Entre as pesquisas em construção sustentável que ganharam força nos últimos anos, um destaque é o desenvolvimento de um material de construção com papelão e terra, pensado para reduzir emissões e custos em obras de pequeno porte e ampliar o acesso à moradia em regiões com poucos recursos industriais.
O que é o material de construção com papelão e terra?
De forma simplificada, trata-se de um sistema em que um “casco” de papelão industrial funciona como molde e suporte permanente para a terra compactada. Esse papelão costuma vir em forma de tubo ou painel reforçado, semelhante ao usado em embalagens técnicas e estruturas temporárias.
Dentro desse invólucro é colocado o solo úmido, que é comprimido em camadas finas com ferramentas manuais ou equipamentos vibratórios até atingir alta densidade. Quando o solo seca e endurece, forma-se um núcleo rígido, enquanto o papelão atua como contenção lateral e proteção física.

Por que a terra apiloada confinada em papelão reduz emissões?
A chamada terra apiloada confinada em papelão se destaca principalmente por dispensar o cimento como componente principal, reduzindo as emissões ligadas à queima em fornos de alta temperatura. Ao substituir esse ligante por compactação mecânica e confinamento físico, o impacto ambiental incorporado ao material diminui de forma expressiva.
Outro fator é a possibilidade de usar solo local, o que reduz o transporte de materiais pesados e o consumo de combustíveis fósseis. Em vez de carregar caminhões com blocos ou concreto pré-moldado, muitas obras passam a transportar principalmente tubos de papelão vazios e adotar resíduos de papelão reciclado, desviando-os de aterros.
Quais são as principais vantagens práticas desse material de baixo carbono?
No canteiro, o sistema funciona como uma espécie de “fábrica a céu aberto”, com elementos estruturais moldados e erguidos com relativa rapidez. Para entender melhor as possibilidades desse tipo de solução sustentável, vale destacar algumas vantagens frequentemente apontadas em estudos, protótipos e projetos-piloto.
- Menor pegada de carbono: emissões reduzidas em comparação com concreto convencional, devido à ausência de cimento na mistura principal.
- Uso de resíduos: aproveitamento de papelão reciclado na construção, integrando gestão de resíduos sólidos e obras civis.
- Construção com solo local: diminuição da dependência de materiais industrializados e de longos trajetos de transporte.
- Custo potencialmente menor: uso de insumos simples e abundantes favorece projetos de baixo orçamento.
- Desempenho térmico: paredes de terra compactada tendem a reduzir oscilações de temperatura interna quando dimensionadas corretamente.
Em quais tipos de projeto o papelão reciclado na construção é mais adequado?
Os estudos disponíveis indicam que o campo mais promissor para esse sistema está em edificações de baixa altura, sem grandes vãos ou cargas concentradas. Estruturas como casas térreas, pequenas escolas, centros comunitários, unidades de saúde de bairro e módulos temporários são exemplos recorrentes.
Nesses casos, a combinação de materiais alternativos para construção com solo local oferece desempenho estrutural suficiente, boa eficiência térmica e custos controlados. O material também se mostra interessante para abrigos emergenciais, salas de aula desmontáveis e edificações em áreas rurais com difícil acesso a concreto e aço.

Como funciona o passo a passo da construção com terra e papelão?
Para que a construção sustentável com terra alcance segurança e durabilidade, é importante seguir uma sequência de etapas técnicas básicas. Esses procedimentos permitem adaptar o sistema às características do solo, ao clima local e às exigências estruturais do projeto.
- Seleção do tipo de solo disponível e, se necessário, ajuste com frações arenosas ou argilosas.
- Definição da espessura e resistência do papelão, de acordo com o peso e a altura da parede.
- Compactação da mistura de terra e água em etapas, preenchendo gradualmente o interior das formas.
- Período de secagem e verificação de deformações antes da instalação de lajes ou coberturas.
- Previsão de proteção externa para o papelão, como rebocos, painéis ou revestimentos que o resguardem de umidade intensa.
Quais são os desafios e os próximos passos para esse tipo de material?
Para uso mais amplo, ainda são necessários ensaios adicionais, normas específicas, certificações e maior familiaridade de projetistas, construtoras e órgãos reguladores com o comportamento desse sistema. Também é fundamental estudar durabilidade em diferentes climas, desempenho frente à umidade e estratégias de manutenção ao longo da vida útil.
Mesmo assim, o material de construção com papelão e terra já aparece como alternativa relevante dentro do conjunto de soluções de baixo carbono. Ele aponta caminhos para obras mais eficientes, com menor impacto ambiental, uso inteligente de recursos locais e potencial de ampliar o acesso à habitação em contextos de vulnerabilidade social.




