Em 13 de maio de 2026, Manish Kumar discursou em lágrimas num evento no parlamento japonês, em Tóquio. Proprietário de um restaurante indiano em Saitama há 18 anos, residindo no Japão há quase três décadas, ele acabava de receber a notícia de que a renovação do seu visto de empresário havia sido negada pela Agência de Serviços de Imigração do Japão. A mensagem era direta: feche o negócio e volte para a Índia. Seus filhos, nascidos e criados no Japão, falam apenas japonês. O vídeo do discurso viralizou globalmente.
O que aconteceu com Manish Kumar e por que o visto foi negado?
Kumar é proprietário de um restaurante de culinária indiana em Saitama, prefeitura próxima a Tóquio, em operação há 18 anos. Ele entrou no Japão há cerca de 30 anos, construiu uma vida no país e comprou uma casa. Quando foi renovar o Business Manager Visa, o visto de empresário que permite a estrangeiros operar negócios e residir no Japão, a solicitação foi rejeitada com base nas novas regras implantadas pelo governo japonês a partir de outubro de 2025.
Durante o discurso no parlamento, Kumar perguntou diretamente: “Meus filhos nasceram aqui e estão no ensino médio. Eles só falam japonês. Todos os amigos deles são japoneses. Trabalhei muito, até comprei uma casa. Como é humano me dizer de repente para voltar à Índia?” A pergunta ecoou entre outros estrangeiros que enfrentam situação semelhante com a nova política migratória do país.
Quais são as novas regras do visto de empresário no Japão que geraram o problema?
O governo japonês revisou em outubro de 2025 os critérios do Business Manager Visa com o objetivo declarado de combater o uso fraudulento do sistema por pessoas que abriam empresas fictícias apenas para obter residência de longo prazo. As mudanças foram drásticas. O capital mínimo exigido saltou de 5 milhões de ienes para 30 milhões de ienes, um aumento de seis vezes. Passou a ser obrigatório contratar pelo menos um funcionário em tempo integral que seja japonês ou residente permanente. E os proprietários devem comprovar proficiência em japonês equivalente ao nível JLPT N2, uma das certificações mais exigentes da língua.
O impacto foi imediato e devastador para pequenos negócios. Segundo dados da própria Agência de Serviços de Imigração japonesa, as solicitações de visto de empresário despencaram 96% após as mudanças entrarem em vigor. O volume mensal de pedidos caiu de aproximadamente 1.700 para apenas 70, segundo o Japan Times. Restaurantes, lojas de família e pequenos comércios administrados por estrangeiros foram os mais afetados.

Os filhos de Manish Kumar também terão que deixar o Japão?
Esse é o ponto mais perturbador do caso. Os filhos de Kumar nasceram e cresceram no Japão, falam apenas japonês e têm toda sua vida social enraizada no país. O status migratório deles está vinculado ao do pai, o que significa que a deportação de Kumar pode arrastar a família inteira de volta a uma Índia que seus filhos praticamente não conhecem. O caso expõe um vácuo legal grave: o Japão não tem mecanismo automático de proteção para filhos de estrangeiros nascidos no território, ao contrário do que ocorre em países como o Brasil, que adota o princípio do jus soli.
O caso ganhou ampla repercussão porque Kumar não é o único na situação. Outros proprietários de pequenos negócios estrangeiros que vivem no Japão há décadas relatam negativas semelhantes e organizaram protestos em frente ao parlamento durante a semana de 13 de maio, reunindo indianos, nepaleses, paquistaneses e outros imigrantes que operam negócios no país há anos.
O que o caso de Kumar revela sobre a política migratória do Japão em 2026?
O Japão enfrenta uma contradição crescente. Por um lado, o país tem uma das populações mais envelhecidas do mundo e depende cada vez mais de trabalhadores estrangeiros para sustentar sua economia. Por outro, o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi endureceu as regras de imigração e aplica tolerância zero a irregularidades administrativas. As autoridades defendem que as novas regras são necessárias para garantir a credibilidade do sistema e evitar empresas fictícias. Críticos argumentam que medidas planejadas para combater fraude estão destruindo negócios legítimos e famílias que construíram décadas de contribuição ao país.
O caso de Manish Kumar é o retrato humano de uma política que, na teoria, atinge fraudadores e, na prática, alcança também quem trabalhou durante 18 anos, pagou impostos, criou filhos japoneses e comprou uma casa num país que agora pede que ele vá embora. Compartilhe com quem acompanha o debate sobre imigração e quer entender o que acontece quando políticas rígidas encontram histórias de vida construídas ao longo de décadas.




