O interesse por concreto neutro em carbono cresce em um momento em que a construção civil é pressionada a reduzir emissões e repensar materiais tradicionais. Em vez de tratar o CO₂ apenas como resíduo industrial, algumas soluções passam a encará-lo como ingrediente do próprio concreto. Nos Países Baixos, uma pequena passarela para pedestres, com cerca de 7 metros de comprimento, virou um caso emblemático dessa mudança: é uma estrutura real, integrada a uma área urbana, que utiliza concreto estrutural projetado para ter balanço neutro de carbono.
O que é concreto neutro em carbono e como ele funciona?
Ao se falar em concreto neutro em carbono, a ideia central é que a soma entre emissões do material e o carbono que ele consegue armazenar resulte em um saldo próximo de zero ao longo do ciclo de vida. Isso envolve três dimensões: quanto CO₂ é liberado para produzir os insumos, quanto CO₂ é capturado e fixado no material e quanto CO₂ é evitado ao usar componentes reciclados em lugar de recursos virgens.
No caso da passarela holandesa, a mistura foi pensada para trabalhar nesses três pontos ao mesmo tempo. De um lado, eliminou-se o uso de areia e cascalho primários, substituídos por agregados reciclados fornecidos por empresas especializadas em mineração urbana. De outro, cerca de 30% do cimento tradicional foi trocado por um material da Paebbl, fabricado a partir de mineralização acelerada de CO₂.

Como o concreto que armazena CO₂ contribui para o clima?
O insumo da Paebbl chega ao canteiro já contendo dióxido de carbono transformado em minerais estáveis, o que permite que parte do CO₂ seja aprisionada de forma permanente na estrutura. Assim, o tabuleiro da ponte passa a funcionar como um pequeno reservatório de carbono, acumulando em torno de 66 kg de CO₂ fixados de maneira duradoura.
Em termos absolutos, o número é modesto, mas demonstra o conceito de concreto que armazena CO₂: quanto maior a escala de aplicação — em ciclovias, calçadas, passarelas e pequenas pontes — maior tende a ser o estoque urbano de carbono incorporado. Esse princípio abre espaço para cidades atuarem como “sumidouros” complementares de carbono.
Como foi construída a ponte neutra em carbono na prática?
A passarela é resultado de uma colaboração entre empresas de engenharia, cimento, reciclagem e tecnologias climáticas. A Heijmans coordenou o projeto e a execução da obra, adaptando a solução às exigências de infraestrutura urbana, enquanto a Paebbl forneceu o material que substitui parte do cimento, desenvolvido para armazenar CO₂ em forma mineral.
Na etapa de produção, a Van der Kamp BV fabricou o concreto em instalações industriais convencionais, mostrando que o processo pode ser escalado sem depender apenas de fábricas experimentais. A Urban Mine forneceu agregados reciclados, permitindo que cerca de 75% da mistura fosse composta por materiais circulares, e a CarStorCon integrou biochar na construção, adicionando carbono de origem biomassa.
Quais estratégias tornam o concreto estrutural mais sustentável?
Algumas escolhas de projeto foram decisivas para reduzir o impacto de carbono e demonstrar um modelo viável de concreto estrutural sustentável. Essas ações combinam redução de insumos emissores, aproveitamento de resíduos e tecnologias de captura e armazenamento de CO₂.
- Redução de cimento tradicional, com substituição de cerca de 30% do ligante.
- Uso massivo de reciclados, evitando areia e cascalho extraídos de rios e jazidas.
- Armazenamento permanente de CO₂ via mineralização e biochar.
- Produção em ambiente industrial comum, sem depender apenas de laboratório.

Quais são os impactos para a infraestrutura sustentável?
A ponte, apresentada como ponte neutra em carbono, surge em um contexto em que órgãos públicos e empresas começam a olhar para o chamado “carbono incorporado” nas obras. Isso inclui contabilizar o CO₂ emitido para fabricar cimento, aço, vidro e demais insumos usados na construção, e não apenas o consumo de energia em operação.
Nesse cenário, o projeto holandês oferece um modelo de como a infraestrutura sustentável pode avançar: transformar resíduos e entulhos em agregados reciclados, substituir parcela do cimento por ligantes de baixo carbono, aplicar biochar como reserva adicional de carbono e testar essas soluções em elementos de menor porte, como passarelas, ciclovias e mobiliário urbano.
O concreto neutro em carbono pode ganhar escala no setor?
A passarela não resolve sozinha a pegada climática da construção, mas sugere caminhos concretos para ampliar o uso de soluções semelhantes. Especialistas apontam que as aplicações iniciais mais prováveis incluem ciclovias, calçadas, praças, passarelas de pedestres, pequenas pontes e elementos pré-moldados em projetos urbanos.
Para que o concreto neutro em carbono se torne parte do cotidiano, é preciso ampliar a oferta de insumos circulares, organizar cadeias de suprimento para tecnologias de mineralização de CO₂, atualizar normas técnicas e adotar políticas de compra pública que considerem o carbono incorporado como critério de seleção. A experiência holandesa mostra que já é tecnicamente viável erguer estruturas usuais com concreto capaz de armazenar carbono, reduzindo o papel histórico do setor como grande fonte de emissões.




