Entre as alternativas estudadas para tornar a construção civil menos emissora de carbono, uma das propostas que mais chama atenção é o uso de concreto com conchas marinhas. A ideia parte do fato de que, enquanto o cimento tradicional tem forte peso nas emissões globais de CO₂, toneladas de conchas de frutos do mar são descartadas todos os anos em regiões costeiras, abrindo espaço para pesquisas que tentam transformar esse resíduo em componente de misturas cimentícias.
O que é o concreto com conchas marinhas e por que ele é estudado?
O concreto com conchas marinhas é um tipo de concreto em que parte do cimento ou dos agregados é substituída por resíduos de conchas de moluscos, como vieiras, ostras e mexilhões. Essa solução surgiu da necessidade de reduzir a dependência do cimento Portland, grande responsável pelas emissões de CO₂ na construção civil.
Ao mesmo tempo, indústrias de frutos do mar, restaurantes e mercados geram grandes volumes de conchas descartadas, especialmente em regiões costeiras. Aproveitar esse resíduo como insumo em misturas cimentícias cria uma conexão direta entre gestão de resíduos e redução de carbono, dentro da lógica de economia circular.

Como é produzido o concreto com conchas marinhas?
O ponto inicial do concreto com conchas marinhas é o descarte produzido por restaurantes, mercados de peixe e indústrias de processamento. Em vez de seguir para aterros ou acumular-se em áreas próximas à costa, essas conchas são desviadas para um fluxo de reaproveitamento, passando por triagem para remoção de restos orgânicos, lavagem e secagem controlada.
Na etapa seguinte, as conchas são moídas em diferentes faixas granulométricas, gerando desde pó muito fino até partículas mais grossas. O pó pode atuar parcialmente como fase ligante, enquanto grãos intermediários ajudam a preencher vazios entre areia e brita, com traços ajustados em laboratório para manter resistência, durabilidade e proteção das armaduras.
Quais são as vantagens ambientais do concreto com conchas marinhas?
O potencial de redução de emissões está diretamente ligado à diminuição da quantidade de cimento Portland em cada metro cúbico de concreto. Como a fabricação do clínquer libera grandes volumes de CO₂, qualquer corte em sua proporção tende a reduzir a pegada de carbono do material, podendo chegar, em cenários experimentais, a frações próximas de um terço em comparação com traços convencionais.
Além da mitigação climática, o concreto com conchas marinhas contribui para a gestão de resíduos costeiros. Em grandes volumes, conchas representam custo de descarte e risco ambiental, mas, quando usadas como insumo, passam a ser recurso. Em regiões litorâneas, isso favorece cadeias produtivas curtas e integração entre setores. Entre os principais benefícios observados estão:
- Menor consumo de cimento Portland por metro cúbico de concreto.
- Redução de resíduos costeiros enviados a aterros ou descartados em áreas sensíveis.
- Possível diminuição de transporte de matérias-primas em zonas litorâneas.
- Integração entre setores alimentício, pesqueiro e de infraestrutura, em lógica de economia circular.
Quais são os desafios para considerar esse concreto realmente sustentável?
Para classificar o material como verdadeiro cimento sustentável, é necessário ir além da simples substituição do cimento. Estudos de análise de ciclo de vida precisam incluir o consumo de energia na limpeza, secagem, moagem das conchas e transporte, comparando esses impactos com os de outros cimentos de baixo carbono e adições minerais.
Outro desafio é garantir regularidade de qualidade no fornecimento das conchas, evitando contaminações químicas ou biológicas. Isso exige protocolos claros de coleta, armazenamento e processamento, além de avaliações contínuas de desempenho mecânico, durabilidade em ambientes agressivos e impactos na alcalinidade do concreto.

Em quais aplicações o concreto com conchas marinhas é mais indicado hoje?
Na prática, inovações em concreto raramente são aplicadas diretamente em pontes ou grandes edifícios. O concreto com conchas marinhas vem sendo testado inicialmente em usos de menor risco estrutural, permitindo monitorar o comportamento em condições reais de serviço antes de avançar para elementos mais críticos.
Entre as aplicações apontadas como mais promissoras na fase atual estão pavimentos, peças pré-moldadas simples e mobiliário urbano. Em especial em obras públicas com metas de construção sustentável, esse tipo de concreto pode funcionar como vitrine de soluções de baixo carbono em contexto urbano.
- Pavimentos de calçadas, ciclovias e áreas de lazer.
- Blocos de vedação, pisos intertravados e peças pré-moldadas simples.
- Mobiliário urbano, como bancos, floreiras e pequenos painéis.
- Obras com indicadores de baixo carbono em regiões costeiras.
Quais passos são necessários para ampliar o uso estrutural desse concreto?
Para que o material avance em direção a pilares, lajes e vigas armadas, alguns pontos técnicos precisam ser consolidados. Isso inclui definir faixas seguras de substituição parcial do cimento para diferentes classes de concreto, comprovando desempenho em longo prazo em ambientes úmidos, secos e agressivos, além de avaliar corrosão das armaduras.
Também é fundamental incorporar critérios específicos em normas técnicas e guias de projeto, bem como estabelecer rotinas confiáveis de controle de qualidade, desde a coleta das conchas até a dosagem em usinas de concreto. À medida que esses requisitos forem atendidos, o concreto com conchas marinhas tende a ganhar espaço entre os materiais ecológicos utilizados em obras urbanas e de infraestrutura alinhadas às metas climáticas da próxima década.




