Direto ao ponto
As montadoras, especialmente nos veículos elétricos, estão substituindo o pneu sobressalente por um kit de espuma e compressor. A justificativa é liberar espaço para as baterias e reduzir o peso do veículo, garantindo alguns quilômetros a mais de autonomia.
O selante funciona apenas para furos pequenos causados por pregos. Em caso de rasgos ou buracos maiores, a espuma vaza, não consegue inflar o pneu e ainda endurece lá dentro, inutilizando a borracha de vez e forçando a compra de um pneu novo.
Se o dano for visivelmente grande, acione a assistência do seguro imediatamente antes de injetar o selante. Para quem viaja com frequência, a solução definitiva é adquirir um estepe fino de emergência (“step-down”) separadamente para levar no porta-malas.
Era uma viagem de fim de semana. O Skoda Enyaq rodava silencioso pela rodovia australiana quando o volante começou a puxar levemente para a direita. O motorista reduziu a velocidade, encostou no acostamento e confirmou o que já suspeitava: pneu traseiro direito completamente murcho. O problema real veio a seguir, quando ele abriu o porta-malas em busca do estepe. Não havia nada lá. Apenas um kit de reparo com espuma e um compressor portátil. Era isso. O relato, publicado pelo portal australiano Drive.com.au, expõe um dilema que afeta cada vez mais motoristas no mundo inteiro: a maioria dos carros modernos, especialmente os elétricos, não vem com estepe de verdade.
O que aconteceu quando o Enyaq furou e como o kit de reparo foi insuficiente?
O kit de emergência do Enyaq, como o da maioria dos veículos modernos, consiste num frasco de espuma selante e um compressor de 12V. A ideia é simples: injetar a espuma no pneu pelo bico de válvula, inflar com o compressor e seguir em frente. Na teoria, funciona para furos pequenos, daqueles causados por pregos ou parafusos. Na prática, há uma sequência de problemas que o relato descreve com clareza.
O furo era grande demais para a espuma selar. O compressor inflou o pneu parcialmente, mas o ar escapou antes mesmo de o motorista completar 200 metros. A espuma que entrou no pneu inutilizou-o definitivamente para qualquer tentativa de reparo posterior: o borracheiro que atendeu à chamada da assistência técnica foi direto ao ponto ao ver o pneu cheio de selante endurecido. Pneu descartado, novo pneu necessário, horas de espera na beira da estrada australiana. “Preferia ter trocado o pneu eu mesmo em dez minutos”, disse o motorista ao final da história.

Por que a maioria dos carros elétricos não tem estepe e qual é o argumento das montadoras?
A ausência de estepe nos carros modernos, especialmente nos elétricos, não é descuido: é uma decisão deliberada das montadoras baseada em três argumentos. O primeiro é o peso: num carro elétrico, cada quilograma extra consome bateria. Um estepe step-down de emergência pesa entre 10 e 15 kg, o que reduz de forma mensurável a autonomia real do veículo. O segundo é o espaço: o compartimento sob o assoalho do porta-malas, que nos carros a combustão abrigaria o estepe, é ocupado, nos elétricos, pelos sistemas de carregamento ou pela estrutura da bateria.
O terceiro argumento é estatístico: furos de pneu são eventos relativamente raros, e as montadoras calculam que o custo de incluir um estepe (peso, espaço, custo de produção) supera o benefício para a maioria dos clientes. A RAC britânica, contudo, reportou que as chamadas por furo de pneu aumentaram 35% nos últimos quatro anos, coincidindo exatamente com o período em que a indústria migrou de estepe completo para kits de espuma.
O kit de espuma resolve o problema ou é apenas um recurso de marketing para substituir algo que deveria estar lá?
A resposta honesta é: resolve em casos específicos e falha em outros. Os kits de espuma selante funcionam adequadamente para furos causados por objetos pontiagudos de até 6 mm de diâmetro na área central da banda de rodagem. Furos maiores, cortes na lateral do pneu, danos causados por buracos ou bordas de meio-fio não são selados pela espuma. E, uma vez que a espuma é usada, o pneu está comprometido para reparo futuro: a maioria dos borracheiros se recusa a trabalhar com pneus contaminados pelo selante.
Há ainda a questão dos pneus run-flat, que algumas montadoras usam como solução alternativa ao estepe. Esses pneus têm reforço lateral que permite rodar por até 80 km a 80 km/h, mesmo completamente murchos São mais caros, menos confortáveis e, quando sofrem dano estrutural severo, precisam ser substituídos imediatamente, mesmo que ainda pareçam inflar. O Enyaq da história não tinha run-flats. Tinha apenas a espuma.

O que fazer se você tiver um pneu furado num carro elétrico sem estepe?
A sequência de ações que minimiza danos e tempo perdido é:
- Encoste imediatamente e avalie o dano antes de usar o kit de espuma: a espuma é um recurso de última instância para furos pequenos. Usá-la em danos maiores só vai contaminar o pneu sem resolver o problema. Se houver um objeto visível no pneu, não o retire antes de avaliar o tamanho do furo.
- Ative a assistência técnica da montadora ou do seguro: praticamente todos os carros elétricos novos incluem assistência 24 horas por pelo menos 5 anos. Para o Enyaq no Brasil, a Skoda Brasil oferece assistência emergencial. Verifique o número no manual antes de precisar.
- Nunca dirija num EV com pneu murcho sem run-flat: a bateria dos carros elétricos tem peso muito acima da média dos carros à combustão. A pressão sobre a roda e o aro com o pneu murcho é maior, e o dano à roda ou ao sistema de suspensão pode ser significativo em poucos metros.
- Considere comprar um estepe step-down de emergência: existem opções no mercado australiano e europeu (e crescente oferta no Brasil) de rodas de emergência compatíveis com o Enyaq e outros elétricos, que ficam no porta-malas e não comprometem significativamente a autonomia em uso cotidiano.
Comprar um estepe separado para o carro elétrico vale a pena ou é exagero?
Para quem faz viagens longas ou roda com frequência em estradas com pouca assistência, a resposta é sim. No Brasil, rodovias como a Fernão Dias, a BR-101 e trechos isolados do Sul e do Nordeste têm pontos em que a espera por assistência técnica pode superar duas horas. Ter um estepe step-down de emergência no porta-malas de um elétrico pode significar a diferença entre um inconveniente de 15 minutos e uma noite parado na estrada.
O motorista do Enyaq australiano encerrou seu relato com uma conclusão simples: comprou um estepe de emergência na semana seguinte. Disse que o kit de espuma foi para o fundo da garagem e que nunca mais vai sair de casa para uma viagem sem uma roda sobressalente. A autonomia perdeu dois quilômetros de alcance com o peso extra. Ele não se importou nem um pouco. Compartilhe com quem tem carro elétrico ou moderno sem estepe e ainda não sabe o que o kit de espuma consegue e o que não consegue resolver.




