Uma vinícola em construção no interior da Espanha tem chamado atenção por reunir pesquisa agrícola, inovação em materiais e arquitetura de baixo impacto ambiental. Localizada em Zayas de Báscones, na região de Castela, a Bodega Dominio d’Echauz foi pensada para funcionar ao mesmo tempo como unidade de produção, centro de estudos e espaço de preservação de uvas nativas. A proposta se apoia em uma tecnologia ainda pouco comum no setor: uma vinícola com hempcrete, material que combina fibras de cânhamo, cal e água, articulando eficiência térmica, pesquisa e valorização da paisagem rural.
O que diferencia uma vinícola com hempcrete das construções tradicionais?
O grande diferencial do projeto está na adoção de blocos de hempcrete como elemento principal das paredes. Esse biocompósito de cânhamo, cal e água vem ganhando espaço na arquitetura sustentável por proporcionar bom isolamento térmico, baixa densidade e capacidade de regular a umidade interna, fatores cruciais para o ambiente de produção de vinhos.
Em uma vinícola, essas características têm impacto direto na estabilidade de temperatura e no controle de variações bruscas, essenciais para fermentação, maturação e guarda. Ao diminuir a dependência de climatização artificial, a vinícola sustentável tende a consumir menos energia ao longo da sua vida útil, reduzindo custos operacionais e a pegada ambiental da construção.

Como a arquitetura da vinícola se integra ao campo e à paisagem rural?
Projetado pelo escritório Fran Silvestre Arquitectos, o edifício foi desenhado para se integrar ao campo em vez de competir com ele. Em vez de grandes volumes retos e pesados, a construção assume linhas suaves, brancas e curvas, acompanhando a topografia e o desenho dos vinhedos, como se emergisse do solo agrícola.
Essa estratégia reforça a ligação entre o ambiente construído, a produção de vinho e a paisagem rural que a sustenta. A implantação respeita vistas, percursos e ventos predominantes, aproximando o projeto da chamada arquitetura de baixo impacto, que busca minimizar interferências físicas e visuais no território agrícola.
Como o hempcrete, a cortiça e o desenho bioclimático garantem eficiência térmica?
Além dos blocos de cânhamo, o edifício recebe um revestimento isolante à base de cortiça, conhecido como Diathonite. Essa camada adicional atua como barreira térmica e regulador de umidade, ampliando o desempenho do hempcrete e contribuindo para manter condições estáveis nas áreas de fermentação e guarda.
A cor branca do acabamento ajuda a refletir parte da radiação solar e reduzir o superaquecimento das fachadas no verão. O conjunto de hempcrete, cortiça e forma arquitetônica cria um envelope construtivo bioclimático, que prioriza conforto interno sem depender apenas de sistemas mecânicos, o que é especialmente relevante em regiões com verões intensos e invernos frios.
Quais benefícios ambientais o uso de materiais naturais oferece à construção?
Do ponto de vista ambiental, o uso de materiais naturais como cânhamo, cal e cortiça substitui componentes convencionais associados a emissões mais elevadas e maior presença de substâncias potencialmente tóxicas. O cânhamo se destaca pela capacidade de absorver dióxido de carbono durante o cultivo, contribuindo para o balanço de carbono do edifício.
Quando transformado em biocompósito de cânhamo, parte desse carbono permanece armazenado na edificação, o que torna a construção com cânhamo uma alternativa interessante para projetos que buscam reduzir emissões ao longo do ciclo de vida. Essa abordagem apoia metas de descarbonização no setor da construção e incentiva cadeias produtivas agrícolas mais diversificadas.
De que forma a Bodega Dominio d’Echauz preserva variedades de uvas nativas?
O caráter inovador da Bodega Dominio d’Echauz não se limita ao envelope arquitetônico. O interior do prédio foi organizado para favorecer a microvinificação: pequenos lotes de uvas são vinificados separadamente, permitindo o estudo detalhado de comportamento, aroma, textura e resistência de cada variedade, com foco em castas locais.
Em parceria com a Vitis Navarra, a vinícola opera como um arquivo vivo de variedades de uvas nativas. Para orientar produtores e pesquisadores, o projeto desenvolve linhas de ação complementares, que conectam pesquisa, campo e tomada de decisão:
- Estudo de castas locais com potencial enológico ainda pouco explorado;
- Avaliação de resistência natural a calor e escassez hídrica;
- Registro e preservação de material genético ameaçado;
- Integração entre pesquisa científica e produção em pequena escala.

Como a organização interna da vinícola favorece o fluxo produtivo e a pesquisa?
Por dentro, o edifício acompanha a sequência lógica da produção: áreas de recepção das uvas, espaços de fermentação, salas para maturação em barricas, setor de engarrafamento e ambientes de armazenamento. Esse traçado linear reduz deslocamentos desnecessários, otimiza o controle sobre cada etapa e facilita a implementação de protocolos de qualidade.
A organização interna também inclui salas de pesquisa, ambientes de reunião e zonas de degustação, transformando a vinícola com hempcrete em ponto de encontro entre técnicos, produtores e especialistas. Assim, a arquitetura atua como infraestrutura para difusão de conhecimento em viticultura sustentável e para o fortalecimento da rede produtiva local.
Como o caso espanhol pode inspirar outros projetos de arquitetura sustentável?
A combinação entre arquitetura sustentável e preservação agrícola aproxima o projeto da arquitetura regenerativa, que busca não apenas diminuir impactos, mas também apoiar a recuperação de ecossistemas e saberes locais. Ao dialogar com a topografia, usar materiais naturais e abrigar pesquisas em biodiversidade, a Bodega Dominio d’Echauz se torna referência para empreendimentos rurais que desejam unir produção econômica e cuidado ambiental.
O caso espanhol indica que a adoção de blocos de cânhamo em edificações rurais e urbanas pode abrir caminho para uma nova geração de edifícios, com aplicações variadas ao redor do mundo:
- Aplicação de hempcrete em residências com alta eficiência térmica;
- Uso de cortiça na construção de escolas e centros comunitários;
- Projetos de escritórios com blocos de cânhamo para reduzir consumo de energia;
- Adaptação de vinícolas existentes com revestimentos naturais e melhoria de desempenho climático.




