1 °C mais baixo que o dos homens (21,9 °C contra 22,9 °C). Os pesquisadores descreveram esse padrão como um “perfil ártico”, no qual mulheres entram em modo de conservação de calor em temperaturas ligeiramente menores.
A principal explicação não foi o sexo em si, mas a maior proporção de gordura corporal, que atua como isolante térmico e reduz a necessidade de tremor. Além disso, uma revisão publicada no Physiology & Behavior em 2023 apontou que diferenças na resposta vasomotora ao frio também contribuem para uma percepção térmica distinta entre homens e mulheres, independentemente da composição corporal.
Quais doenças podem explicar intolerância excessiva ao frio?
Em alguns casos, sentir muito frio não é característica individual, é sintoma. As causas mais comuns identificadas pela literatura médica são:
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Como a gordura corporal e o envelhecimento influenciam a sensação de frio?
A gordura subcutânea atua como isolante térmico, reduzindo a perda de calor para o ambiente, mas não produz calor. Assim, pessoas com mais gordura corporal tendem a perder calor mais lentamente, embora não necessariamente sintam mais calor. Segundo Latsch, a diferença costuma ser pequena, de apenas um ou dois graus. Já o tecido adiposo marrom pode gerar calor por meio da termogênese sem tremor, mas sua quantidade varia entre indivíduos e diminui com a idade.
Com o envelhecimento, a termorregulação torna-se menos eficiente: a percepção do frio diminui, o tremor perde eficácia e a vasoconstrição ocorre mais lentamente. Isso aumenta o risco de hipotermia em idosos. Por outro lado, a exposição gradual ao frio pode promover aclimatação, estimulando o tecido adiposo marrom e aumentando a tolerância ao frio, segundo estudo publicado no PMC/NIH.
Quando a sensação de muito frio deve ser investigada por um médico?
A maioria das variações na sensação térmica é fisiológica e não exige atenção médica. Mas quando o frio excessivo aparece de forma nova, persistente ou acompanhada de outros sintomas como cansaço, queda de cabelo, ganho de peso inexplicado ou extremidades muito pálidas, pode indicar hipotireoidismo, anemia ou distúrbio circulatório que responde bem a tratamento.
O raciocínio é direto: se a intolerância ao frio mudou de intensidade sem mudança de clima ou hábitos, vale investigar. Exames simples de sangue como TSH, hemograma completo e glicemia já cobrem as causas mais comuns. O conteúdo deste artigo é informativo e não substitui avaliação médica individualizada.




