Uma das maiores redes de supermercados e atacarejo do país entrou em uma nova fase. O Grupo Mateus fechou 28 lojas e reduziu o quadro em cerca de 6,6 mil funcionários entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026, em um movimento comunicado ao mercado em maio. Diferentemente do que sugerem manchetes alarmistas, não se trata de uma quebra: a empresa segue lucrativa e o corte faz parte de uma virada de estratégia depois de anos de expansão acelerada.
O que foi anunciado?
Após abrir capital na Bolsa e crescer rapidamente, especialmente no Norte e Nordeste, o Grupo Mateus decidiu priorizar rentabilidade e eficiência das operações já existentes em vez de continuar abrindo unidades. Na prática, isso significou encerrar lojas menos rentáveis e enxugar a folha.
O número de colaboradores caiu de cerca de 47,9 mil para 41,2 mil em um ano — uma redução de aproximadamente 14% da força de trabalho.
Quais estados foram afetados?
Ao contrário do que algumas manchetes prometem, não há uma lista de cidades divulgada pela empresa. Os fechamentos se concentraram em seis estados das regiões Norte e Nordeste:
- Maranhão
- Pará
- Piauí
- Ceará
- Sergipe
- Bahia

A empresa está em crise?
Não. Os fechamentos não refletem queda de faturamento. O Grupo Mateus registrou receita bruta de R$ 43,5 bilhões em 2025. No primeiro trimestre de 2026, teve lucro bruto de cerca de R$ 2,15 bilhões, com margem bruta de 22,9%.
Vale, porém, um esclarecimento que costuma se perder nas manchetes: o lucro líquido do trimestre foi de R$ 212,9 milhões, uma queda de cerca de 21,8% frente ao mesmo período do ano anterior, com receita líquida de R$ 9,4 bilhões. O “lucro acima de R$ 2 bilhões” que circulou em várias publicações é, na verdade, o lucro bruto — não o líquido. A diferença importa: o lucro bruto desconta apenas o custo das mercadorias vendidas, enquanto o líquido considera despesas operacionais, financeiras e tributárias. Pesou também a queda de 7,3% nas vendas em mesmas lojas (SSS). Ou seja, a empresa lucra, mas a margem final está mais pressionada.
Apesar dos cortes, a rede segue robusta: continua com 306 lojas em operação e 18 centros de distribuição, e abriu quatro novas unidades no próprio trimestre. Por isso, falar em “adeus à gigante” não corresponde aos fatos.
Por que isso está acontecendo no setor?
O movimento do Grupo Mateus dialoga com um cenário mais difícil para o varejo supermercadista brasileiro, marcado por juros altos, aumento de custos logísticos e concorrência acirrada no atacarejo. Empresas de capital aberto têm revisado planos de crescimento para equilibrar expansão e rentabilidade — e a consolidação de lojas já existentes virou prioridade.
O cronograma de novas aberturas não foi cancelado em definitivo, mas passou a ser analisado com critério mais rigoroso.
O que esperar?
A reorganização do Grupo Mateus sinaliza menos “fim de uma gigante” e mais mudança de ciclo: da corrida por novas unidades para a busca por margem. Para o consumidor, o efeito prático aparece sobretudo nos estados onde lojas foram encerradas; para o setor, é mais um sinal de que a fase de expansão a qualquer custo deu lugar à disciplina financeira.
Fontes
Fonte primária (oficial): release de resultados do 1º trimestre de 2026 do Grupo Mateus, divulgado ao mercado em 14/05/2026. É o documento oficial por trás de todos os números financeiros e do fechamento de lojas.
- Relações com Investidores do Grupo Mateus (Central de Resultados → 1T26): https://ri.grupomateus.com.br
- CVM — documentos protocolados pela companhia (busca por “Grupo Mateus”, ticker GMAT3): https://www.rad.cvm.gov.br/
O fechamento das 28 lojas e os planos de eficiência foram confirmados pelo presidente do conselho de administração, Ilson Mateus Rodrigues, na teleconferência de resultados do 1T26.




