Em edifícios modernos, o controle da umidade interna costuma depender de aparelhos elétricos que funcionam sem interrupção. Pesquisas recentes na ETH Zurich, na Suíça, apontam um caminho diferente: um material para paredes e tetos que ajuda a secar o ar de forma passiva, sem fios, motores ou consumo direto de energia, atuando como reservatório temporário de vapor de água em momentos de maior uso dos espaços.
Como funciona a desumidificação passiva em paredes e tetos?
A tecnologia estudada na ETH Zurich se apoia em módulos rígidos e porosos, fixados diretamente nas superfícies internas. Esses componentes são materiais inteligentes, desenhados para trocar umidade com o ar, retendo água nos poros quando a concentração de vapor aumenta e liberando-a quando o ambiente é ventilado ou fica mais seco.
O princípio de funcionamento é semelhante ao de materiais higroscópicos usados em controle de umidade de embalagens, mas adaptado à escala arquitetônica. Em vez de pequenos sachês, o edifício passa a contar com grandes superfícies ativas que suavizam picos de umidade, favorecendo o conforto térmico e a qualidade do ar interno.

O que torna esse revestimento ecológico e sustentável?
Um diferencial importante desse revestimento ecológico está na origem da matéria-prima, baseada em resíduos de mármore na forma de pó fino de pedreiras e indústrias de rochas ornamentais. Em vez de seguir para descarte, esse material é incorporado a uma nova cadeia produtiva alinhada à economia circular e à construção sustentável.
Para transformar o pó em peças sólidas, é empregado um ligante geopolimérico à base de metacaulim combinado com solução alcalina de silicato de potássio e água. Geopolímeros tendem a demandar menos energia e gerar menos emissões que o cimento Portland, ao mesmo tempo em que permitem uma microestrutura com muitos poros conectados para o armazenamento temporário de umidade interna.
Como a impressão 3D na construção contribui para esse material?
A fabricação dos módulos faz uso de impressão 3D na construção, por meio de um processo de jato de aglutinante. Finas camadas de pó são espalhadas sucessivamente, e o ligante líquido é aplicado apenas nas regiões definidas por um modelo digital, formando após a cura uma peça sólida com desenho interno otimizado para troca de umidade.
Essa abordagem permite criar elementos com geometrias difíceis de obter por moldagem convencional, como cavidades, canais e superfícies curvas. Protótipos de cerca de 20 x 20 centímetros ilustram peças modulares combináveis em painéis maiores, adaptados a diferentes ambientes e metas de arquitetura sustentável.
Esse sistema de desumidificação passiva funciona na prática?
Para avaliar o potencial de aplicação, pesquisadores modelaram o uso do revestimento em uma sala de leitura de biblioteca pública, em condições típicas de ocupação. Nas simulações, paredes e teto revestidos com módulos de cerca de 4 centímetros de espessura reduziram de forma significativa indicadores de desconforto relacionados à umidade em comparação a superfícies convencionais.
Ao aumentar a espessura para 5 centímetros, o desempenho foi ainda melhor, indicando maior capacidade de armazenamento de água com o aumento do volume ativo. Assim, o dimensionamento pode ser ajustado conforme número de usuários, taxa de renovação de ar e exigências de conservação de acervo em cada projeto.

Quais são os principais ganhos ambientais e energéticos?
Além de atuar diretamente no microclima, o revestimento contribui para a eficiência energética dos edifícios ao longo de décadas de operação. Em análises de ciclo de vida de 30 anos, a combinação entre desumidificação passiva, uso de resíduos de mármore e ligantes geopoliméricos apresenta emissões menores que soluções centradas apenas em desumidificadores elétricos.
Entre os benefícios que reforçam seu potencial para apoiar metas climáticas de 2030 e 2050, destacam-se:
- Ausência de consumo direto de eletricidade durante a operação do material;
- Aproveitamento de resíduos já existentes como matéria-prima principal;
- Redução da carga sobre sistemas de climatização e desumidificação mecânica;
- Uso de geopolímeros com menor pegada de carbono em comparação a ligantes convencionais.
Onde o revestimento ecológico pode ser mais útil?
Os cenários mais promissores para esse tipo de material inteligente são espaços fechados com alta sensibilidade à variação de umidade. Nesses locais, o material complementa estratégias de ventilação natural, exaustores e climatização mecânica, reduzindo a amplitude das variações de umidade, mas sem substituir totalmente sistemas ativos em climas muito úmidos.
Alguns exemplos frequentemente considerados em estudos incluem bibliotecas, museus, salas de reunião e áreas de espera em prédios públicos ou de saúde. Edifícios institucionais com metas rigorosas de arquitetura sustentável também se beneficiam, integrando o revestimento a projetos de conforto ambiental e preservação de acervos sensíveis.
Quais desafios ainda precisam ser superados para o uso em larga escala?
Para que esse revestimento ecológico passe da etapa experimental à aplicação rotineira, são necessários estudos adicionais sobre resistência mecânica, comportamento ao fogo e compatibilidade com diferentes substratos. Também é preciso avaliar a viabilidade econômica da produção em grande escala via impressão 3D na construção.
Entram ainda na pauta a facilidade de instalação, a manutenção periódica e a eventual substituição de módulos ao longo da vida útil do edifício. Mesmo com esses desafios, a tecnologia aponta uma tendência de materiais de acabamento que, além de função estética, contribuem ativamente para o controle da umidade interna, o conforto ambiental e a redução de impactos climáticos dos prédios.




